The Navigator Company: O valor estratégico dos public affairs

Num contexto regulatório cada vez mais complexo, a construção de políticas públicas eficazes depende de um diálogo aberto e informado entre empresas, governos e sociedade.

Executive Digest
Novembro 6, 2025
9:58

Num contexto regulatório cada vez mais complexo, a construção de políticas públicas eficazes depende de um diálogo aberto e informado entre empresas, governos e sociedade.

POR: Ana Nery, Diretora de Public Affairs da The Navigator Company

Num mundo cada vez mais regulado, interdependente e exigente em matéria de sustentabilidade, o sucesso das empresas depende, em grande medida, da sua capacidade de relacionamento com as diversas entidades que fazem parte da sua esfera de influência, ou seja, as suas partes interessadas, e, em sentido mais amplo, com a sociedade. No caso de setores altamente regulados, com fortes externalidades ambientais e sociais – como é o setor florestal –, essa dimensão é ainda mais crítica.

Uma ligação mais próxima, entre as empresas e a sociedade, surge como essencial para que os negócios tenham um papel ativo na construção de soluções capazes de responder aos desafios com que se defrontam na esfera social e ambiental. Empresas como a The Navigator Company, que têm uma agenda clara de Sustentabilidade, são decisivas para gerar um impacto positivo e transformacional na sociedade e nas comunidades. Mas, para que isso aconteça, é fundamental desenvolver uma interação estruturada e informada com as entidades governamentais e demais intervenientes na construção das políticas públicas.

O atual contexto é particularmente desafiante para as organizações, uma vez que pressupõe um diálogo permanente com os stakeholders na tentativa de compreender as suas perceções e pontos de vista, mesmo quando estes são divergentes dos seus, procurando estabelecer pontos de consenso.

Gerar valor e crescimento sustentável, com responsabilidade, transparência e diálogo, são aspetos centrais do relacionamento das empresas com os seus stakeholders, nomeadamente os que se enquadram na esfera política.

Na The Navigator Company, reconhecemos esse desafio e escolhemos enfrentá-lo com uma abordagem estruturada, ética e transparente. É nesse contexto que se inscreve a nossa atividade de Public Affairs: uma função estratégica e transversal, que procura construir pontes entre a visão empresarial, a ação política e o interesse coletivo.

Ao contrário da imagem que a generalidade das pessoas tem, a atividade de Public Affairs não é opaca ou informal. Quando exercida com responsabilidade, ela constitui um pilar essencial da cidadania corporativa e da qualidade da decisão pública. E é essa a visão que temos vindo a consolidar.

Public Affairs é, na sua definição clássica, a interseção entre a estratégia empresarial e a política pública. Trata-se, na prática, de uma atividade de representação de interesses (advocacy) – legítima, profissional e fundamentada –, que visa acompanhar, antecipar e influenciar decisões políticas, legislativas e regulamentares com impacto na atividade da empresa.

Este papel ganha uma importância acrescida num país como Portugal, onde a atividade de lobbying continua por regulamentar, sendo muitas vezes confundida com práticas de influência ilegítimas. Essa perceção distorcida penaliza a confiança dos cidadãos nas instituições e compromete o desenvolvimento de políticas públicas mais participadas, informadas e eficazes.

Acreditamos que a regulamentação da representação de interesses – que, finalmente, parece estar na agenda política – será um passo decisivo para reforçar a transparência e elevar o nível de escrutínio da atividade. Mas enquanto esse quadro legal não se concretiza, o que cada organização faz voluntariamente no sentido da profissionalização e da abertura continua a ser determinante.

A The Navigator Company é uma das poucas empresas em Portugal com uma estrutura formal de Public Affairs, dotada de direção própria, ligação direta à Administração e recursos específicos. Isso significa que esta função não é acessória, nem residual. É, pelo contrário, uma componente integrante da nossa estratégia de longo prazo e da nossa abordagem sustentável à gestão do negócio.

Uma atuação estruturada é, por definição, mais transparente: porque está documentada, sujeita a regras internas, sujeita a escrutínio e orientada para objetivos claros. É também mais eficaz, porque permite antecipar tendências, desenvolver propostas consistentes, articular posições com parceiros institucionais e participar de forma informada nos processos de consulta pública.

Não se trata de marketing, nem de comunicação institucional: trata-se de gerar valor sustentável – para a empresa, para o setor e para o país.

INFLUENCIAR COM LEGITIMIDADE

A The Navigator Company é um produtor integrado de floresta, pasta, papel, tissue, packaging sustentável e bioenergia. A sua cadeia de valor começa na floresta plantada e termina em produtos que melhoram o dia a dia de milhões de pessoas, em mais de 130 países.

Mas mais do que o que produzimos, importa como o fazemos: com base numa gestão responsável dos recursos, em práticas de silvicultura sustentável reconhecidas por sistemas internacionais (FSC e PEFC), em inovação aplicada à produtividade florestal e em programas educativos e de sensibilização que reforçam a ligação à natureza e ao território.

Este modelo de criação de valor – ambiental, económico e social – só é possível num enquadramento político e legislativo coerente, estável e alinhado com os desafios que enfrentamos. E é por isso que os temas relacionados com a Floresta, em particular, têm sido uma das grandes prioridades da área de Public Affairs da empresa.

Sendo o cerne da atividade de Public Affairs a representação legítima de interesses, ou seja, a defesa fundamentada de posições estratégicas junto dos decisores, no caso da Navigator – área da Floresta –, essa representação assume várias formas: contributos técnicos para a construção de políticas públicas, participação em consultas legislativas, reuniões com decisores políticos, para além da articulação com associações setoriais e entidades europeias.

Entre os exemplos recentes mais relevantes encontra-se o nosso contributo para o Plano de Intervenção para a Floresta 2025-2050, apresentado este ano pelo Governo português, no qual procurámos defender soluções que valorizem a floresta de produção, em harmonia com a floresta de conservação, combatam o abandono rural, incentivem a gestão ativa, agrupada e em escala, e reconheçam o papel essencial do setor privado na valorização do património florestal do país, apoiando os produtores florestais e reforçando a coesão territorial.

A nível europeu, acompanhamos, em estreita ligação com as áreas técnicas da Navigator, o desenvolvimento de regulamentos como o EUDR (European Union Deforestation Regulation), por exemplo, que terá impactos diretos sobre a nossa atividade e sobre a fileira florestal europeia. No âmbito da CEPI (Confederation of European Paper Industries) e da BusinessEurope (Confederation of European Business), temos manifestado as especificidades do nosso setor e contribuído para uma abordagem mais equilibrada, que tenha em conta as diferenças de contexto entre países e seja capaz de valorizar as empresas que têm adotado as melhores práticas em matéria de gestão florestal. Um exemplo claro prende-se com a recente abertura para um novo adiamento da entrada em vigor do EUDR, numa carta da BusinessEurope para a Comissão Europeia, à qual nos opusemos, por acreditarmos que é crucial defender os produtos de base florestal europeus face à concorrência de outras regiões do mundo, onde o escrutínio da atividade não se rege pelos mesmos padrões de ética, exigência e responsabilidade.

Mas a atividade de Public Affairs na Navigator não se limita à escala nacional ou europeia. Existe uma preocupação constante em ouvir e envolver os territórios onde a empresa está presente, através das suas unidades industriais.

As Comissões de Acompanhamento das Comunidades (CAC) são um exemplo concreto dessa abordagem: fóruns de diálogo bilateral com os representantes locais, que permitem identificar preocupações, partilhar planos e encontrar soluções conjuntas. O processo de diálogo estruturado com as comunidades contribui para reforçar a legitimidade institucional da empresa e para uma relação mais próxima e responsável com o território.

Este trabalho ao nível regional representa um campo de atuação promissor, sobretudo tendo em conta a crescente importância das políticas territoriais na aplicação de fundos europeus e na promoção da coesão.

DAR VOZ À FLORESTA, COM RESPONSABILIDADE E VISÃO

Num momento em que se discute a neutralidade carbónica, a biodiversidade, a bioeconomia e o futuro das indústrias intensivas em energia, o setor florestal tem muito a dizer – e muito a contribuir. As bioindústrias de base florestal representam hoje uma das formas mais eficazes de descarbonizar a economia, sequestrando o equivalente a 20% das emissões fósseis da União Europeia.

Mas para que esse contributo seja efetivo, é preciso que as políticas públicas reconheçam e valorizem o papel das florestas de produção, que enfrentam hoje um contexto difícil: fragmentação, perda de escala, desinteresse das novas gerações, pressão urbanística, risco de incêndio, e desinformação.

É aqui que os Public Affairs podem fazer a diferença: ao tornar visível o que está em risco, ao apresentar propostas com base em dados e conhecimento técnico, ao garantir que a voz das empresas é escutada de forma legítima e transparente.

A atividade de Public Affairs não é uma arena de influência invisível, mas sim um instrumento legítimo de representação institucional. É, na sua essência, um exercício de cidadania organizacional – uma forma de as empresas contribuírem ativamente para a construção de políticas públicas mais equilibradas, eficazes e alinhadas com a realidade. Quando exercida com transparência, esta função reforça a qualidade democrática das decisões e amplia a representatividade das soluções.

Na Navigator, acreditamos que a transparência e partilha de conhecimento deve estar na base desta atividade. Ao estruturarmos esta área com recursos próprios, com ligação direta à Administração e com objetivos claros, estamos não apenas a defender os interesses da empresa, mas também a contribuir para um espaço público mais íntegro, mais participativo e mais orientado para o bem comum.

A floresta é um ativo estratégico para o país — económica, ambiental e socialmente. Gerir esse património exige visão, investimento e compromisso. Para que as políticas públicas respondam verdadeiramente aos desafios do setor, é essencial que escutem quem conhece o terreno e gere os recursos. E para que as empresas sejam, de facto, sustentáveis, têm de participar na definição das soluções que moldam o seu enquadramento e o seu futuro.

É nesse ponto de convergência entre conhecimento, responsabilidade e interesse coletivo que reside o valor dos Public Affairs. E é aí que a Navigator quer continuar a marcar presença – com rigor, com ética, com visão de longo prazo e com o sentido de dever que o setor e o país exigem.

Nota: A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Este artigo faz parte da edição de Outubro (n.º 235) da Executive Digest.

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