Tento é dinheiro.

Por Joana Pais, Professora do ISEG, Universidade de Lisboa, e coordenadora do XLAB-Behavioural Research Lab

Desde o início da pandemia vivemos, mais do que nunca, tempos de grande incerteza e ansiamos por regras claras que ofereçam parâmetros sobre o que é realmente seguro. Apesar dos esforços dos investigadores e responsáveis de políticas, poucas regras deste tipo têm sido formuladas e, as que o vão sendo, rapidamente ficam fora de validade.

O mundo que habitamos sempre foi um lugar incerto, não há garantias. Aprendemos a tolerar a incerteza porque faz parte da vida. Mas o desejo de pisar solo firme existe. Sabemos hoje que a sua ausência é característica das situações de stress. Mais, em certas situações, a incerteza é o principal ingrediente do stress.

Esta é a conclusão de um estudo científico experimental publicado na Nature por um grupo de neurocientistas. Os participantes foram repetidamente sujeitos a estímulos que, em alguns casos, estavam associados a um resultado negativo. Em cada repetição, apresentava-se a cada participante uma de duas fotografias possíveis de rochas, pedindo-se que adivinhasse se existia ou não uma cobra sob as rochas: dada a resposta, revelava-se ao participante o resultado; no caso de existência de uma cobra, a revelação era acompanhada por um choque elétrico aplicado na mão de forma controlada. Esta tarefa foi repetida 320 vezes por cada participante, variando-se a probabilidade da associação do estímulo (as duas versões da fotografia) ao resultado (existência/inexistência de cobra) entre valores muito enviesados (como 90/10) e não enviesados (50/50). Ao longo da experiência, monitorizou-se o nível de stress subjetivo através da realização de questionários e recolheu-se informação sobre medidas de stress fisiológico. Os resultados revelaram que os níveis de stress atingiram o pico nas repetições com probabilidade 50/50, ou seja, a incerteza de vir a receber um choque elétrico gera mais stress do que a certeza de o receber.

Choques elétricos à parte, compreender comportamentos em contexto de incerteza é fundamental e é um dos domínios privilegiados da economia comportamental. Desde logo, a economia comportamental explica a escolha de alternativas que não maximizam a satisfação média ou esperada (como preconiza a ciência económica tradicional), mas antes que evitam os piores resultados. Evitar surpresas desagradáveis é um motivo pelo qual estamos dispostos, por exemplo, a pagar mais por produtos de marcas que conhecemos. Por outro lado,  atribuímos valor a produtos ou serviços pelo simples facto de tornarem o mundo um lugar um pouco mais previsível. É o caso de plataformas que nos oferecem ratings de restaurantes e hotéis, e que nos permitem reduzir a incerteza associada a frequentar um restaurante diferente ou variar o destino de férias. Outras, como a Uber, não só revelam à partida informação sobre o condutor para aumentar a confiança, mas também permitem ao utilizador ver, em tempo real, o percurso feito pelo condutor e prever com exatidão o momento em que deve ir ao seu encontro.

Ninguém gosta de esperar, mas, sobretudo, não gosta de esperar sem saber quanto tempo terá de o fazer. Talvez num mundo ideal não existam filas de espera, tal como no novíssimo Continente Labs. Entretanto, outros labs, os das ciências comportamentais, ajudam a compreender o mundo que nos rodeia, tornando-o mais previsível. Tento é dinheiro.

de Berker, A., Rutledge, R., Mathys, C. et al. Computations of uncertainty mediate acute stress responses in humans. Nat Commun 7, 10996 (2016). https://doi.org/10.1038/ncomms10996

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