Tendências 2022: Análise de Clara Raposo, Dean do ISEG

Reunimos um conjunto de presidentes e CEO portugueses que nos ajudaram a traçar as perspectivas económicas para o país e empresas. E revelam também a medida que gostavam de ver debatida nos programas eleitorais do partidos


1. Quais as perspectivas para 2022 para o País, Economia e no seu sector de actividade?

Do meu ponto de vista, as perspectivas para 2022 são francamente boas para o País e para a Economia. Com um senão que explicarei no fim da resposta a esta primeira pergunta.

A pandemia trouxe-nos o maior desafio de que tenho memória: o País tomar medidas e adoptar comportamentos para salvarmos vidas em risco imediato. Estamos, há dois anos, com sucesso, nessa luta. Tenho a expectativa de que a maior gravidade desta pandemia tenha sido ultrapassada e estejamos agora numa nova fase de adaptação. A minha “intuição educada” diria que na próxima Primavera-Verão retomaremos algo próximo de normalidade no que diz respeito a distanciamento físico e socialização.

A pandemia trouxe-nos também uma crise económica com características nunca antes vistas: 1) Inicialmente uma paragem completa de muitos sectores de actividade – assemelhando-se a uma perda de “produção” como numa grande guerra, mas sem perda de capacidade produtiva (“capital”, de um certo ponto de vista) e controlando-se a perda de vidas (“trabalho”, numa função de produção clássica); 2) Um apoio, ímpar na história dos países desenvolvidos, de dinheiro público (de todos, portanto) para socorrer empresas em dificuldade. E também os seus trabalhadores e cidadãos em geral; 3) Vimos liberdade de movimentos limitada, mas – sejamos sérios – creio que não sentimos a democracia a vacilar no nosso país; 4) Tivemos a maior ligação de sempre de toda a população de um país a uma comunicação muitíssimo frequente e regular das autoridades com responsabilidades na área da saúde (e não só); 5) Assistimos a um acelerar inesperado da digitalização de muitas actividades económicas e ao aparecimento de novas actividades que nasceram desta oportunidade.

No caso português, chegámos à pandemia vindos de uma trajectória de austeridade seguida de recuperação de contas públicas e algum rendimento do trabalho. A pandemia chegou no momento em que começávamos todos a recuperar ambição. Tivemos de a deixar em stand-by.

Mas, entretanto, há que não esquecer o enorme financiamento europeu que está a chegar. Muito atractivo, pode resolver muitos problemas e estará à disposição de quem apresentar boas e ambiciosas ideias de negócios. O risco está em só aparecerem ideias fraquinhas – e não me refiro ao PRR que foi desenhado nos países da UE em tempo record para pôr as economias a mexer, mas sim ao que vem a seguir no Quadro Financeiro Plurianual. É aí que identificaremos os empresários – os antigos e os que vão ser os novos – que vão fazer crescer a economia no futuro. Isso não acontecerá por decreto.

Resumindo: 2022, momento de enorme oportunidade, o início de uma década com muito financiamento para ser investido.

Deixo esta ressalva: o actual debate para as legislativas deixa-me estupefacta, pelo grau de demagogia atingido, não só pelos populistas do costume mas também por outros. Esperemos que o futuro do País não fique nas mãos de um certo tipo de provincianismo, por vezes cool, mal engravatado, que é capaz de algumas formas de negacionismo, quanto à saúde pública e ao impacto das alterações climáticas nas vidas dos descendentes. Os temas não são só portugueses (ambiente, concorrência fiscal, …) – temos de negociar, enquanto país, com os aliados certos e ter aí uma voz credível. Não é em períodos eleitorais que se faz o debate sério sobre os verdadeiros grandes temas – para a economia e sociedade.


2. Que medida gostava que constasse nos programas dos partidos para as eleições legislativas de Janeiro 2022?

Enquanto nação, o que somos é história, herança cultural colectiva, pessoas e território. Nada vale a pena se não for para as pessoas e se não tivermos um espaço que seja nosso. Temos de ter gente nova bem preparada e que queira trabalhar e investir o seu capital pessoal aqui.

As medidas essenciais para mim são as que trouxerem esta confiança e perspectiva de passar de testemunho aos profissionais mais novos. Um pacto inter-geracional está a fazer falta. Deve-se simplificar o acesso a benefícios claros para atrairmos e fixarmos esta geração. Seja fiscalmente, seja com alteração de hierarquias e progressão de carreiras. E, com essa geração, investir e trabalhar em projectos transformadores da economia, que são “caros”, mas que são uma causa, um “seguro”. Pela vida.


Artigo publicado na revista Executive Digest n.º 190 de Janeiro de 2022

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