Os tempos de espera para consultas médicas, acesso a especialistas e realização de cirurgias continuam a representar um dos maiores desafios dos sistemas de saúde europeus. Dados divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), no relatório Health at a Glance 2025, revelam que, em vários países, os doentes enfrentam atrasos que podem prolongar-se durante meses e, em alguns casos, quase dois anos antes de receberem tratamento.
A OCDE alerta que o adiamento dos cuidados médicos tem consequências diretas na qualidade de vida dos pacientes, prolongando períodos de dor, incapacidade e sofrimento, além de poder comprometer os resultados clínicos após a intervenção. Segundo o organismo, os atrasos tornaram-se uma preocupação crescente de política pública em vários países europeus, refletindo dificuldades persistentes na capacidade de resposta dos sistemas nacionais de saúde.
Consultas de medicina geral também registam atrasos
O problema começa muitas vezes antes mesmo de os doentes chegarem a um especialista. Em diversos países europeus, conseguir uma consulta com um médico de clínica geral ou com um enfermeiro pode implicar uma espera superior a uma semana.
A Suécia surge entre os casos mais preocupantes, com 23% dos pacientes a aguardarem mais de sete dias por uma consulta. Em França e na Alemanha, a proporção atinge 20%, enquanto no Reino Unido se situa nos 18%.
Quando são incluídos os utentes que aguardam entre seis e sete dias, os números aumentam significativamente. Na Suécia, cerca de 30% dos pacientes esperam quase uma semana ou mais por uma consulta. Em França, essa percentagem sobe para 28%, no Reino Unido para 27% e na Alemanha para 26%.
Reino Unido lidera nas esperas para especialistas
Os atrasos tornam-se ainda mais evidentes no acesso a consultas de especialidade. O Reino Unido apresenta o cenário mais grave entre os países analisados, com 11% dos pacientes a declararem ter esperado mais de um ano para serem observados por um especialista.
Em França e na Alemanha, apenas 2% reportaram tempos de espera superiores a doze meses. Ainda assim, os períodos intermédios continuam a ser consideráveis.
Em França, 43% dos pacientes aguardam entre dois meses e um ano por uma consulta especializada. No Reino Unido, essa situação afeta 32% dos utentes, enquanto na Suécia representa 29% e na Alemanha 22%.
Os dados mostram que, mesmo quando os atrasos não ultrapassam um ano, milhões de cidadãos europeus continuam sujeitos a longos períodos de espera antes de obterem acompanhamento médico especializado.
Portugal entre os países mais afetados nas cirurgias às cataratas
As listas de espera para cirurgias às cataratas constituem outro dos indicadores analisados pela OCDE. Neste caso, o estudo mede a percentagem de pacientes que aguardam mais de três meses entre a avaliação por um especialista e a realização da operação.
A Noruega lidera este ranking, com 81% dos doentes a esperarem mais de três meses. Segue-se a Finlândia, com 71%.
Portugal surge entre os países mais afetados, juntamente com o Reino Unido, registando 58% dos pacientes em espera superior a três meses. Em Espanha, a percentagem atinge 53%.
Em contraste, a Polónia apresenta apenas 13% dos doentes nessa situação, seguida pela Hungria com 17%, pela Suécia com 22% e pela Itália com 27%.
Impacto da pandemia continua visível
A comparação entre 2019 e 2024 demonstra que a pandemia de covid-19 continua a produzir efeitos duradouros nos sistemas de saúde europeus.
Dos nove países analisados pela OCDE nesta área, sete registaram um agravamento dos tempos de espera para cirurgia às cataratas. Apenas a Polónia e a Hungria conseguiram reduzir os atrasos.
No Reino Unido, a proporção de doentes à espera mais de três meses aumentou de 22% para 58% em apenas cinco anos. Na Noruega, o indicador subiu de 65% para 81%.
Os dados sugerem que muitos sistemas de saúde continuam a recuperar da pressão acumulada durante os anos da pandemia, enfrentando dificuldades para responder à procura crescente.
Eslovénia aproxima-se dos dois anos de espera para próteses da anca
Uma das situações mais extremas identificadas pela OCDE diz respeito às cirurgias de substituição da anca.
Na Eslovénia, o tempo médio de espera atingiu 667 dias em 2024, o equivalente a quase dois anos. A Polónia surge na segunda posição, com 343 dias.
Seguem-se a Hungria, com 209 dias, e o Reino Unido, com 174 dias de espera.
A OCDE recorda que estes valores representam medianas estatísticas, o que significa que metade dos pacientes aguardou ainda mais tempo do que os números indicados.
Especialistas apontam falta de capacidade e envelhecimento da população
Segundo a OCDE, as listas de espera resultam, em grande medida, de um desequilíbrio entre a procura e a oferta de serviços de saúde.
O investigador Luigi Siciliani, da Universidade de York, sublinha que os tempos de espera variam significativamente entre países devido a fatores como limitações de capacidade instalada, opções de financiamento, disponibilidade de profissionais de saúde e dificuldades em acompanhar uma procura crescente impulsionada pelo envelhecimento da população e pela evolução tecnológica.
O especialista considera que os atrasos nos cuidados não urgentes constituem atualmente uma preocupação central para muitos sistemas de saúde, onde os pacientes podem esperar semanas ou meses para aceder a consultas, exames ou intervenções cirúrgicas.





