“Tempestade perfeita” deixa ouro perto de um dos mais desenfreados mercados em alta da história

De acordo com vários analistas, há uma tempestade perfeita que se está a instalar no valor deste porto seguro por excelência e que isso até pode catapultá-lo para competir com alguns dos maiores e mais desenfreados mercados em alta da história

Francisco Laranjeira

O ouro sempre foi um dos ativos mais valorizados: depois de ter excedido repetidamente os máximos históricos, o metal precioso pode estar perto de um registo muito diferente e muito mais complicado: de acordo com vários analistas, há uma tempestade perfeita que se está a instalar no valor deste porto seguro por excelência e que isso até pode catapultá-lo para competir com alguns dos maiores e mais desenfreados mercados em alta da história.

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Fevereiro e abril ficaram marcados pelo disparar do preço: em 2024, a onça já avançou quase 19,58%, chegando aos 785,73 dólares – no entanto, desde julho, sofreu um impulso final, com uma subida de 5,8%, alimentada por uma combinação de fatores: cortes de taxas, conflitos geopolíticos, mudança de reservas dos bancos centrais, entre outros, o que potenciou novos máximos históricos absolutos, superiores aos verificados na Grande Inflação, na década de 1970 (818,73 euros).

Segundo James Luke, gestor de fundos especializado em commodities da ‘Schroders’, o cenário mais altista desde então e que os preços (retirando a inflação) que foram alcançados naquele momento serão superados – há uma série de fatores que estão “a combinar-se hoje para abrir um caminho para um impulso global sustentado e múltiplo na oferta de ouro. Na nossa opinião, isso poderia desencadear um dos mercados em alta mais fortes desde que o presidente Nixon fechou a porta ao ouro em novembro de 1971, encerrando a conversibilidade do dólar americano em ouro”.

Em primeiro lugar, para explicar esta nova era do ouro, os especialistas da ‘Schroders’ salientam como o fator geopolítico levou os bancos centrais de todo o mundo a comprar enormes quantidades. “As liquidações ocidentais foram surpreendidas por compras por parte de bancos centrais, investidores e famílias no Oriente. Esta dinâmica de mudança tem sido liderada pela China, mas não tem sido apenas uma realidade deste país; tem havido também aumentos na procura no Médio Oriente.”

Segundo o último relatório do Conselho Mundial do Ouro, os bancos centrais compraram cerca de 1.037 toneladas de ouro, o segundo valor mais elevado da história, só superado pelo ano de 2022 (com 1.082 toneladas). Os últimos dados disponíveis são os relativos ao primeiro trimestre do ano onde as compras aumentaram, de facto, passando de 286 toneladas em 2023 para 289 em 2024. Desta vez com os bancos asiáticos a liderarem a dinâmica, com a Turquia (30,12), China (27) e Índia (18,5) no comando das compras líquidas.

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Segundo o especialista, o principal motivo para justificar um aumento histórico está nos números recentes. “As mais de 1.000 toneladas de ouro (20% da procura global) adquiridas pelos bancos centrais em 2022 e 2023, um ritmo que continuou no primeiro trimestre de 2024, é potencialmente sísmico. Parece inteiramente plausível que a atual dinâmica tensa dos países de poder estabelecido/poder emergente, combinado com a fragilidade fiscal que paira não só sobre a moeda de reserva emitida pelos EUA, mas também sobre todo o bloco económico desenvolvido, poderia desencadear um movimento sustentado em direção ao ouro.” Em suma, mesmo com os atuais aumentos, “o mercado do ouro não é suficientemente grande para absorver um movimento tão sustentado sem aumentar muito os preços”.

Esta viragem parece ter vindo para ficar, com os bancos centrais a apoiarem o preço do ouro contra todas as probabilidades. “O aumento da tensão entre os Estados Unidos e a China e as sanções impostas à Rússia levaram a compras recordes de ouro pelos bancos centrais como ativo monetário de reserva.” Os bancos centrais (liderados pela China, Singapura e Polónia) têm estado atentos, “numa perspetiva de longo prazo. As compras dos bancos centrais refletem bem a evolução da dinâmica geopolítica e monetária/fiscal global”.

Fora o movimento que tem gerado nos bancos centrais, a imagem de uma nova ordem geopolítica, com vários países a tentarem criar stocks de ouro para diversificar as suas reservas monetárias face a possíveis sanções dos EUA. Os especialistas salientaram também que a tensão geopolítica está a aumentar vertiginosamente na Ucrânia e no Médio Oriente. “As tensões geopolíticas no Médio Oriente e a especulação sobre os próximos cortes nas taxas de juro por parte da Reserva Federal dos EUA são um fator determinante”, relataram os especialistas do ‘Commerzbank’.

No entanto, a mudança nas taxas de juro foi fundamental para explicar uma era renovada para o ouro. Depois dos fracos dados de emprego nos EUA, a previsão dos mercados de swap relativamente aos cortes da Reserva Federal passou de apenas dois movimentos de 25 pontos base (e com muitas dúvidas sobre isso) para assumir um corte de 50 pontos em setembro e 125 pontos base no total para dezembro.

Espera-se algo semelhante com o BCE, embora de forma menos intensa. O corte nas taxas, que já ocorreu na reunião de junho, somaria agora três cortes até dezembro, segundo o mercado, o que representa uma mudança em relação às duas que eram tidas como certas há um mês, mas muito mais leve do que a mudança radical com o Fed. “A mudança de muitos bancos centrais no sentido de cortes nas taxas, juntamente com as expectativas de um dólar mais fraco, apoiará o ouro no curto prazo”, referem os especialistas.

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No entanto, a grande chave está no dólar, pois espera-se que caia devido às taxas e a uma economia enfraquecida. Do Credit Mutuel explicaram que uma moeda mais barata graças a esta queda nas taxas de juros encorajará “a continuação da tendência ascendente do ouro”. Já o BCA Research frisou que “o contexto fundamental é favorável para os preços do ouro num horizonte de investimento tático. A viragem de muitos bancos centrais para cortes nas taxas, juntamente com as expectativas de um dólar mais fraco e uma dinâmica de preços positiva, irá apoiam o metal amarelo no curto prazo. Entre os grupos de mercadorias, os metais preciosos são os menos sensíveis ao ciclo económico e o ouro, em particular, superou outros metais preciosos durante os períodos de recessão.”

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