O presidente da Comissão Executiva e vice-presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos, Paulo Moita de Macedo, defendeu esta quarta-feira, na XXX Conferência Executive Digest, que o maior desafio da economia portuguesa não está na falta de soluções, mas sim na sua concretização.
“Andamos sempre à procura da resposta do milhão de dólares, mas vejo muitas soluções — o que falta mesmo é capacidade de execução”, afirmou o responsável, sublinhando que a dificuldade em transformar estratégias em resultados concretos continua a ser um dos principais entraves ao desenvolvimento.
Na sua intervenção, que iniciou com uma análise ao contexto macroeconómico global, Paulo Moita de Macedo destacou a mudança de paradigma trazida pelos Estados Unidos, apontando a liderança política como cada vez mais próxima de uma lógica empresarial. Referindo-se a Donald Trump como um “CEO”, salientou o papel das grandes empresas norte-americanas — nomeadamente nos setores da energia e defesa — na condução da economia, bem como o recurso a tarifas comerciais como instrumento para financiar o défice, com impactos diretos nas economias europeias, incluindo Portugal.
Ainda no plano internacional, o gestor chamou a atenção para a ausência de uma relação clara entre taxas de juro e investimento. “Quando as taxas estiveram em níveis historicamente baixos, o investimento não disparou; e mesmo com taxas mais elevadas, manteve-se débil”, notou, defendendo que, perante fatores externos incontroláveis, o foco deve estar nas variáveis que o país consegue influenciar.
Burocracia, demografia e confiança: os bloqueios internos
Olhando para os constrangimentos internos, Paulo Moita de Macedo identificou diversas áreas críticas.
Apesar dos progressos registados, o défice demográfico continua a ser um desafio estrutural, apenas mitigável através da imigração. O aumento da esperança média de vida traz também novas exigências às empresas e ao Estado, desde logo na forma como se aproveita o conhecimento acumulado das gerações mais velhas e na adaptação da oferta de produtos a uma população mais envelhecida — e com maior concentração de património.
Já a burocracia surge, segundo vários estudos citados, como o principal fator penalizador para as empresas. A carga regulatória deverá, aliás, manter-se como o maior risco para a competitividade europeia nos próximos anos. A este cenário soma-se a baixa confiança dos cidadãos nas instituições públicas, com uma procura crescente por mecanismos de controlo da corrupção e maior eficácia regulatória.
Num contraste que considera significativo, o gestor apontou que Portugal apresenta bons resultados em indicadores “soft”, como qualidade de vida, inclusão e reputação, mas revela fragilidades nas áreas que exigem maior investimento público e privado.
Inovação, investimento e novas oportunidades
No plano económico, destacou sinais positivos na inovação, nomeadamente no crescimento das exportações de serviços, tecnologias de informação e consultoria. Ainda assim, sublinhou a necessidade de maior escala e investimento para reforçar a competitividade.
Entre as áreas com maior potencial de crescimento, apontou o comércio eletrónico, cloud, cibersegurança, software e baterias. Quanto à inteligência artificial, revelou que a Caixa Geral de Depósitos já a utiliza de forma transversal, com especial destaque para a aceleração na produção de código.
No entanto, criticou a dificuldade das empresas portuguesas em realocar recursos, optando frequentemente por adicionar novos meios em vez de os redistribuir de forma estratégica — uma limitação que considera transversal à economia.
Apesar do contexto de incerteza global, marcado por tensões geopolíticas e elevada carga fiscal, Paulo Moita de Macedo destacou um aparente paradoxo: “As coisas não estão boas, mas a generalidade das empresas apresenta resultados positivos e mantém-se otimista.”
Como exemplo do dinamismo empresarial, referiu que, em 2025, a Caixa Geral de Depósitos concedeu seis mil milhões de euros em novo financiamento a empresas, acima da média do mercado.
Contas públicas estáveis, mas desafios na governance
Na vertente das finanças públicas, o responsável mostrou-se confiante, afastando cenários de descontrolo da dívida e sublinhando que Portugal apresenta um desempenho comparativamente sólido face à zona euro.
Já ao nível da governance, defendeu uma maior exigência nos conselhos de administração. “Não basta ter pessoas simpáticas nos boards; é preciso que acrescentem valor”, afirmou, apelando a uma maior intervenção e responsabilidade dos órgãos de gestão.
A concluir, Paulo Moita de Macedo reforçou a ideia central da sua intervenção: o país conhece muitos dos caminhos a seguir, mas continua a falhar na sua execução. “Temos de delinear soluções, mas, sobretudo, perceber como as executamos”, concluiu.
A XXX Conferência Executive Digest decorre esta quarta-feira, na Culturgest, sob o tema “Os caminhos para um Portugal Extraordinário”, e conta com o apoio da Caixa Geral de Depósitos, Delta Q, Fidelidade, MC Sonae, Nova SBE, Randstad, Recordati, Steelcase, Tabaqueira/Philip Morris, Unilever, CTT, Lusíadas Saúde, Vodafone, Galp, e ainda com a parceria da Neurónio Criativo, Sapo, SENO. A Sociedade Ponto Verde é o Parceiro de Sustentabilidade do evento.









