As condições dos hospitais portugueses para lidar com doentes de COVID-19 que necessitem de cuidados intensivos começam a dar sinais de fraqueza. Com o número de pessoas em estdo crítico a aumentar 20 vezes em menos de três semanas, as unidades de saúde preparam-se, dentro do possível, para dar resposta à trajectória ascendente deste tipo de casos.
«Temos de estar preparados para o impreparável», afirma Gustavo Carona, médico no hospital de Pedro Hispano, em Matosinhos, ao jornal Público. Adianta ainda que é como «andar num trapézio sem rede», dada a imprevisibilidade da situação.
No entanto, a preparação – ainda que meio às escuras – é necessária para que os cuidados intensivos não colapsem como aconteceu em Itália ou Espanha. No caso deste hospital de Matosinhos, isso significa duplicar o número de camas para doentes críticos, aproveitando a área de recobro da cirurgia de ambulatório – uma vez que todas as operações não urgentes foram adiadas.
Em menos de um mês, sublinha o Público, deverá também existir uma nova ala com 11 camas fora do hospital. Soma-se ainda a possibilidade de ter mais 17 camas no ginásio de medicina física, medida a activar em caso de catástrofe. A nível nacional, o rácio nacional de camas de cuidados intensivos por 100 mil habitantes (6.4) é dos mais baixos da Europa, adianta ainda o mesmo jornal.
Mas são as camas suficientes? Há duas semanas, a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) lançou um programa de financiamento para adquirir ventiladores, monitores cardíacos, bombas e seringas infusoras, entre outros materiais necessários. No entanto, os equipamentos prometidos demoram a chegar.
Ontem, o secretário de Estado da Saúde voltou a garantir que o Governo está em condições de duplicar a capacidade de ventilação dos hospitais nacionais, entre ofertas, compras e empréstimos. Segundo António Lacerda Sales, existem neste momento 1142 ventiladores, dos quais 528 em cuidados intensivos, 480 nos blocos operatórios e mais 134 com capacidade de expansão.
A estes deverão juntar-se 400 ventiladores invasivos doados (muitos dos quais já nos hospitais, outros chegam em breve) e outros 140 não invasivos emprestados. Há ainda uma ecomenda de 900 unidades a assinalar, dos quais deverão chegar 144 ainda esta semana.
Além da questão das camas e dos ventiladores, há ainda que levar em consideração a componente humana. «Os ventiladores compram-se, o espaço físico adapta-se, mas os profissionais de saúde não se fazem em fábricas», sublinha Gustavo Carona. Faltam médicos especialistas em cuidados intensivos e regista-se uma escassez ainda maior de enfermeiros treinados nesta área. Sendo que é necessário um enfermeiro para cada dois doentes em cuidados intensivos.
João Gouveia, que preside à Sociedade Portuguesa de Medicina Intensiva e lidera a task force recentemente criada pela Direcção-Geral da Saúde para organizar a resposta à pandemia, recomenda que os hospitais aproveitem os profissionais com treino em medicina intensiva – anestesistas, internistas e cardiologistas, por exemplo.
«Estamos a tentar aprender com a experiência de Itália. A estratégia passa por maximizar ao máximo a capacidade instalada, recuperando ventiladores que estavam encostados e arranjando alguns com peças em falta – e estes são mais de uma centena. Estamos também a tentar que todas as ordens de compra sejam satisfeitas a tempo. Já há datas de chegada para alguns equipamentos, o que me deixa um pouco mais descansado», adianta ao Público.
Para que o cenário de Itália não se repita por cá, é essencial que as previsões de atraso no pico se cumpram: só dessa forma haverá tempo suficiente para os hospitais se prepararem. No entanto, caso se chegue à fase de catástrofe, João Gouveia explica que será precisa uma triagem mais rigorosa, «mas que não significa à partida que os mais velhos serão os excluídos». O que será tido em conta será o potencial de benefício, ou seja, se os doentes terão capacidad de sair dos cuidados intensivos com alguma qualidade de vida, «não com o coração a bater e em grande sofrimento».









