“Os méritos do estudo em casa são méritos permanentes, válidos daqui a seis meses, daqui a um ano. Este é um serviço que veio para ficar”, afirmou Gonçalo Reis, presidente executivo da RTP, no “Smart Portugal Webinar, iniciativa que debateu o “Ensino no pós-pandemia: desafios da inclusão territorial”, numa organização da NOVA Cidade – Urban Analytics Lab, o laboratório de inteligência urbana da NOVA Information Management School (NOVA IMS).
A telescola foi uma das soluções encontradas pelo Governo, em parceria com o serviço público de televisão, para garantir o acesso a conteúdos educativos a todas as crianças do Ensino Básico e tem batido recordes de audiências nas manhãs televisivas. “Temos aulas com 500 mil pessoas”, detalhou Gonçalo Reis.
O serviço está disponível também na RTP Play, onde o número de visitantes semanais passou de um milhão para 1.8 milhões, e chega ainda a Angola e a Moçambique. “Temos relatos de avós que vêm a telescola para aprenderem e terem conversa com os netos, é um espaço de comunidade”, adianta o presidente executivo da RTP.
Um serviço que nasceu da necessidade de inclusão e coesão social e territorial do ensino, no atual contexto de pandemia. Com esta iniciativa, “constatou-se o que se sabia: que todos os alunos tinham acesso a TV, mas muitos não têm acesso a PC ou tablet. Mais grave, constata-se mais do que nunca, que a cobertura de fibra ótica não existe numa boa parte do país, o que coloca os cidadãos numa situação de grande desigualdade. Só no concelho de Viseu, cerca de um terço não está coberto para não falar da inexistência de cobertura GSM”, nota o autarca António Almeida Henriques, que também marcou presença neste evento.
E deixa o repto ao Governo: “Que mobilize os operadores, participando de uma forma direta, para que a rede de fibra ótica chegue a todas as casas, não só pelas questões do ensino, mas também da economia, pela promoção da coesão territorial. No GSM o mesmo panorama, tantos anos depois existem autênticos buracos negros sem qualquer cobertura, e sem simetria na qualidade de acesso por parte dos operadores”.
O plano das infraestruturas, a nível de equipamentos, rede e conectividade, é precisamente o primeiro eixo do Plano para a Transição Digital na Educação, que está a ser ultimado pelo Governo, além da capacitação dos professores e da produção de conteúdos educativos adaptados a esta fase de transição.
João Costa, Secretário de Estado Adjunto e da Educação garante que o Plano “está a ser produzido de forma muito
acelerada nas suas diferentes vertentes”, estrutura financeira e estabelecimento de prioridades. “O atual momento deu-nos uma filigrana das necessidades de equipamentos e de rede por todos e país. O objetivo do Governo é darmos uma resposta muito melhor às escolas no próximo ano letivo, do que aquela que estamos a conseguir dar agora, até porque estamos a falar de operações financeiras de grande complexidade e também de um momento de rutura de stocks”, adianta.
Contudo, o responsável político considera que a principal lição a retirar deste período é que nada substitui, no processo educativo, a relação presencial. “Certamente ficaremos com recursos, com outro know-how, mas o ato educativo é, sobretudo, uma relação que se estabelece presencialmente”.
E deixa ainda o alerta: “O ensino básico e secundário é um sistema educativo mas é, também, um sistema de proteção social. Há crianças que só comem porque comem na escola, há crianças que são identificadas como crianças em risco de violência, de abusos, de negligência, de maus tratos porque a escola deteta estas marcas. Há comunidades e grupos que só estão na escola porque é obrigatório. Com o ensino à distância, essa função social da escola está seriamente
comprometida”.




