A vaga de despedimentos no setor tecnológico continua a acelerar em 2026 e a inteligência artificial já surge associada a mais de metade dos cortes anunciados desde o início do ano. Segundo uma análise da ‘TradingPlatforms‘, feita a partir de dados de plataformas de monitorização de despedimentos, bases WARN nos Estados Unidos e notícias independentes, o setor tecnológico registava 139.736 postos de trabalho eliminados até 8 de junho, dos quais cerca de 85.067, ou 61%, estavam ligados a reestruturações relacionadas com IA.
Os dados surgem numa altura em que a Google, através da Alphabet, terá iniciado uma nova ronda de cortes sem anúncio oficial, com estimativas de fontes do setor a apontarem para centenas ou mesmo milhares de postos de trabalho afetados nos Estados Unidos e noutros mercados. Segundo a análise, os cortes poderão atingir equipas de cloud e cibersegurança, incluindo áreas ligadas à inteligência contra ameaças digitais.
A dimensão da vaga é significativa. Desde 1 de janeiro, o setor tecnológico perdeu, em média, 884 trabalhadores por dia. Se este ritmo se mantiver até ao final do ano, o total anual poderá ultrapassar os 320 mil despedimentos, consolidando 2026 como mais um ano de forte ajustamento para a indústria tecnológica global.
IA passa a ser a explicação dominante
A inteligência artificial tornou-se a justificação mais frequentemente citada para despedimentos no setor tecnológico na América do Norte e na Europa. Empresas de vários mercados apontam investimentos em IA, reorganização de fluxos de trabalho, automação e modelos operacionais mais eficientes como razões para reduzir equipas.
A ‘TradingPlatforms’ sublinha, no entanto, que a relação entre IA e despedimentos nem sempre significa substituição direta de trabalhadores por sistemas automáticos. Em muitos casos, as empresas estão a cortar custos para financiar infraestruturas de inteligência artificial, centros de dados, novas equipas especializadas ou modelos de negócio assentes em maior automação.
Entre os casos mais recentes surgem empresas como Intuit, Amdocs e Wix. No caso da Amdocs, a redução de pessoal integra uma estratégia liderada pelo novo CEO, Shimie Hortig, para simplificar estruturas hierárquicas, aumentar eficiência e adaptar processos à nova fase da inteligência artificial.
Oracle, Amazon e Meta lideram cortes
A maior vaga de despedimentos no setor tecnológico em 2026 terá ocorrido na Oracle, que eliminou mais de 25 mil postos de trabalho este ano. A reestruturação está ligada à aposta em IA e infraestrutura cloud, num momento em que a empresa procura redirecionar capital para centros de dados e serviços associados à nova procura tecnológica.
A Amazon surge entre as empresas com mais cortes, com mais de 10 mil postos eliminados, numa estratégia apresentada como parte de uma simplificação organizacional e de melhoria de eficiência. Também a Meta reduziu milhares de funções, com parte dos cortes concentrados em áreas como Reality Labs, ao mesmo tempo que continua a deslocar investimento para inteligência artificial.
Cognizant, PayPal, Cloudflare, Block, Atlassian, Salesforce, Workday, eBay, Pinterest e WiseTech Global surgem igualmente entre as empresas afetadas por reestruturações em que a IA, a automação ou a necessidade de financiar novas infraestruturas tecnológicas são apontadas como fatores relevantes.
Estados Unidos concentram a maioria dos cortes
As empresas americanas concentram a maior fatia dos despedimentos tecnológicos em 2026. Segundo o relatório, cerca de 116 mil cortes, correspondentes a 83% do total global, foram anunciados por empresas sediadas nos Estados Unidos.
Fora dos EUA, a Austrália aparece como um dos mercados mais afetados, com mais de quatro mil despedimentos ligados a empresas como WiseTech Global, Atlassian, Telstra e Envato. Na Europa, os cortes surgem de forma mais fragmentada, mas atingem sobretudo áreas como semicondutores, telecomunicações e serviços de tecnologias de informação.
O impacto não se limita às grandes tecnológicas. Empresas de comércio eletrónico, cloud, SaaS, redes sociais, fintech, videojogos, hardware, eletrónica e blockchain também têm reduzido equipas, num processo que combina correção pós-pandemia, pressão sobre margens, reorganização interna e aposta em ferramentas de automação.
A promessa da eficiência e o custo humano
Para Stanislava Savisheva, analista da ‘TradingPlatforms’, há uma contradição crescente no discurso das empresas tecnológicas: enquanto celebram a eficiência da inteligência artificial, mostram a porta a milhares de trabalhadores. A analista considera que, em muitos casos, a IA surge também como uma explicação conveniente para cortes que podem estar ligados a objetivos mais tradicionais de redução de custos.
A responsável resume a mudança como uma passagem de promessa para realidade menos confortável: a tecnologia que deveria libertar pessoas de tarefas repetitivas começa a libertar balanços empresariais de custos salariais. A expressão “apocalipse laboral da IA”, já usada em alguns meios e blogues, pode ser exagerada em certos casos, mas traduz a ansiedade em torno de uma transformação que atinge trabalhadores qualificados, equipas técnicas, estruturas intermédias e divisões inteiras.
A análise da ‘TradingPlatforms’ aponta ainda para uma mudança na composição do emprego tecnológico. Mesmo com a redução global de postos de trabalho, continua a haver procura por especialistas em inteligência artificial, machine learning, automação e infraestrutura cloud. O problema é que essas novas vagas não compensam necessariamente, nem no mesmo ritmo nem nas mesmas geografias, os empregos que estão a desaparecer.
2026 pode ser o ano da viragem
A atual vaga de despedimentos ainda reflete os efeitos da pandemia, quando muitas tecnológicas contrataram em massa para responder ao crescimento da procura digital. Mas a fase atual parece ir além de uma simples correção: o setor está a redesenhar equipas, hierarquias e prioridades em torno da inteligência artificial.
A questão central já não é apenas quantos empregos a tecnologia pode criar ou eliminar. É saber se a promessa de produtividade conseguirá coexistir com uma transição laboral menos abrupta. Para já, os números mostram um setor em transformação acelerada, onde a IA deixou de ser apenas uma aposta futura e passou a ser usada como argumento imediato para reestruturar empresas e cortar milhares de postos de trabalho.















