Tarifas de Trump não ficam por aqui: a próxima ‘avalanche’ de taxas promete ser ainda pior

Apesar do impacto já sentido, vários produtos e setores foram, para já, excluídos destas tarifas. Entre os materiais críticos poupados estão cobre, semicondutores, madeira, produtos farmacêuticos e minerais estratégicos. Contudo, fontes da administração Trump indicaram que estes bens poderão ser abrangidos numa fase posterior.

Executive Digest

As mais recentes medidas comerciais do presidente Donald Trump, que incluem tarifas generalizadas sobre importações e sobretaxas específicas dirigidas a dezenas de países, estão a causar turbulência nos mercados e a provocar receios crescentes sobre o impacto económico global. Anunciadas como uma forma de corrigir desequilíbrios comerciais e proteger a indústria americana, estas tarifas já começaram a ter efeitos reais, tanto a nível interno como nas relações comerciais internacionais dos Estados Unidos. Mas os efeitos só em breve se sentirão realmente…. e as tarifas não ficarão por aqui, já que a nova ‘leva’ que se seguirá em outros setores deverá ser ainda pior.

Na passada quarta-feira, entrou em vigor uma nova vaga de tarifas impostas por Donald Trump. Entre elas, destaca-se uma tarifa-base de 10% sobre todos os bens importados para os Estados Unidos, que já estava ativa desde 5 de abril, bem como tarifas adicionais para cinco dezenas de países considerados pela Casa Branca como “os piores infratores” no que respeita a barreiras comerciais. Estas sobretaxas podem ultrapassar os 45%.



Apesar de o termo “recíprocas” ser utilizado, vários economistas alertam que as fórmulas usadas para as calcular não têm fundamento teórico ou jurídico sólido. Segundo o American Enterprise Institute, um think tank conservador, as contas da administração Trump subestimaram o impacto das tarifas nos preços de importação e aplicaram, de forma errada, a elasticidade dos preços de retalho. Isto significa que as tarifas deveriam ser, em média, 25% mais baixas do que o anunciado.

Marcus Noland, vice-presidente executivo do Peterson Institute for International Economics, sublinha à CNN Internacional que “é muito errado, do ponto de vista económico, tentar equilibrar o comércio bilateral com todos os países”, afirmando que tal abordagem ignora conceitos básicos como a vantagem comparativa e a especialização.

Riscos imediatos e a médio prazo
A reação dos mercados financeiros tem sido negativa, com quedas acentuadas que espelham uma crise de confiança no dólar norte-americano. Joe Brusuelas, economista-chefe da RSM US, afirmou à CNN que “já não se pode evitar discutir a possível desvalorização do dólar e o estatuto da moeda como reserva mundial”.

Jamie Dimon, presidente do JPMorgan Chase, alertou para consequências inflacionistas, tanto nos produtos importados como nos produzidos internamente. “Vamos assistir a um aumento de preços devido à subida dos custos de produção e ao crescimento da procura por bens nacionais”, escreveu na sua carta anual aos acionistas. “Mesmo que não provoquem uma recessão, estas tarifas vão abrandar o crescimento.”

Também Sung Won Sohn, professor de economia e presidente da SS Economics, delineou três cenários económicos possíveis para os próximos 12 meses. No melhor cenário, o PIB real dos EUA recua 0,2 pontos percentuais, o emprego encolhe 0,1% e a inflação sobe 0,2%. No pior dos cenários, a economia poderá perder 1,3 milhões de empregos, o PIB cair 1,3 pontos e a inflação disparar 1,3%.

Sohn mantém, ainda assim, alguma esperança na resiliência da economia americana, lembrando que se trata de uma economia orientada sobretudo para os serviços e que as tarifas representam apenas uma correção pontual nos preços. Além disso, políticas como cortes fiscais e desregulação poderão mitigar os efeitos negativos.

Setores sob ameaça de novas tarifas
Apesar do impacto já sentido, vários produtos e setores foram, para já, excluídos destas tarifas. Entre os materiais críticos poupados estão cobre, semicondutores, madeira, produtos farmacêuticos e minerais estratégicos. Contudo, fontes da administração Trump indicaram que estes bens poderão ser abrangidos numa fase posterior.

Tyler Schipper, professor associado de economia na Universidade de St. Thomas, em Minnesota, afirmou que a lista de produtos tarifados “não parece ser uma posição negocial” e acrescentou: “Parece que estamos a erguer muros, e não a tentar derrubá-los.”

A aplicação do artigo 232 da Lei da Expansão Comercial de 1962 — que permite ao presidente impor tarifas por motivos de segurança nacional — está a ser usada como base legal para muitas destas medidas, incluindo investigações em curso sobre o cobre e a madeira.

  • Cobre e minerais críticos: O cobre é essencial para a transição energética e sectores como a defesa. Os EUA importam cerca de metade do cobre que consomem. Segundo Dan Ikenson, economista da Ikenomics Consulting, “não temos os recursos, e dependemos do mundo para os obter. Em vez de alimentar disputas, devíamos garantir acordos duradouros com países como o Canadá, o Chile e o Peru.”
  • Madeira: Cerca de 30% da madeira usada nos EUA é importada, sendo essencial para a construção civil. A imposição de tarifas poderá agravar ainda mais a crise da habitação, fazendo subir os preços de casas, mobiliário e até papel higiénico. Para compensar, a administração Trump ordenou a abertura de metade das florestas nacionais à exploração madeireira, decisão que foi fortemente criticada por ambientalistas.
  • Produtos farmacêuticos: A aplicação de tarifas contradiz a intenção de Trump de reduzir os preços dos medicamentos. Segundo Diederik Stadig, economista da ING para o setor da saúde, “mesmo que alguma produção regresse aos EUA, o aumento da produção de genéricos é improvável”. Estima-se que uma tarifa de 25% possa elevar o custo anual de um medicamento comum em 42 dólares, e o de tratamentos mais complexos em até 10 mil dólares.
  • Semicondutores: Essenciais para uma vasta gama de produtos, desde automóveis a computadores, os chips são descritos como “o petróleo do século XXI”. Apesar da aprovação do CHIPS Act em 2022, que visa fomentar a produção nacional, os EUA continuam a depender da montagem externa, sobretudo na Ásia. Isso significa que, mesmo fabricados nos EUA, os chips terão de ser exportados para montagem — e depois reimportados com tarifas.

Inflação poderá ultrapassar os 4%
A principal economista da Nationwide Mutual, Kathy Bostjancic, alertou que os modelos da empresa apontam para uma subida da inflação — atualmente a 2,8% — para entre 3,5% e 4% até ao final do ano, podendo chegar aos 4,5% caso as tarifas setoriais avancem. Segundo o Bureau of Labor Statistics, o índice de preços ao consumidor (CPI) não ultrapassa os 4% há quase dois anos.

Em suma, as políticas comerciais de Donald Trump estão a redesenhar o panorama económico global e a lançar incertezas sobre a estabilidade económica futura dos Estados Unidos. A curto prazo, os consumidores e as empresas já estão a sentir os efeitos. A médio e longo prazo, o mundo aguarda por eventuais novas tarifas — e pela resposta internacional que inevitavelmente se seguirá.

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