A sustentabilidade está cada vez mais intrínseca na tomada de decisões dos líderes nacionais, e é vista por muitos como a receita para o sucesso, quer para o ambiente, quer para a economia.
Mas de que forma estão os novos líderes empresariais preparados e conscientes da importância da sustentabilidade? O que devem os líderes fazer para promover essa cultura? A Executive Digest falou com Ana Trigo Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde, para perceber melhor este tema.
A sustentabilidade é um dos temas mais atuais do mundo empresarial. Qual a importância desta para o sucesso dos negócios?
A sustentabilidade é um dos temas mais atuais no mundo empresarial, mas deve ser “o tema” da agenda das empresas nacionais. A razão para esta afirmação reside na ideia de que só podemos falar de sucesso se incluirmos na equação a sustentabilidade, até porque os consumidores e os cidadãos em geral estão mais conscientes e , por isso mais exigentes.
É hoje claro para os decisores empresariais que o sucesso tem de incluir a incorporação de políticas sustentáveis para ser perpetuado no tempo. Ignorar práticas de sustentabilidade ambiental, social e de governance leva inevitavelmente à destruição de valor da empresa no curto espaço de tempo – é pois toda uma estratégia de sobrevivência e adaptação a um mundo em transformação.
Pode a imagem de sustentabilidade de uma empresa ser um fator decisivo na relação com o consumidor final?
O consumidor atual possui uma maior consciência da importância das práticas de sustentabilidade na produção de bens e serviços, de resto, conforme conclusões que se podem retirar de estudos elaborados pela IBM, Harvard Business Review ou da Wharton School que apoiam a conclusão que uma enorme percentagem dos consumidores, na ordem dos 80%, consideram a sustentabilidade e a responsabilidade ambiental, fatores decisivos na decisão de compra.
De que forma a Sociedade Ponto Verde apoia as empresas neste caminho?
O que procuramos é colocar a nossa experiência e o nosso conhecimento ao serviço das empresas. É o caso do projeto Ponto Verde LAB que pretende levar ao mercado a inovação nas ideias, processos, mecanismos e resultados que respondam ao desafio da urgência ambiental e colocar um ponto final no ciclo económico linear que dominou a indústria nas últimas décadas.
Pelo que, seja na área da investigação ou operacionalização de soluções de sustentabilidade a SPV tem procurado estar atenta ao que os próprios consumidores pretendem, nomeadamente no que diz respeito às embalagens e resíduos de embalagens que têm um papel preponderante na forma como podemos mudar o impacto ambiental das nossas atividades.
Estão os novos líderes empresariais preparados e conscientes da importância da sustentabilidade para os seus negócios?
Se se refere a novos líderes num sentido geracional, dir-lhe-ei que é natural que estejam. A consciência ambiental é também um fenómeno geracional e mal estaríamos se os líderes que estão agora a chegar a posições de decisão nas empresas não tivessem uma consciência mais apurada a esse respeito. No entanto, a questão da literacia ambiental tem muito caminho para fazer. Olhemos para o exemplo da Jornada Mundial da Juventude que decorrerá em agosto, aqui em Portugal. Questões mais polémicas à parte, pela primeira vez, a sustentabilidade foi definida como uma prioridade central na organização deste evento de escala mundial. Passos como este, não só demonstram um aumento na consciência da população em geral, como a mobilização para ações que afirmam a importância da sustentabilidade no nosso quotidiano, não sendo só uma preocupação dos líderes empresariais, mas sim de todos os que lideram projectos e as mais diversas organizações.
A nova realidade empresarial, onde se misturam temas como novas tecnologias, automação, sustentabilidade, exige um novo tipo de liderança?
Claro que sim. Atualmente, vivemos num mundo extremamente volátil, onde o que hoje pode ser um dado adquirido, amanhã poderá não o ser. Nesse sentido é fundamental repensarmos o modelo de liderança, uma vez que o apresentado outrora pode não estar preparado para a volatilidade do nosso dia-a-dia. Com a constante inovação tecnológica e com a sustentabilidade a ocupar um lugar prioritário nas agendas empresariais, a forma como lideramos tem de ser adaptada a temas como estes.
Quais as principais qualidades que deve ter um líder de uma empresa?
Creio que a principal qualidade que um líder de uma empresa deve ter é a capacidade em conseguir precaver e antecipar o que está por vir, percebendo que não pode estagnar, tendo um entendimento suficientemente lato para compreender a importância da evolução constante do setor empresarial. Outra característica fundamental está relacionada com a capacidade de um líder saber gerir pessoas. Como se costuma dizer, “as pessoas são a alma do negócio” e, estando o foco de um negócio nestas, é crucial saber geri-las, identificando as suas necessidades. A gestão do Talento é cada vez mais desafiante, sobretudo quando necessitamos de pessoas com formação mais completa e atualizada à velocidade da transformação tecnológica que atualmente vivemos.
Depois de um ano marcado pelo fim da pandemia, com o início da guerra e disparar da inflação, como olha para 2023, quer do ponto de vista da Sociedade Ponto Verde como do tecido empresarial nacional?
Deixe-me colocar ou enquadrar a sua questão de uma forma diferente. A ideia que o impacto de curto e médio prazo na economia implica pontos de vista diferentes quanto à missão de sustentabilidade da SPV e das empresas nacionais poderá ser diverso é, a meu ver, errado.
A realidade é que o valor da sustentabilidade entrou no processo de decisão de investimento das empresas como elemento definidor de sucesso. Não é concebível crescer sem ser de forma sustentável e se há coisa que as duas últimas décadas ensinaram os decisores económicos, é que os “expedientes” de curto-prazo – por muito confortáveis que possam parecer – não sobrevivem a desafios de longo prazo.
Quero dizer com isto que, o que nos permitirá enfrentar este período de crise e eventualmente até sair melhor dela, é manter o foco na produção e desenvolvimento de soluções ambientalmente sustentáveis.
Nem todos os mercados serão afetados da mesma forma e pelas mesmas razões, alguns até poderão crescer porque se apoiam em fatores como a raridade ou a escassez (caso do mercado de luxo) e outros serão severamente impactados como parecer ser o caso da alimentação, acesso a bens essenciais como água e eletricidade.
A capacidade de resposta das empresas ao mercado terá de ir bem alem do aumento de preços, mas incorporar o valor da sustentabilidade também na sua relação com o consumidor, criando soluções de curto e médio prazo que permitam a manutenção dessa relação e que acrescentem valor à sua oferta.














