Surto de Ébola: OMS pede fim de restrições e corte de viagens e alerta para impacto no terreno

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou esta quarta-feira que as restrições de viagens impostas por mais de uma dezena de países estão a comprometer a resposta internacional ao surto de Ébola que afeta a República Democrática do Congo.

Pedro Zagacho Gonçalves

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou esta quarta-feira que as restrições de viagens impostas por mais de uma dezena de países estão a comprometer a resposta internacional ao surto de Ébola que afeta a República Democrática do Congo. Segundo a organização, as medidas adotadas por vários governos estão a criar obstáculos logísticos significativos e a dificultar os esforços de contenção da doença.

O aviso foi deixado pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante uma conferência de imprensa, na qual sublinhou que as proibições generalizadas de viagens estão a provocar perturbações nas cadeias de abastecimento e a limitar a capacidade de resposta das equipas de saúde no terreno.

“Estas restrições estão a interromper as cadeias de abastecimento e a dificultar a resposta”, afirmou o responsável.

OMS pede levantamento das restrições
Entre os países que adotaram medidas restritivas encontram-se os Estados Unidos, o Bahrein, o México e outros Estados que decidiram impor limitações à entrada de viajantes provenientes da República Democrática do Congo.

Por sua vez, o Canadá implementou uma quarentena obrigatória de 21 dias para todos os viajantes oriundos do país africano.

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Perante este cenário, Tedros apelou aos governos para abandonarem as restrições generalizadas e adotarem medidas mais direcionadas.

“Pedimos aos países que impuseram restrições globais de viagem que as levantem”, afirmou, defendendo como alternativa a realização de rastreios sanitários à saída em aeroportos, portos e postos fronteiriços, com o objetivo de identificar casos suspeitos e contactos de risco antes das deslocações internacionais.

Casos confirmados ficam abaixo do receado
Apesar das preocupações relacionadas com as restrições às viagens, a OMS divulgou também dados considerados encorajadores sobre a evolução do surto.

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Segundo a organização, o número de infeções confirmadas revelou-se inferior ao que os especialistas inicialmente receavam. O aumento da capacidade de testagem permitiu concluir que muitos dos casos suspeitos não estavam, afinal, infetados com a variante Bundibugyo do vírus Ébola, responsável pelo atual surto na República Democrática do Congo.

De acordo com os dados apresentados pela OMS, até 1 de junho tinham sido registados 344 casos confirmados e 60 mortes confirmadas na República Democrática do Congo, além de 116 casos considerados suspeitos.

Na vizinha Uganda foram contabilizados 15 casos confirmados e uma morte confirmada associada à doença.

Revisão dos números após reforço dos testes
Os novos dados representam uma alteração significativa face aos números divulgados poucos dias antes.

A 29 de maio, a OMS tinha reportado 906 casos suspeitos e 223 mortes suspeitas na República Democrática do Congo. Na mesma atualização, a organização referia a existência de 134 casos confirmados, incluindo nove em Uganda, e um total de 18 mortes confirmadas nos dois países.

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Segundo a OMS, a diferença nos números resulta do reforço dos processos de testagem e validação laboratorial, que permitiram distinguir entre casos efetivamente confirmados e situações inicialmente classificadas apenas como suspeitas.

A organização acrescentou que continuam em curso análises laboratoriais a amostras recolhidas de pessoas que morreram com suspeitas de infeção por Ébola, pelo que os números poderão sofrer novas atualizações.

Centro de quarentena dos EUA no Quénia gera debate
Durante a conferência de imprensa, Tedros foi ainda questionado sobre o plano norte-americano para criar um centro de quarentena no Quénia destinado a cidadãos dos Estados Unidos que se encontrem na região afetada pelo surto.

A iniciativa encontra-se atualmente suspensa por decisão de um tribunal queniano, mas continua a gerar debate internacional.

O diretor-geral da OMS optou por não criticar diretamente a proposta norte-americana.

“Podem fazer aquilo que considerarem adequado para si próprios”, declarou, acrescentando que valoriza a cooperação mantida com os Estados Unidos na partilha de informação e no apoio financeiro às operações de resposta ao surto.

“Existe um forte compromisso a todos os níveis e fico muito satisfeito por ver isso”, concluiu.

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