Super El Niño está a caminho e pode provocar inundações, secas extremas e novo recorde de calor global

Um novo ciclo de El Niño está a formar-se no Oceano Pacífico equatorial e poderá evoluir para um fenómeno de intensidade rara, classificado informalmente como “Super El Niño”, com potencial para desencadear inundações devastadoras, secas severas, incêndios florestais e novos recordes de temperatura à escala global.

Pedro Gonçalves

Um novo ciclo de El Niño está a formar-se no Oceano Pacífico equatorial e poderá evoluir para um fenómeno de intensidade rara, classificado informalmente como “Super El Niño”, com potencial para desencadear inundações devastadoras, secas severas, incêndios florestais e novos recordes de temperatura à escala global.

Os especialistas indicam que o fenómeno deverá consolidar-se no final do verão ou início do outono e poderá ter impactos profundos e em cascata nos padrões climáticos mundiais — “quase como uma série de dominós que caem”. Se as previsões mais agressivas se confirmarem, o episódio poderá tornar-se um dos mais intensos alguma vez registados.

O que é um Super El NiñoUm fenómeno acoplado com efeitos globais
El Niño e La Niña, expressões que significam “o Menino” e “a Menina”, são ciclos climáticos recorrentes no Pacífico tropical que se manifestam a cada poucos anos e influenciam o clima mundial.

O El Niño caracteriza-se por águas excepcionalmente quentes ao longo do Pacífico equatorial tropical e por alterações associadas nos padrões atmosféricos de vento e precipitação. Trata-se de um fenómeno “acoplado”, o que significa que depende da interacção simultânea entre oceano e atmosfera.

À medida que as águas aquecem, as áreas de precipitação intensa deslocam-se para mais perto das zonas oceânicas mais quentes. Os ventos alísios — que normalmente sopram de leste para oeste junto ao equador — podem enfraquecer ou mesmo inverter a direcção. Estas mudanças são suficientemente significativas para alterar o clima em diversas regiões do planeta.

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Actualmente, enormes volumes de água excepcionalmente quente estão a deslocar-se sob a superfície do Pacífico, do sector ocidental para o oriental, onde começam a emergir lentamente à superfície — um sinal precursor claro de El Niño. Episódios periódicos de ventos de oeste para este, conhecidos como rajadas de vento oeste, têm contribuído para transportar essas massas de água quente.

Impactos extremos: de cheias a incêndios
Os impactos de um El Niño variam consoante a região. Em África, pode provocar tanto inundações como secas, dependendo da área. Nos Estados Unidos, tende a intensificar tempestades de inverno na Califórnia e ao longo da faixa sul do país, aumentando o risco de cheias.

Durante o outono, pode ainda reforçar os ventos na alta atmosfera sobre o Atlântico tropical, aumentando o cisalhamento do vento — um factor que dificulta a formação e intensificação de tempestades tropicais e furacões, reduzindo potencialmente a actividade da época de furacões no Atlântico.

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Além disso, episódios fortes de El Niño têm sido associados a ondas de calor nos EUA e noutras partes do mundo.

A nível global, aumenta a probabilidade de secas e ondas de calor na Austrália, elevando o risco de incêndios florestais. Outras regiões vulneráveis à seca incluem o norte da América do Sul — incluindo partes da Amazónia —, a África central e meridional e a Índia.

Por outro lado, o fenómeno pode provocar precipitação excessiva noutras áreas, como o sudeste da América do Sul, o Corno de África, o Irão, o Afeganistão e várias zonas da Ásia centro-sul.

Os prejuízos económicos associados a estes extremos climáticos podem ascender a milhares de milhões de dólares, sendo expectável que um El Niño mais intenso agrave ainda mais esses impactos.

Aviso antecipado mas com incerteza
A identificação precoce da formação de um El Niño é crucial para antecipar riscos climáticos. Nat Johnson, meteorologista do Laboratório de Dinâmica de Fluidos Geofísicos da NOAA, sublinha que prever a evolução do fenómeno “dá-nos um aviso prévio sobre as mudanças nos riscos de muitos fenómenos climáticos, incluindo inundações, secas, ondas de calor, furacões e tempestades severas”.

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Segundo a especialista, “estes impactos climáticos e meteorológicos modificam a produção agrícola, a propagação de doenças, o branqueamento de corais, a pesca e muitas outras partes do sistema terrestre que afectam o nosso dia a dia”.

Apesar dos sinais crescentes, subsiste incerteza quanto à intensidade final do evento. Johnson alerta que existe “uma variedade de previsões, especialmente em relação à intensidade”. Acrescenta ainda que as projecções feitas na primavera tendem a ser menos precisas do que noutras alturas do ano — fenómeno conhecido como barreira de previsão da primavera.

Calor global poderá atingir novos recordes
Do ponto de vista climático, o El Niño tende a libertar para a atmosfera grandes quantidades de calor armazenado nos oceanos, elevando a temperatura média global à superfície.

Se um El Niño forte persistir durante o inverno, é altamente provável que 2026, 2027 ou ambos os anos venham a estabelecer novos recordes como os mais quentes desde o início dos registos instrumentais, no século XIX.

O planeta já se encontra num trajecto acelerado de aquecimento global, e um evento intenso poderá amplificar temporariamente essa tendência. A comparação feita por especialistas é elucidativa: se as alterações climáticas forem vistas como subir uma escada rolante, um ano de El Niño seria equivalente a saltar enquanto se sobe — atingindo patamares recorde, ainda que de forma transitória.

O último El Niño, que não atingiu a categoria de “Super”, contribuiu para que 2024 se tornasse o ano mais quente desde que há registo.

Agora, os meteorologistas acompanham atentamente o aquecimento das águas do Pacífico. Caso as projecções do modelo europeu se confirmem, este poderá tornar-se o El Niño mais forte alguma vez registado, com implicações profundas para o clima global, a economia e a vida quotidiana em múltiplas regiões do mundo.

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