Super drones, sistemas soberanos e IA no campo de batalha: Quem lidera a revolução da defesa na Europa (e o que esperar)?

A integração da inteligência artificial (IA) nas forças armadas europeias deixou de ser um exercício experimental para se tornar uma prioridade estratégica.

Pedro Zagacho Gonçalves

A integração da inteligência artificial (IA) nas forças armadas europeias deixou de ser um exercício experimental para se tornar uma prioridade estratégica. De sistemas de apoio à decisão a drones de ataque de médio alcance, vários países europeus estão a acelerar contratos, programas conjuntos e investimentos públicos para incorporar tecnologia baseada em IA nas suas capacidades militares centrais.

Segundo analistas ouvidos pela Euronews, Alemanha, França, Ucrânia e Reino Unido destacam-se como os países que mais avançaram na integração de sistemas de IA nas suas estruturas militares.

Alemanha e Ucrânia lançam programa conjunto com drones de ataque
Um dos exemplos mais recentes desta tendência surgiu esta semana, com o lançamento do programa “Brave Germany”, uma iniciativa conjunta entre a Alemanha e a Ucrânia que prevê a produção de cerca de 5.000 drones de ataque de médio alcance equipados com sistemas de inteligência artificial.

O acordo entre Berlim e Kiev insere-se numa vaga mais ampla de projetos e parcerias firmadas por vários países europeus para integrar sistemas de IA tanto nos mecanismos de tomada de decisão como nos próprios sistemas de armas.

Como a inteligência artificial já é usada nas forças armadas europeias
De acordo com Laura Bruun, investigadora de inteligência artificial no Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), as forças armadas europeias utilizam IA há cerca de uma década, sobretudo em áreas como recursos humanos, logística e manutenção.

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Segundo a investigadora, por volta de 2015 a tecnologia atingiu um nível de maturidade suficiente para se tornar uma prioridade militar em vários países europeus. Bruun explica que “modelos de IA muito simples podem ser usados para otimizar processos e, por exemplo, dizer que é mais rápido seguir pela rota B do que pela rota A, como fazemos com o Google Maps”.

Atualmente, o investimento europeu concentra-se em dois grandes eixos: sistemas de armas semi-autónomos com IA integrada e sistemas de apoio à decisão baseados em IA.

Nos sistemas semi-automáticos, a inteligência artificial está incorporada na arma, mas permanece um humano no ciclo de decisão, responsável por “carregar no botão” e autorizar o disparo. Já os sistemas de apoio à decisão abrangem praticamente qualquer tarefa em que a IA auxilia comandantes militares na análise de dados e na definição de estratégias.

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Roy Lindelauf, professor de ciência de dados na Netherlands Defence Academy, sublinha que os investimentos europeus estão direcionados para áreas como gestão de combate, planeamento operacional e planeamento tático.

França, Alemanha e Reino Unido na dianteira
Segundo Bruun, França, Alemanha e Reino Unido lideram atualmente o processo de integração da IA na defesa europeia, tendo anunciado contratos de grande dimensão com empresas tecnológicas para acelerar a incorporação destas soluções nas suas capacidades de ataque e de aquisição de alvos.

Em 2023, o Ministério da Defesa alemão assinou um acordo com a empresa de defesa Helsing para desenvolver a base de IA do Future Combat Air System (FCAS), o caça de nova geração europeu.

A Alemanha firmou ainda contratos com a Helsing e com a Saab Germany para integrar IA no sistema de guerra eletrónica do Eurofighter. Num acordo separado, avaliado em 269 milhões, a Helsing irá produzir munições de permanência — conhecidas como “drones kamikaze” — para integração nas forças alemãs e na NATO.

No Reino Unido, foi anunciado em 2025 o programa Asgard, uma rede digital de reconhecimento e ataque que combina sensores, ferramentas de apoio à decisão e sistemas de armas com o objetivo de “melhorar a tomada de decisões e aumentar a letalidade”.

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No último ano, Londres estabeleceu também uma parceria estratégica com a empresa norte-americana Palantir Technologies, que prevê um investimento até 1,5 mil milhões de libras (cerca de 1,73 mil milhões de euros) para apoiar o governo britânico na adoção de tecnologias de IA.

Já a França tem apostado no desenvolvimento de sistemas militares de IA “soberanos”, independentes dos Estados Unidos. Em janeiro, o governo francês atribuiu um acordo-quadro à empresa parisiense Mistral AI, considerada a principal concorrente europeia de gigantes norte-americanos como OpenAI e Anthropic.

O acordo permite às forças armadas francesas e a algumas entidades públicas utilizar modelos, software e serviços de IA da Mistral, reforçando uma estratégia de autonomia tecnológica.

Papel das instituições europeias e do Fundo Europeu de Defesa
As instituições europeias também estão a avançar na integração da IA. No mês passado, vários projetos foram selecionados para financiamento ao abrigo do Fundo Europeu de Defesa (EDF).

Entre as iniciativas aprovadas encontram-se o desenvolvimento de um modelo linguístico de grande dimensão “privado, destacável, sustentável e eficiente” para uso pelos Estados-membros, uma ferramenta soberana europeia de apoio com IA e um sistema de artilharia com inteligência artificial integrada.

Apesar dos planos estruturados, Lindelauf alerta para o risco de lentidão na implementação. “O que precisamos agora é realmente fazer”, afirma, acrescentando que o processo de decisão europeu pode ser excessivamente moroso. “A velocidade de implementação pode ser travada pela forma como estamos organizados.”

O fator Ucrânia e a experiência em combate
Grande parte da evolução europeia na área da IA militar inspira-se na experiência da Ucrânia em contexto real de guerra. Segundo Bruun, as forças ucranianas identificaram múltiplas aplicações práticas da IA, nomeadamente em inteligência, análise de dados e consciência situacional no terreno.

Um exemplo é o sistema Delta, uma plataforma digital de gestão de combate alimentada por IA que integra dados de radares, satélites, sistemas de rastreamento e mapas digitais para apoiar oficiais na tomada de decisões. Desenvolvido em coordenação com a NATO, o sistema permite acompanhar a localização de forças aliadas e identificar posições inimigas.

Lindelauf destaca que o Delta “não só combina enormes volumes de fluxos de dados diferentes, como inclui uma camada de IA responsável pela análise desses dados”, considerando essa integração particularmente relevante.

A Ucrânia utiliza ainda munições de permanência — os chamados drones kamikaze — em que a navegação e a identificação de alvos são automatizadas. Ainda assim, como sublinha Bruun, “não são verdadeiramente armas autónomas, porque continua a haver um comandante que diz ‘ok, atacar’”.

Em cooperação com a Palantir, a Ucrânia desenvolveu o projeto “Brave1 Dataroom”, um sistema de IA baseado em dados de combate recolhidos durante o conflito com a Rússia. Em conjunto com a mesma empresa, foi também criado um sistema de análise detalhada de ataques aéreos e processamento de grandes volumes de informação de inteligência.

Além disso, a Comissão Europeia anunciou recentemente o projeto STRATUS, destinado a criar um sistema de ciberdefesa baseado em IA para enxames de drones. O projeto inclui um subcontratado ucraniano, permitindo testar a tecnologia diretamente em ambiente operacional.

Automação total: o próximo passo?
Segundo Bruun, a Ucrânia já está a testar munições capazes de “terminar a missão” caso o contacto com o operador humano seja perdido, sinalizando uma possível transição para níveis mais elevados de automação.

A investigadora refere ter lido entrevistas com comandantes ucranianos que consideram o humano um “estrangulamento” nas decisões de ataque. “Quanto mais conseguirem automatizar, mais resilientes são e mais rapidamente conseguem responder ao inimigo”, afirma.

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