A justiça sueca condenou esta terça-feira um homem de 61 anos a quatro anos e cinco meses de prisão por ter explorado sexualmente a própria esposa durante vários anos, obrigando-a a manter relações sexuais com mais de uma centena de homens em troca de dinheiro. O caso, que provocou forte impacto na Suécia e atraiu atenção internacional, chegou ao fim após meses de investigação e um julgamento marcado pela gravidade das acusações.
O tribunal considerou provado que o arguido, apontado pela imprensa sueca como antigo membro do grupo motard Hells Angels, praticou proxenetismo agravado, além de ter sido condenado por tentativa de violação, agressão e ameaças. A decisão surge num processo que envolveu alegações de exploração sistemática da vítima ao longo de mais de três anos e que levou os procuradores a classificarem os factos como uma “exploração impiedosa” e “brutal”.
O julgamento decorreu no tribunal distrital de Härnösand, no norte da Suécia, e grande parte das audiências realizou-se à porta fechada para proteger a identidade da vítima, que entretanto se divorciou do arguido. O homem foi detido em outubro de 2025, após a mulher apresentar queixa às autoridades. Apesar da condenação agora anunciada, o Ministério Público tinha solicitado uma pena substancialmente mais pesada, defendendo uma condenação de dez anos de prisão.
Segundo a acusação, o homem terá montado uma operação organizada de exploração sexual entre agosto de 2022 e outubro de 2025 numa propriedade rural isolada situada nas proximidades de Kramfors. Os investigadores alegaram que o arguido criava anúncios na internet, organizava encontros com clientes, supervisionava as deslocações e pressionava a mulher a participar em atos sexuais, incluindo conteúdos online destinados a atrair mais interessados. A procuradora Ida Annerstedt sustentou que os crimes terão gerado lucros significativos e explorado uma mulher que se encontrava numa situação de especial vulnerabilidade.
As autoridades defenderam ainda que o arguido utilizava diversos mecanismos de controlo, incluindo violência física, ameaças, intimidação psicológica e alegadamente o fornecimento de drogas para aumentar a dependência da vítima. Entre os elementos reunidos pela investigação figuravam alegadas ameaças de morte, referências a queimá-la com gasolina ou cortar-lhe os dedos, bem como imagens recolhidas por câmaras de vigilância instaladas na residência do casal. A acusação argumentou também que o isolamento geográfico da propriedade contribuiu para reforçar o controlo exercido sobre a mulher.
Durante a investigação foram identificados cerca de 120 homens suspeitos de terem pago pelos serviços sexuais da vítima. Segundo as autoridades suecas, 29 chegaram a ser acusados e 28 acabaram condenados em processos relacionados com o caso. Para sustentar as acusações, os procuradores recorreram a registos de pagamentos, conversas online, calendários e outros elementos documentais recolhidos ao longo da investigação.
A defesa rejeitou sempre todas as acusações. A advogada Martina Michaelsdotter Olsson argumentou que os encontros ocorreram de forma consentida e que o seu cliente apenas ajudava a organizar contactos. No início do julgamento, a defensora afirmou que o arguido não reconhecia “a mesma realidade apresentada pela procuradora”, reiterando que nunca obrigou a esposa a fazer algo contra a sua vontade.
O caso foi frequentemente comparado ao mediático processo francês de Dominique Pelicot devido às alegações de exploração prolongada da vítima e ao elevado número de homens envolvidos. Além da condenação penal, a representante legal da vítima solicitou uma indemnização de 1,1 milhões de coroas suecas. A advogada Silvia Ingolfsdottir descreveu o comportamento do arguido em termos particularmente duros, afirmando que este “tratou-a como um cartão bancário e vendeu-a como se fosse uma mercadoria”.
Com a sentença agora conhecida, encerra-se um dos processos criminais mais mediáticos dos últimos anos na Suécia, embora a diferença entre a pena aplicada e os dez anos de prisão pedidos pelo Ministério Público possa ainda alimentar novas etapas judiciais no caso.



