Stubb, Draghi… ou um regresso ‘triunfal’ de Merkel? Europa dividida sobre quem vai negociar com Putin o fim da guerra na Ucrânia

A possibilidade de a União Europeia avançar para contactos diplomáticos diretos com Moscovo para tentar desbloquear negociações sobre a guerra na Ucrânia está a reacender um intenso debate político em Bruxelas e nas principais capitais europeias.

Pedro Zagacho Gonçalves

A possibilidade de a União Europeia avançar para contactos diplomáticos diretos com Moscovo para tentar desbloquear negociações sobre a guerra na Ucrânia está a reacender um intenso debate político em Bruxelas e nas principais capitais europeias. Entre os vários nomes apontados como possíveis interlocutores com o Kremlin, o da antiga chanceler alemã Angela Merkel voltou inesperadamente ao centro das discussões, num momento em que os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia se preparam para abordar o tema numa reunião marcada para a próxima semana, em Chipre.

Os governos europeus deverão discutir não apenas que proposta poderá ser apresentada à Rússia, mas também quem teria legitimidade política e diplomática para assumir o papel de mediador junto de Vladimir Putin. Apesar de muitos analistas considerarem improvável que a reunião produza uma decisão imediata, o simples facto de a hipótese estar em cima da mesa já desencadeou movimentações políticas e especulação sobre os nomes mais bem posicionados para assumir esse papel delicado.

Entre os potenciais candidatos surge o presidente finlandês, Alexander Stubb, cuja experiência diplomática herdaria parte da tradição de mediação internacional da Finlândia, país associado a figuras como Martti Ahtisaari, vencedor do Prémio Nobel da Paz. Ainda assim, o facto de Helsínquia ter aderido à NATO em 2023, após a invasão russa da Ucrânia, é visto como um obstáculo importante, sobretudo porque Moscovo reagiu de forma particularmente negativa à entrada finlandesa na Aliança Atlântica.

Outro nome frequentemente referido é o do antigo presidente do Banco Central Europeu e ex-primeiro-ministro italiano Mario Draghi. O antigo governante é considerado um perfil tecnocrático e moderado, respeitado em várias capitais europeias e com capacidade negocial reconhecida. Contudo, fontes citadas no debate europeu sublinham que Draghi nunca demonstrou interesse em assumir um papel ativo como mediador no conflito ucraniano.

É neste contexto que Angela Merkel reaparece como hipótese. A antiga chanceler alemã, que liderou a Alemanha entre 2005 e 2021, manteve contactos regulares tanto com Vladimir Putin como com Volodymyr Zelensky durante os anos em que esteve no poder. A sua experiência diplomática, o conhecimento profundo da Rússia e até o domínio da língua russa fazem dela uma figura vista por alguns setores europeus como particularmente preparada para uma eventual mediação.

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No entanto, o legado político de Merkel em relação à Rússia continua a gerar fortes divisões. Durante os seus anos de governação, Berlim apostou fortemente na cooperação energética com Moscovo, incluindo o polémico gasoduto Nord Stream 2, que aprofundou a dependência alemã do gás russo. Merkel também foi uma das líderes europeias que se opôs ao avanço do processo de adesão da Ucrânia e da Geórgia à NATO, uma decisão hoje amplamente criticada por vários analistas e governos do Leste europeu.

O analista Nicolás de Pedro, do Institute for Statecraft, considera que Merkel “contribuiu decisivamente para a situação em que estamos”, acusando a antiga chanceler de ter seguido durante anos uma política excessivamente conciliadora com Putin. Em declarações citadas pelo El Confidencial, o especialista argumenta que a estratégia de acomodação europeia ajudou Moscovo a acreditar que poderia avançar militarmente sobre a Ucrânia sem consequências suficientemente dissuasoras.

A própria Merkel tem rejeitado essas críticas e insiste que faltou diálogo diplomático para evitar a guerra. Recentemente, acusou mesmo a União Europeia de não estar a utilizar “todo o seu potencial diplomático” na relação com o Kremlin, reacendendo o debate sobre a necessidade — ou não — de abrir canais políticos com Moscovo.

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Apesar disso, vários especialistas consideram improvável que Merkel venha realmente a assumir um papel de mediação. A antiga chanceler enfrenta resistência significativa em países como a Polónia, os Estados bálticos e o Reino Unido, que olham com desconfiança para o seu historial político em relação à Rússia. Também em Kiev existem fortes reservas. Um alto responsável ucraniano citado pelo Financial Times afirmou que Volodymyr Zelensky preferiria “alguém como Draghi” ou “um líder atual, em funções e forte”, afastando implicitamente a hipótese Merkel.

Ainda assim, há quem considere que a ex-chanceler possui qualidades importantes para um eventual processo negocial. Miriam Kosmehl, especialista da Fundação Bertelsmann, defende que Merkel “conhece Putin, sabe de onde vem, fala a língua e é inteligente”. A analista acrescenta ainda que a antiga líder alemã poderá sentir necessidade de compensar a confiança excessiva que depositou durante anos na ideia de que a interdependência económica com Moscovo seria suficiente para conter as ambições russas.

O debate decorre numa altura particularmente delicada para a diplomacia europeia. Washington, sob a administração de Donald Trump, está fortemente concentrado na escalada da crise envolvendo o Irão, deixando a Europa sob maior pressão para assumir protagonismo no dossier ucraniano. Ainda assim, vários analistas alertam que encontrar uma figura aceite simultaneamente por Bruxelas, Kiev e Moscovo poderá revelar-se praticamente impossível.

Há também quem questione a utilidade de iniciar negociações nesta fase da guerra. Nicolás de Pedro considera que “não vai haver nenhum acordo de paz”, argumentando que Moscovo continua a insistir em objetivos máximos e que a Europa deveria concentrar-se antes no reforço da dissuasão militar e política perante a Rússia.

O regresso do nome de Merkel ao centro das discussões coincide ainda com uma nova distinção política atribuída à antiga chanceler. O Parlamento Europeu entregou-lhe recentemente a Ordem Europeia do Mérito, juntamente com o ex-presidente polaco Lech Wałęsa e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. Durante a cerimónia, Merkel apelou ao compromisso europeu com “a paz, a prosperidade e a democracia” e pediu às instituições europeias que cumpram “as promessas feitas aos cidadãos”.

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O líder do Partido Popular Europeu, Manfred Weber, elogiou Merkel como “uma das grandes figuras políticas europeias do nosso tempo”, recordando o papel desempenhado durante crises como a do euro. Ainda assim, o dirigente conservador deixou também críticas implícitas ao legado da antiga chanceler, afirmando que muitos esperavam “mais liderança e mais visão histórica” em matérias de política externa e segurança.

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