A polícia sul-coreana interrogou um executivo do grupo Shinsegae, operador da Starbucks na Coreia do Sul, no âmbito da investigação a uma campanha promocional que coincidiu com o aniversário do massacre de Gwangju e gerou forte indignação pública. O ‘El Mundo’ relata que a polémica vai levar ao encerramento de todas as lojas da cadeia durante meio dia, na próxima segunda-feira, para que os trabalhadores participem numa aula sobre a história da repressão de 1980.
A Starbucks Coreia, que opera mais de 2.000 lojas no país através de um acordo de licenciamento com o Grupo Shinsegae, lançou no mês passado uma campanha destinada a promover o uso de copos reutilizáveis. O evento foi chamado “Dia do Tanque” e estava marcado para 18 de maio.
A data tornou-se o centro da controvérsia. O dia 18 de maio assinala o aniversário do levantamento de Gwangju, movimento pró-democracia violentamente reprimido em 1980. Segundo a contagem oficial, 165 civis morreram, embora se acredite que o número real de vítimas possa ter sido muito superior.
A associação entre uma campanha comercial designada “Dia do Tanque” e o aniversário de uma repressão militar provocou críticas imediatas. O episódio foi interpretado por muitos como uma falha grave de sensibilidade histórica num país onde a memória de Gwangju continua a ter forte peso político e simbólico.
O Grupo Shinsegae reagiu rapidamente ao escândalo. A empresa demitiu o diretor executivo da Starbucks Coreia no mesmo dia em que a polémica se tornou pública. Mais tarde, o presidente do grupo, Chung Yong-jin, apresentou desculpas pelo incidente, fazendo uma vénia pública.
As desculpas, no entanto, não travaram as consequências legais. Um grupo da sociedade civil apresentou uma queixa contra Chung e outros executivos, alegando que terão violado uma lei de 2016 que, entre outras disposições, proíbe a disseminação de informações falsas sobre a repressão dos movimentos pró-democracia de 1980.
Segundo o El Mundo, a Agência de Polícia Metropolitana de Seul interrogou Yang Jong-hwan, responsável pela equipa de auditoria do Grupo Shinsegae, na qualidade de testemunha. A informação foi confirmada por um porta-voz da empresa à AFP, sem detalhes adicionais sobre o conteúdo do depoimento.
A Shinsegae afirmou esperar que os factos sejam “esclarecidos de forma rápida e transparente”. A investigação deverá apurar como foi aprovada a campanha, quem participou na decisão e se houve violação das regras legais relativas à memória da repressão de Gwangju.
Além da investigação policial, a empresa avançará com uma medida interna de formação. Todas as lojas da Starbucks Coreia deverão fechar durante meio dia na próxima segunda-feira para permitir que os trabalhadores frequentem uma sessão sobre a história do massacre.
O caso mostra como campanhas promocionais aparentemente simples podem ganhar dimensão nacional quando chocam com memórias históricas sensíveis. Na Coreia do Sul, Gwangju não é apenas uma data do passado: é um símbolo da luta pela democracia e da violência do regime militar contra civis.
Para a Starbucks Coreia e para o Grupo Shinsegae, a polémica transformou uma ação de sustentabilidade sobre copos reutilizáveis numa crise reputacional, laboral e judicial. A investigação policial dirá agora se a falha foi apenas de julgamento histórico ou se pode ter consequências legais para os responsáveis envolvidos.













