Spa, charutos e comida para o fim do mundo: antigo abrigo nuclear transforma-se em condomínio para milionários

Projeto está a ser desenvolvido em Debert, uma pequena localidade da Nova Escócia, a cerca de 113 quilómetros de Halifax (Canadá), onde milhares de soldados treinaram durante a II Guerra Mundial

Francisco Laranjeira

À superfície, dificilmente sugere luxo: edifícios envelhecidos, parques de estacionamento vazios e uma floresta esparsa de coníferas. Mas, debaixo de uma elevação coberta de relva, no meio de um antigo complexo militar canadiano, está a nascer um condomínio pensado para milionários que queiram atravessar furacões, apagões ou até uma catástrofe global sem abdicar de um spa, de uma sala de yoga ou de um salão de charutos.

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O projeto está a ser desenvolvido em Debert, uma pequena localidade da Nova Escócia, a cerca de 113 quilómetros de Halifax (Canadá), onde milhares de soldados treinaram durante a II Guerra Mundial. O protagonista é um abrigo nuclear com quase seis mil metros quadrados, construído durante a Guerra Fria e conhecido localmente como Diefenbunker.

O empresário canadiano ligado ao setor das criptomoedas Jonathan Baha’i pretende transformar o antigo refúgio num complexo com 50 apartamentos resistentes a diferentes cenários de crise. Segundo a ‘BBC’, 11 unidades já terão sido vendidas, embora tanto os preços de aquisição como os valores previstos para estadias de curta duração permaneçam secretos.

Os futuros residentes terão acesso a refeições preparadas a partir de uma fonte de alimentos apresentada pelos promotores como autossuficiente, controlo biométrico de entradas, vigilância permanente e assistência médica no local. Quem chegar num avião privado poderá utilizar o pequeno aeroporto de Debert, situado nas proximidades.

Os planos incluem ainda um spa, uma sala de yoga e um espaço reservado a charutos. Sistemas modernos de iluminação OLED procurarão reproduzir a luz natural no interior, enquanto um bunker complementar, à superfície, deverá ser utilizado para cultivar alimentos.

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Quando os proprietários não estiverem presentes, os apartamentos poderão ser alugados como quartos de hotel, com as receitas a serem repartidas. Mas há uma regra pouco habitual: caso ocorra uma emergência enquanto a unidade estiver ocupada por hóspedes, estes terão de sair para permitir a entrada do proprietário.

“Se alguém estivesse a utilizá-la como quarto de hotel e alguma coisa acontecesse, teria de ser retirado”, explicou Paul Mansfield, um dos responsáveis pelo projeto, citado pela ‘BBC’.

Construído para resistir a uma explosão nuclear

O bunker foi um dos sete abrigos mandados construir pelo antigo primeiro-ministro canadiano John Diefenbaker entre o final da década de 1950 e meados dos anos 60. A rede destinava-se a acolher um número reduzido de membros do Governo e funcionários essenciais em caso de guerra nuclear.

A estrutura de Debert foi concebida para resistir a uma explosão nuclear nas proximidades e manter 329 pessoas no interior durante pelo menos 30 dias. No entanto, quando ficou concluída, os avanços nos mísseis de longo alcance e o aumento da potência das armas nucleares já tinham reduzido a sua utilidade.

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O edifício acabou por ser utilizado como centro provincial de alerta de emergência, antes de fechar em 1996 no âmbito de medidas de redução de custos. Jonathan Baha’i comprou-o em 2013 por 31.300 dólares canadianos, cerca de 20 mil euros à taxa atual.

Antes de avançar com o condomínio, o empresário explorou outras utilizações para o espaço, incluindo jogos de laser, visitas históricas e um pequeno centro de dados. A nova aposta surge num momento em que, segundo os promotores, o aumento da instabilidade internacional voltou a despertar o interesse por abrigos privados.

“Há mais incerteza no mundo nos últimos dois anos do que nos 30 anteriores”, afirmou Mansfield perante as autoridades locais. Essa sensação terá levado mais pessoas a procurar aquilo que descreveu como uma “apólice de seguro”: um bunker para situações extremas.

Baha’i, porém, rejeita a expressão “bunker do fim do mundo”. Embora reconheça que o complexo foi construído “para sobreviver a tudo”, prefere apresentá-lo como uma resposta prática a tempestades, falhas de energia ou outras emergências.

Quando o furacão Fiona atingiu a Nova Escócia, em 2022, o empresário abriu o abrigo aos seus trabalhadores e respetivas famílias. “Está completamente desligado da rede e é autossuficiente”, garantiu. “Se uma tempestade de grande dimensão atingir o condomínio, os proprietários sabem que têm um local quente e seguro, com eletricidade, alimentos e tudo aquilo de que necessitam.”

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Drones, dados e segurança permanente

A segurança deverá ficar a cargo da empresa alemã Bespoke Home and Yacht Security. Mansfield afirmou que a empresa já prestou serviços ao vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, e à estrela televisiva Kim Kardashian, embora a lista de clientes não seja pública e a alegação não possa ser confirmada de forma independente.

Entre as medidas recomendadas estão drones destinados a vigiar o perímetro do complexo. O projeto prevê igualmente a expansão do centro de dados para cerca de 1.400 metros quadrados, recorrendo, segundo Baha’i, a tecnologia destinada a reduzir o consumo energético e a reforçar a proteção da informação armazenada.

Os responsáveis estimam que o empreendimento possa criar mais de 40 postos de trabalho na componente hoteleira, além de funções especializadas no centro de dados. A preferência, garantem, será dada a trabalhadores da região.

O problema é que o luxo prometido contrasta com a realidade de Debert. Depois do encerramento da base militar, a população da localidade caiu de mais de 60 mil pessoas — incluindo os militares estacionados na região — para cerca de 1.400 habitantes.

Annette Sharpe, secretária do Museu Militar de Debert, lamenta que uma parte importante da história local tenha passado para mãos privadas. No museu ainda se conservam antigos equipamentos de comunicação e o sistema que deveria avisar os operadores sobre a proximidade de um ataque nuclear.

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“Parte-me o coração ter de dizer que aquele pedaço da história é agora propriedade privada e que está a ser remodelado para não sei bem o quê”, afirmou à ‘BBC’.

Sharpe duvida igualmente de que os moradores da região consigam alguma vez utilizar o empreendimento. “Quem é que vai conseguir comprar um daqueles bunkers dignos de um filme de Hollywood?”, questionou, lembrando que há apartamentos nas proximidades disponíveis para arrendamento por cerca de 1.250 euros.

A vereadora Marie Benoit manifestou reservas semelhantes, sobretudo perante a possibilidade de as tarifas do futuro hotel ultrapassarem as praticadas na maioria dos estabelecimentos de Halifax. “Quando olhamos para os salários das pessoas, não sei se será algo a que possam ter acesso”, afirmou.

Um negócio em crescimento

O projeto canadiano faz parte de um negócio mais vasto. Nos Estados Unidos, a preparação para catástrofes alimenta uma indústria que, segundo algumas estimativas citadas pela ‘BBC’, já vale pelo menos 500 milhões de dólares.

Os cálculos variam consideravelmente, mas poderão existir entre 20 milhões e mais de 70 milhões de americanos a preparar alimentos, equipamentos ou abrigos para diferentes cenários de emergência. Alguns promotores imobiliários já constroem casas com bunkers incorporados.

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Antigas instalações militares também estão a ser convertidas em comunidades privadas. Nos Estados Unidos, uma antiga base da Força Aérea deu lugar a um condomínio apresentado como uma comunidade fechada para sobrevivencialistas, enquanto um antigo silo de mísseis no Kansas foi transformado em apartamentos de luxo subterrâneos.

No Canadá, os destinos de estruturas semelhantes mostram como é difícil encontrar uma utilização para estes edifícios. Um bunker no Ontário permanece encerrado, outro no Manitoba foi enterrado, um abrigo na Colúmbia Britânica acabou inundado de propósito e uma estrutura em Alberta foi demolida devido ao receio de que pudesse ser comprada pelos Hells Angels.

Manter o Diefenbunker de Debert custa atualmente cerca de 37 mil euros por ano, à taxa de câmbio atual. Já um abrigo semelhante, construído em Nanaimo por um valor equivalente, custaria hoje cerca de 19 a 28 milhões de euros, segundo as estimativas citadas pela ‘BBC’.

Apesar das críticas, as autoridades locais não registaram uma oposição significativa. A presidente da autarquia considera o empreendimento “original e único”, enquanto alguns comerciantes esperam que o novo complexo volte a atrair visitantes à região.

Fady Farah, proprietário da pizzaria Angelina’s, está entre os que veem uma oportunidade. E já sabe como reagirá caso a temida catástrofe chegue realmente.

“Se a situação rebentar, vão ver-me lá, a bater à porta”, brincou. “Alguém terá de lhes cozinhar a comida enquanto estiverem lá dentro.”

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