“Somos reativos”: especialista critica resposta portuguesa às temperaturas extremas

Portugal precisa de preparar com antecedência uma rede estruturada de refúgios climáticos e garantir que a informação chega diretamente às pessoas mais vulneráveis, em vez de depender apenas da divulgação através da Internet.

Executive Digest

Portugal precisa de preparar com antecedência uma rede estruturada de refúgios climáticos e garantir que a informação chega diretamente às pessoas mais vulneráveis, em vez de depender apenas da divulgação através da Internet. O alerta é de Pedro Matos Soares, investigador em alterações climáticas, que defende uma comunicação permanente sobre os locais disponíveis durante ondas de calor e vagas de frio.

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Em entrevista à Renascença, o investigador principal do Instituto Dom Luiz explicou que muitos idosos apresentam baixos níveis de literacia digital e podem não conseguir consultar portais com informações sobre bibliotecas, pavilhões, estações de metro ou outros espaços onde seja possível procurar proteção durante períodos de temperaturas extremas.

Pedro Matos Soares considera insuficiente anunciar, já durante uma emergência, que existem locais de acolhimento e remeter os cidadãos para informação disponível online. Na sua perspetiva, as autarquias devem divulgar durante todo o ano onde ficam os refúgios climáticos, quais são os respetivos horários e em que circunstâncias podem ser utilizados.

Portugal escapou ao cenário mais grave por causa da posição do calor

O especialista admite que a recente onda de calor provocou excesso de mortalidade e mais hospitalizações em Portugal, embora tenha sido menos severa do que noutros países da Europa Ocidental. A entrada de ar marítimo e a influência do anticiclone dos Açores terão ajudado a reduzir as temperaturas, sobretudo no litoral, onde vive a maioria da população portuguesa.

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Segundo explicou à Renascença, o impacto poderia ter sido bastante mais grave caso a chamada cúpula de calor tivesse ficado diretamente sobre Portugal ou se o anticiclone estivesse localizado mais para sudoeste. Nesse cenário, o país poderia ter enfrentado níveis de temperatura e de mortalidade semelhantes aos registados em Espanha, França e Reino Unido.

Pedro Matos Soares assinala também que o efeito das ondas de calor na mortalidade nem sempre é imediato. O agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias pode surgir algum tempo depois, pelo que os números relativos ao excesso de óbitos permanecem provisórios durante várias semanas.

Ondas de calor serão mais frequentes e severas

O investigador explica que o episódio de junho esteve associado a um bloqueio atmosférico em forma de ómega, que permaneceu durante vários dias sobre a Europa Ocidental. A ausência de nebulosidade e o aquecimento dos solos alimentaram o aumento das temperaturas, provocando anomalias entre 10 e 15 graus no sudoeste de França.

Os modelos climáticos indicam que este tipo de fenómeno está a tornar-se mais frequente, persistente e intenso em praticamente toda a Europa. Pedro Matos Soares recorda que uma subida da temperatura global de 1,5 para dois graus poderá aumentar de algumas centenas de milhões para entre mil e dois mil milhões o número de pessoas expostas a ondas de calor.

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O investigador rejeita, contudo, a ideia de que o registo de seis ondas de calor num único ano signifique que Portugal já vive o clima projetado para as últimas décadas do século. As projeções climáticas são construídas com médias de 30 anos e não podem ser comparadas diretamente com os resultados de apenas um ano.

Existem também diferentes definições de onda de calor. O Roteiro Nacional de Adaptação considera períodos de pelo menos cinco dias com temperaturas máximas acima do percentil 90, enquanto o IPMA identifica uma onda de calor quando, durante pelo menos seis dias consecutivos, a máxima diária supera em cinco graus o valor médio do mês.

Parques ajudam, mas não resolvem o problema

Durante os períodos de calor extremo, os parques e jardins podem apresentar temperaturas dois ou três graus inferiores às verificadas na malha urbana. Ainda assim, Pedro Matos Soares alerta que essa diferença não elimina os riscos de uma noite tropical nem transforma automaticamente estes espaços numa solução suficiente para proteger a população.

O encerramento de parques devido ao perigo de incêndio revela também a dificuldade de conciliar diferentes riscos. Quando o calor coincide com falta de chuva e vegetação muito seca, estes espaços podem ser importantes para aliviar a temperatura, mas também ficam expostos a um elevado perigo de incêndio rural.

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De acordo com a Renascença, durante a recente onda de calor foram abertos dois pavilhões e algumas estações de metro em Lisboa para acolher pessoas sem-abrigo. O investigador valoriza essas medidas, mas considera que Portugal continua a responder de forma reativa, quando deveria dispor de uma rede permanente, conhecida e preparada antes da chegada dos fenómenos extremos.

A preparação para o verão deve, por isso, começar durante o inverno, tal como as respostas às vagas de frio devem ser organizadas com antecedência. O objetivo, defende Pedro Matos Soares, deve ser criar uma estrutura municipal capaz de contactar diretamente os cidadãos, com especial atenção aos idosos, às pessoas sem-abrigo e a todos os que não conseguem obter informação através dos meios digitais.

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