A ideia parece saída de um filme de ficção científica: soldados capazes de controlar drones e outros sistemas militares apenas com sinais cerebrais, sem cirurgia e sem implantes invasivos. Mas o ‘Daily Mail’ relata que a Agência de Projetos de Investigação Avançada de Defesa dos Estados Unidos, conhecida como DARPA, publicou informação sobre um programa que procurava precisamente aproximar o cérebro humano das máquinas de guerra.
O projeto chamava-se Next-Generation Nonsurgical Neurotechnology, ou N3, e tinha um objetivo ambicioso: desenvolver uma interface cérebro-computador portátil, não cirúrgica, que permitisse a militares saudáveis comunicar diretamente com sistemas de segurança nacional.
Na prática, a tecnologia deveria ler sinais cerebrais do utilizador e, ao mesmo tempo, enviar informação de volta para o cérebro. A promessa era criar uma ligação direta entre militares e equipamentos como drones, reduzindo a dependência de comandos tradicionais.
A DARPA é muitas vezes descrita como a ‘fábrica de ideias’ do Pentágono. A agência esteve ligada ao desenvolvimento de tecnologias que acabaram por marcar o mundo moderno, como a internet, o GPS e sistemas furtivos. Desta vez, porém, o campo era mais delicado: não se tratava apenas de melhorar máquinas, mas de criar uma nova forma de interação entre humanos e armamento.
O programa foi anunciado em 2018 e financiou seis equipas de investigação a partir de 2019, incluindo grupos ligados ao Battelle Memorial Institute, Carnegie Mellon University, Johns Hopkins Applied Physics Laboratory, Rice University, Palo Alto Research Center e Teledyne Scientific.
O desenvolvimento foi dividido em três fases. A primeira procurava testar componentes capazes de ler e registar sinais cerebrais, bem como enviar sinais de volta ao cérebro. A segunda fase passou pela integração desses componentes num sistema funcional e por ensaios em animais, para perceber se a tecnologia podia funcionar de forma segura e eficaz.
A terceira fase era a mais sensível: aperfeiçoar o dispositivo, aumentar a velocidade da transmissão de sinais e iniciar testes em humanos.
É precisamente aqui que começa o mistério.
Segundo o ‘Daily Mail’, uma atualização da Carnegie Mellon University, datada de julho de 2023, indicava que a equipa já tinha iniciado testes em seres humanos. A universidade referia ainda uma técnica de estimulação cerebral não invasiva, apelidada de ‘SharpFocus’, apresentada como um avanço importante face ao que era possível até então.
Depois disso, porém, o rasto público do programa torna-se muito mais discreto. A página da DARPA dedicada ao N3 surge atualmente apenas como conteúdo de referência e indica que já não é mantida. A agência disse ao jornal que o esforço associado ao programa está concluído, acrescentando que não operacionaliza tecnologias.
Essa frase deixa espaço para uma pergunta inevitável: se a DARPA concluiu o programa, o que aconteceu à tecnologia?
A agência remeteu o conhecimento mais atualizado sobre a utilização dos dispositivos para as equipas de investigação envolvidas. Mas, até agora, não há uma explicação pública clara sobre o resultado dos testes humanos, sobre a eficácia dos equipamentos ou sobre uma eventual aplicação militar posterior.
O tema surge num contexto em que os Estados Unidos têm assumido publicamente a utilização de tecnologia militar avançada. O texto refere declarações de Donald Trump sobre armas que outros países desconheceriam, bem como relatos sobre alegadas armas sónicas e ferramentas secretas de deteção à distância.
Algumas dessas descrições devem, no entanto, ser lidas com cautela. Parte dos relatos citados envolve fontes anónimas, testemunhos não verificados ou episódios descritos sem confirmação independente. Ainda assim, ajudam a enquadrar o ambiente em que estas tecnologias são apresentadas: um campo onde propaganda, segredo militar e avanços reais se misturam com facilidade.
Entre os exemplos referidos está uma ferramenta conhecida como ‘Ghost Murmur’, que alegadamente usaria magnetometria quântica de longo alcance para detetar a assinatura eletromagnética de batimentos cardíacos. O sistema, segundo as descrições citadas, combinaria essa leitura com inteligência artificial para isolar uma pessoa no meio do ruído ambiente.
O ponto central, porém, continua a ser o N3: uma tentativa de tornar a interface cérebro-máquina suficientemente segura, portátil e prática para ser usada por pessoas saudáveis, começando pelo meio militar.
Até agora, tecnologias como a Neuralink, de Elon Musk, têm sido sobretudo associadas a pacientes com paralisia ou a contextos médicos e laboratoriais, muitas vezes com implantes colocados através de cirurgia. A proposta da DARPA era diferente: criar uma ligação não cirúrgica que pudesse ser usada em cenários reais.
Essa diferença é enorme. Um sistema implantado no cérebro já levanta debates éticos, médicos e técnicos. Um sistema portátil, capaz de ler sinais cerebrais sem cirurgia e de os transformar em comandos militares, abre uma discussão ainda mais ampla: até onde deve ir a fusão entre soldado e máquina?
O fascínio é evidente. Um militar que controle drones com a mente poderia reagir mais depressa, operar vários sistemas ao mesmo tempo e reduzir a distância entre intenção e ação. Mas os riscos também são claros: privacidade mental, autonomia humana, segurança dos dados cerebrais e possibilidade de erro num contexto de guerra.
É por isso que o silêncio em torno do desfecho do programa se torna tão relevante. O projeto foi apresentado, financiado, desenvolvido e levado até à fase de testes humanos. Depois, desapareceu da conversa pública.
No fim, a pergunta não é apenas se soldados já podem controlar drones com a mente. É outra, talvez mais inquietante: se essa tecnologia avançou, quem sabe hoje até onde chegou?



