Sofre de ansiedade? A culpa pode ser deste hábito com o telemóvel, alertam especialistas

Segundo psicólogos, esta prática pode estar ligada a ansiedade, à necessidade de estar sempre disponível ou, em casos extremos, a um comportamento aditivo relacionado com o uso de smartphones.

Pedro Gonçalves
Dezembro 21, 2024
16:00

O hábito crescente de utilizar dois telemóveis em simultâneo, uma tendência que parece estar a ganhar força em vários contextos, como transportes públicos, eventos sociais ou até estádios de futebol, está a ser analisado por especialistas. Segundo psicólogos, esta prática pode estar ligada a ansiedade, à necessidade de estar sempre disponível ou, em casos extremos, a um comportamento aditivo relacionado com o uso de smartphones.

David Sheffield, professor de psicologia na Universidade de Derby, explicou que a escolha de utilizar dois dispositivos pode ser um reflexo de traços de personalidade, como a neuroticidade. “Se alguém tem uma personalidade mais neurótica, poderá usar o telemóvel com maior frequência e preocupar-se mais com questões como a bateria. Ter dois telemóveis funciona como uma espécie de rede de segurança”, afirmou Sheffield ao MailOnline.

A utilização intensiva de smartphones é um fenómeno documentado. De acordo com um estudo recente, um britânico médio passa cerca de quatro horas e 20 minutos por dia num telemóvel, o equivalente a um quarto do seu tempo acordado. No entanto, ainda não está claro se o uso de dois dispositivos leva a um aumento do tempo global passado a olhar para ecrãs.

Para Zaheer Hussain, professor sénior de psicologia na Universidade de Nottingham Trent, o fenómeno dos dual-smartphone users (DSUs) pode estar relacionado com o FOMO (sigla para Fear of Missing Out, ou seja, o medo de ficar de fora). “O medo de perder notícias ou notificações pode levar a um uso mais intensivo de smartphones e à necessidade de múltiplos dispositivos”, explicou o professor. Hussain acrescentou ainda que o consumo constante de conteúdos oferecidos pelas redes sociais contribui para esta tendência: “Muitas vezes, as pessoas deslizam o ecrã de forma mecânica, como resultado de um hábito aprendido.”

Outra explicação comum para o uso de dois telemóveis é a separação entre vida profissional e pessoal. Muitas empresas fornecem dispositivos aos seus colaboradores, permitindo-lhes desligar o telemóvel de trabalho fora do horário laboral e, assim, evitar o desgaste mental associado à sobreposição das responsabilidades. No entanto, Kostadin Kushlev, especialista do departamento de psicologia da Universidade de Georgetown, alerta que esta separação pode ter o efeito contrário: “Muitas pessoas sentem a pressão de estar sempre contactáveis, tanto a nível profissional como pessoal. Isto cria um cenário em que dois dispositivos competem pela atenção do utilizador.”

Por outro lado, há quem veja na utilização de dois telemóveis uma solução prática para problemas simples, como a gestão da autonomia da bateria ou a necessidade de ter funcionalidades diferentes de modelos específicos. A crescente compatibilidade das aplicações sociais, como WhatsApp ou Instagram, que permitem iniciar sessão em múltiplos dispositivos, poderá também estar a contribuir para esta tendência.

Ainda assim, Mark Griffiths, professor distinguido de adição comportamental na Universidade de Nottingham Trent, acredita que ter dois telemóveis, em si, não é alarmante. “As pessoas não estão mais viciadas em telemóveis do que os alcoólicos estão em garrafas. A questão não está no dispositivo, mas sim no comportamento e no uso que as pessoas fazem dele”, concluiu Griffiths.

Embora a ligação entre o uso de dois telemóveis e a ansiedade não esteja totalmente esclarecida, o fenómeno continua a intrigar investigadores. Para alguns utilizadores, os dois dispositivos representam apenas uma solução funcional; para outros, pode ser um sintoma de comportamentos mais complexos ligados ao uso compulsivo da tecnologia.

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