Inglaterra regista já 94 mortes nos últimos quatro meses após contrair a infeção por strep A, revelou esta quinta-feira o jornal ‘The Independent’: segundo dados da Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido (UKHSCA), quase metade (41%) destas ocorreram entre pessoas com 75 ou mais anos. Cerca de 17% – 24 – das mortes ocorreram em crianças de 10 ou menos anos, acrescentou o órgão do Governo britânico.
O UKSCA revelou ainda que, nas últimas duas semanas, houve um “aumento acentuado” nos casos de escarlatina, que afeta principalmente crianças pequenas. O número semanal de notificações de escarlatina para médicos de família nos últimos meses “foi maior do que qualquer outro registrado anteriormente”, acrescentou o organismo.
Os números do Reino Unido são assustadores. Em declarações à ‘Multinews’, o dr. José Melo Cristino, médico especialista em Microbiologia no CHULN (Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte) e professor catedrático de Microbiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, disponibilizou-se para ajudar a compreender o fenómeno.
O que poderá estar a provocar esta onda infecciosa? As autoridades já garantiram não se tratar de uma mutação genética ou uma maior resistência aos antibióticos. Como se explicam a taxa de mortalidade elevada, que parece afetar quem tem escarlatina?
O Streptococcus pyogenes ou Streptococcus do Grupo A é uma bactéria que causa frequentemente infeções pouco graves e facilmente tratáveis como, por exemplo, amigdalites agudas, sobretudo em crianças. (A maioria da outras amigdalites agudas são causadas por vírus). A escarlatina é uma infeção causada por esta bactéria em que há manifestações cutâneas (pele avermelhada) embora a bactéria esteja alojada na orofaringe (garganta) e não na pele.
O Streptococcus do Grupo A mantém-se universalmente suscetível à penicilina, o antibiótico de eleição para tratar estas infeções. Não há, neste caso, maior resistência aos antibióticos.
Muito raramente o Streptococcus pyogenes pode causar situações de elevada gravidade, designadas por infeções invasivas. Estes quadros clínicos são conhecidos há décadas, não são apresentações novas da doença causada por esta bactéria.
Admite-se que o recente incremento de casos de infeções invasivas por Streptococcus do Grupo A que tem sido reportado em alguns países europeus e nos Estados Unidos da América desde setembro de 2022 esteja relacionado com o aumento das infeções de transmissão respiratória (como a gripe e a infeção por Vírus Respiratório Sincicial) sobretudo neste período após dois anos de pandemia de Covid-19 em que as crianças estiveram mais isoladas e com menos contacto com microrganismos de transmissão respiratória. Também o estudo das bactérias isoladas destes quadros graves de infeção revelará se existirá ou não alguma característica dos seus fatores de virulência que as distinga das restantes.
A DGS garantiu não haver qualquer caso em Portugal mas recomendou vigilância às unidades de saúde. No entanto, é compreensível algum receio das pessoas. É justificado? Ou melhor, é expectável que por cá possa haver também casos semelhantes?
Sempre que há notícias que indicam novas infeções ou novas situações em que há mortalidade, há uma tendência para ampliar o seu impacto mediático, o que torna compreensível algum receio das pessoas. Em Portugal, como nos restantes países, devemos estar alerta, como todos os pediatras e outros médicos estarão, pois são conhecedores destas infeções há décadas. Embora o maior foco mediático esteja a incidir nas crianças, o aumento de infeções invasivas por Streptococcus do Grupo A tem sido também documentado nos idosos e pode ocorrer em todas as idades.
A que sintomas devem as pessoas estar atentas?
Os sintomas podem ser variados e por vezes são pouco específicos no início. Só os médicos, depois de observarem os doentes, poderão fazer o diagnóstico.
Que cuidados devem ter para evitar situações semelhantes?
O Streptococcus pyogenes é uma bactéria facilmente transmissível de pessoa a pessoa, através de secreções respiratórias ou da saliva. Habita frequentemente a orofaringe e pode ser transmitida pela tosse, espirro e todas as situações em que haja dispersão de gotículas a partir de uma pessoa que tenha a bactéria na garganta. Como com todas as outras infeções de transmissão respiratória, esta é facilitada quando há aglomeração de pessoas, sobretudo em espaços fechados.
Como medidas preventivas principais salientam-se:
– lavar as mãos com frequência, com água e sabão, durante 20 segundos.
– usar lenço de papel antes de tossir ou espirrar e descartar imediatamente o lenço. Lavar de seguida as mãos com água e sabão.
– evitar partilha de copos ou talheres de alimentação, toalhas e outros objectos pessoais.
– evitar contacto próximo com outras pessoas se não se estiver a sentir bem.









