Sinais dos tempos: mafiosos de Sicília são gravados a queixar-se da falta de pessoal ‘qualificado’

O que foi surgindo na extensa investigação foi de um grupo de crime organizado a tentar adaptar-se às realidades modernas e a demonstrar nostalgia pelas ambições mais elevadas do passado

Francisco Laranjeira

A polícia italiana atacou a máfia siciliana na passada terça-feira, com o objetivo máximo de a impedir de se reagrupar e criar um novo órgão de liderança. No entanto, o que foi surgindo na extensa investigação foi de um grupo de crime organizado a tentar adaptar-se às realidades modernas e a demonstrar nostalgia pelas ambições mais elevadas do passado.

“Já não se produzem mafiosos como antigamente”, salientou Giarcarlo Romano a um associado, numa conversa escutada pelas autoridades antes de ser morto a tiro, há um ano. No entanto, apesar do saudosismo, a máfia siciliana ainda é uma força que deve ser reconhecida, alertou o promotor antimáfia Maurizio de Lucia. “A Cosa Nostra está viva e presente”, garantiu.

Os investigadores italianos revelaram que a nova geração de chefes passou a usar telemóveis criptografados e milhares de cartões micro-Sim de curta duração que são contrabandeados na prisão. Dessa forma, procuram evitar ser espionados e tentar não levantar os holofotes para os crimes de drogas, lavagem de dinheiro e jogos de azar online.

Dos 181 mandados de prisão expedidos contra suspeitos de crimes de gangs sicilianos em quatro distritos da capital Palermo, 33 eram contra pessoas condenadas que já estavam na prisão. Segundo o procurador nacional antimáfia Giovanni Melillo, apesar de todas as repressões, o sistema prisional de alta segurança estava à mercê da máfia. Na investigação foi revelado que um ganster assistiu a um espancamento que ele havia ordenado, a partir da prisão, num link de vídeo em tempo real.

A máfia ficou extremamente confiante sobre a plataforma de mensagens criptografadas que utilizava mensagens de texto, notas de voz e imagens. Porém, há um ano, uma escuta instalada na casa de um ganster gravou-o a reclamar sobre a fraca ligação num chat criptografado – enquanto tentavam restaurar o link, foram mencionados em voz alta o nome de várias figuras da máfia, com as autoridades da Sicília a ouvir todas as palavras.

Continue a ler após a publicidade

No final de 2023, Giancarlo Romano, considerado uma figura promissora da máfia na área de Brancaccio, no coração da capital da Sicília, Palermo, foi gravado a reclamar do declínio da máfia e da baixa qualidade dos novos recrutas. “O nível é baixo. Hoje eles prendem alguém e se ele vira um traidor eles prendem outro… um sujeito miserável de baixo escalão”, terá dito no telemóvel sob escuta. Para o responsável, um aspirante a mafioso deve ir à escola, conhecer médicos e advogados e aprender com os filmes “O Padrinho”.

A Cosa Nostra é uma sombra da notória máfia do crime organizado que já foi, derrubada por uma onda de campanhas das autoridades nos últimos 30 anos. Mas, apesar da procura por uma máfia mais modernizada, muitas das antigas práticas e códigos permanecem. “Cosa Nostra é como casamento. Se se é casado, fica com a esposa para toda a vida.”

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.