Sete semanas a subir: cabaz alimentar atinge novo recorde em Portugal. Preço do café e cereais ‘disparam’

Desde o início de 2026, a subida acumulada é já de 19,06 euros. Há um ano, comprar exatamente os mesmos 63 produtos custava menos 22,16 euros, o equivalente a menos 9,28%

Francisco Laranjeira

O preço do cabaz alimentar composto por 63 bens essenciais voltou a aumentar e fixou-se esta semana nos 260,89 euros, o valor mais elevado desde que a monitorização começou, em janeiro de 2022. Só na última semana, o acréscimo foi de 1,37 euros. Trata-se da sétima semana consecutiva de subida no preço do cabaz essencial monitorizado pela DECO PROteste.

Desde o início de 2026, a subida acumulada é já de 19,06 euros. Há um ano, comprar exatamente os mesmos 63 produtos custava menos 22,16 euros, o equivalente a menos 9,28%. Se a comparação recuar a 5 de janeiro de 2022, data em que a DECO PROteste iniciou este acompanhamento regular, a diferença é ainda mais expressiva: para adquirir o mesmo cabaz, os consumidores pagavam menos 73,19 euros, ou seja, menos 38,99% do que atualmente.

Cereais, café e douradinhos entre os maiores aumentos da última semana

Entre 15 e 22 de abril, os maiores aumentos percentuais registaram-se nos flocos de cereais, que subiram 19% para 2,78 euros, no café torrado moído, com uma subida de 16% para 5,28 euros por quilo, e nos douradinhos de peixe, que aumentaram 13% para 5,86 euros.

Já numa comparação com o mesmo período do ano passado, destacam-se as subidas da couve-coração, que encareceu 60% para 2,02 euros por quilo, do carapau, que aumentou 52% para 6,58 euros por quilo, e do café torrado moído, que está agora 45% mais caro, custando 5,28 euros.

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Se o horizonte temporal for alargado até ao início da monitorização, em janeiro de 2022, os aumentos acumulados continuam a ser particularmente expressivos. A carne de novilho para cozer encabeça a lista, com uma subida de 122% para 12,94 euros por quilo, seguida da couve-coração, que aumentou 104% para 2,02 euros por quilo, e dos ovos, com uma subida de 84% para 2,10 euros.

Conflito no Médio Oriente e custos de produção pressionam preços

A evolução recente dos preços poderá ainda não ter atingido o seu limite. Caso o conflito no Médio Oriente se prolongue, é possível que os bens alimentares voltem a encarecer nos próximos meses. A guerra já provocou aumentos nos preços dos combustíveis e da energia, com impacto nas cadeias de abastecimento — um cenário semelhante ao verificado aquando do início da guerra na Ucrânia.

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A estes fatores somam-se os prejuízos causados pelas tempestades de janeiro e fevereiro em Portugal, cujos efeitos poderão ainda não estar totalmente refletidos nos preços ao consumidor, bem como a subida dos fertilizantes utilizados na agricultura.

Uma parte significativa dos maiores produtores mundiais de fertilizantes agrícolas — e das respetivas matérias-primas — está localizada no Médio Oriente. Grande parte destas mercadorias é transportada por via marítima através do estreito de Ormuz. Se o conflito na região persistir, o custo destes produtos poderá aumentar de forma significativa, repercutindo-se no preço final dos alimentos.

Como é calculado o preço do cabaz alimentar

Desde janeiro de 2022, a DECO PROteste acompanha semanalmente a evolução do preço de um conjunto de bens alimentares considerados essenciais. Todas as quartas-feiras é calculado o custo total do cabaz com base nos preços recolhidos no dia anterior nos principais supermercados com loja online.

O processo começa pelo apuramento do preço médio de cada produto nas várias lojas online onde está disponível no simulador. Posteriormente, a soma desses valores médios determina o custo total do cabaz num dado momento.

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A lista integra 63 produtos alimentares essenciais, permitindo aos consumidores acompanhar de forma comparável a evolução dos preços ao longo do tempo.

Quatro anos de escalada nos preços alimentares

A trajetória ascendente dos preços tem origem em vários fatores acumulados. Em 2022, a invasão da Ucrânia pela Rússia afetou significativamente o setor agroalimentar europeu, uma vez que grande parte dos cereais consumidos na União Europeia — e em Portugal — tinha origem naquela região.

Esse choque surgiu numa altura em que o setor já enfrentava as consequências da pandemia de covid-19 e da seca em território nacional. A limitação da oferta de matérias-primas e o aumento dos custos de produção, nomeadamente fertilizantes e energia, refletiram-se nos mercados internacionais e, posteriormente, no consumidor final, com impacto em produtos como carne, hortofrutícolas, cereais de pequeno-almoço e óleo vegetal.

Perante este cenário, o Governo avançou, em abril de 2023, com a isenção de IVA num cabaz com mais de 40 alimentos. A medida teve inicialmente efeitos na contenção dos preços, mas poucos meses depois deixou de ter impacto significativo, voltando o cabaz alimentar a registar aumentos expressivos.

Em 2024, já após a reposição do imposto, alguns produtos continuaram a subir, como o azeite virgem extra, que atingiu o preço mais elevado em abril desse ano.

O ano de 2025 ficou particularmente marcado pelo aumento do preço dos ovos, do café torrado moído e do chocolate.

Inflação volta a acelerar em março de 2026

A subida generalizada dos preços ao consumidor levou a taxa de inflação a níveis históricos em 2022 e 2023. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2025 a inflação fixou-se nos 2,3%, abaixo dos 2,4% registados em 2024.

Contudo, em março de 2026, as estimativas apontam para uma nova aceleração da inflação para 2,7%, mais 0,6 pontos percentuais face a fevereiro.

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