Os serviços de inteligência da Bélgica têm examinado as operações da gigante de tecnologia chinesa Huawei à medida que crescem os receios de espionagem chinesa ao redor da sede da União Europeia e da NATO, em Bruxelas, alertou esta terça-feira o jornal ‘POLITICO’.
O Serviço de Segurança do Estado da Bélgica (VSSE), nos últimos meses, tem solicitado entrevistas com antigos funcionários da operação de ‘lobby’ da empresa no coração do distrito europeu de Bruxelas – as autoridades pretendem determinar se a China está a usar agentes não estatais – incluindo lobistas no escritório da Huawei em Bruxelas – para promover os interesses do Estado chinês na Europa.
O escrutínio belga das atividades da Huawei decorre quando diversas agências de segurança ocidentais têm feito soar os alarmes sobre empresas com ligações à China. Funcionários britânicos, holandeses, belgas, checos e nórdicos, assim como os da UE, foram instruídos a deixar o TikTok fora dos telefones profissionais por receios semelhantes aos da Huawei. Há também casos crescentes da influência de estados estrangeiros na tomada de decisões da UE – um fenómeno exposto no Qatargate, onde um estado tentou influenciar Bruxelas através de subornos e presentes.
Assim, pretende-se determinar se há um vínculo direto entre o estado chinês e o escritório da Huawei em Bruxelas: a empresa, com sede em Shenzhen, na China, pode estar a ser instrumentalizada, pressionada ou infiltrada pelo Governo chinês para obter acesso a dados críticos nos países ocidentais.
Os escritórios de ‘lobby’ da Huawei na UE – um localizado entre os prédios do Parlamento Europeu, da Comissão Europeia e do Conselho e o outro um “centro de transparência de segurança cibernética” perto da embaixada dos EUA – têm sido colocados entre as 30 maiores empresas que mais gastam em ‘lobbys’ em Bruxelas, com um gasto máximo declarado de 2,25 milhões de euros anuais.
A Huawei tem enfatizado continuamente que é independente do estado chinês. “A Huawei é uma operação comercial”, apontou um porta-voz, que não quis revelar se os funcionários são membros do Partido Comunista Chinês. “Não perguntamos ou interferimos nas crenças políticas ou religiosas dos funcionários. Tratamos todos os funcionários da mesma forma, independentemente de sua raça, gênero, status social, deficiência, religião ou qualquer outra coisa.”
Uma das principais preocupações levantadas pelas autoridades de segurança ocidentais nos últimos anos é que a Huawei, como empresa sediada na China, está sujeita à Lei de Inteligência Nacional de Pequim de 2017 que exige que as empresas “apoiem, ajudem e cooperem com os esforços de inteligência nacional”, bem como “proteger os segredos do trabalho de inteligência nacional de que estão cientes”.
“A Huawei nunca recebeu tal solicitação e nos recusaríamos categoricamente a atender se o fizessem. A Huawei é uma empresa independente que trabalha apenas para atender os seus clientes. Nunca comprometeríamos ou prejudicaríamos qualquer país, organização ou indivíduo, especialmente quando se trata de segurança cibernética e proteção da privacidade do utilizador”, assumiu o porta-voz.
A Huawei enfrentou resistência dos serviços de segurança belgas nos últimos anos. O Conselho de Segurança Nacional do país impôs em 2020 restrições ao seu uso em partes críticas das redes 5G.
O Serviço de Segurança do Estado belga na Huawei divulgou, em 2022, um relatório sobre as suas descobertas sobre as operações de lobistas apoiados pela China em Bruxelas. O VSSE criticou o estado chinês por operar “numa zona cinzenta entre ‘lobby’, interferência, influência política, espionagem, chantagem económica e campanhas de desinformação”.
Não é só a China. “A interferência indevida perpetrada por outras potências também continua a ser uma ‘red flag’ para o VSSE”, denunciou o serviço de inteligência no seu relatório.






