“Seria a república das bananas”: Governo irritado com ‘recados’ de Belém sobre Luís Neves

Enquanto Luís Montenegro procura conter os danos provocados pelas sucessivas polémicas envolvendo o ministro da Administração Interna, responsáveis do PSD mostram-se cada vez mais irritados com os alegados “recados”

Revista de Imprensa

A crise política em torno de Luís Neves está a abrir uma nova frente de tensão entre o Governo e Belém. Enquanto Luís Montenegro procura conter os danos provocados pelas sucessivas polémicas envolvendo o ministro da Administração Interna, responsáveis do PSD mostram-se cada vez mais irritados com os alegados “recados” provenientes do círculo próximo do Presidente da República, António José Seguro.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Segundo avança o ‘Observador‘, o incómodo aumentou depois de o ‘Nascer do Sol’ ter noticiado que Seguro teria feito um “ultimato” ao primeiro-ministro e exigido o afastamento de Luís Neves — informação que não foi desmentida pelo Palácio de Belém.

Declarações posteriores de Álvaro Beleza, amigo e apoiante de Seguro, e de Adalberto Campos Fernandes, antigo ministro da Saúde e atual conselheiro presidencial, contribuíram para aumentar a tensão. Este último chegou a falar em sinais que indiciam um “irregular funcionamento das instituições”.

“Seria a república das bananas”

No PSD, a estratégia passa agora por desvalorizar a ideia de que estas intervenções traduzem a posição do Presidente da República.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

“António José Seguro quando quer falar, fala. Parece-me no mínimo irresponsável que queiram falar pelo Presidente da República”, afirmou Sebastião Bugalho, vice-presidente e porta-voz do PSD, ao ‘Observador’.

Hugo Soares foi ainda mais longe. “Ninguém acredita que o mais alto magistrado da nação manda recados pelo amigo, numa televisão. É patético”, afirmou o líder parlamentar do PSD na ‘SIC Notícias’. “Se assim fosse, isto seria uma república das bananas”, acrescentou.

A irritação do Governo tem uma explicação política. O silêncio de António José Seguro mantém em aberto as dúvidas sobre aquilo que o Presidente pensa realmente sobre a continuidade de Luís Neves e permite a André Ventura aumentar a pressão sobre Luís Montenegro.

O líder do Chega chegou a defender que, se a decisão dependesse exclusivamente de Seguro, Luís Neves já teria sido afastado.

Seguro não deverá quebrar o silêncio

Continue a ler após a publicidade

Apesar da pressão, António José Seguro não deverá pronunciar-se publicamente nos próximos dias sobre a permanência do ministro da Administração Interna.

Segundo o ‘Observador’, o Presidente entende que uma intervenção acrescentaria ainda mais ruído a uma polémica que se prolonga há meses e considera que a decisão sobre a continuidade de Luís Neves pertence constitucionalmente ao primeiro-ministro.

Seguro já tinha deixado um sinal público a 23 de agosto.

“A nossa Constituição é muito clara quanto às competências e às atribuições de cada órgão de soberania. Aquilo que eu desejo é que cada um assuma a sua responsabilidade”, afirmou então.

No Governo, estas palavras foram interpretadas publicamente como uma simples referência às competências constitucionais de cada órgão. Mas o ‘Observador’ adianta que Seguro já terá transmitido diretamente a Montenegro aquilo que pensa sobre Luís Neves e estará agora à espera dos resultados das investigações e auditorias em curso.

Continue a ler após a publicidade

Discurso de Luís Neves criou novo problema

A situação tornou-se ainda mais delicada depois da intervenção de Luís Neves na cerimónia de aniversário da PSP Madeira.

O ministro garantiu que não deixará de governar, prometeu combater o “populismo” de André Ventura e atacou aqueles que, na Polícia Judiciária, movidos pela “inveja”, terão alimentado investigações jornalísticas sobre a sua atuação.

Mas houve uma frase que causou particular incómodo: “Nada me vai afastar daquilo para que aceitei este cargo.”

Segundo o ‘Observador’, no círculo mais próximo de Montenegro reconhece-se que a declaração “não foi feliz”. A frase foi interpretada como se Luís Neves estivesse a assumir uma decisão que pertence exclusivamente ao primeiro-ministro: determinar se continua ou não no Governo.

Sebastião Bugalho e Hugo Soares procuraram posteriormente contextualizar as palavras do ministro. “Ele disse depois: ‘O meu líder é o meu primeiro-ministro e é a ele que respondo’”, recordou Hugo Soares, antes de deixar claro: “Claro que sai no dia em que o primeiro-ministro quiser. Qual é a dúvida?”

Continue a ler após a publicidade

Governo acredita que portugueses estão “cansados” do caso

Apesar do desgaste político, a estratégia do Executivo continua a passar pela desvalorização do impacto que o caso terá junto dos eleitores.

Dentro do Governo existe a convicção de que questões como o custo de vida, os preços dos combustíveis, as compras no supermercado ou os problemas nos exames nacionais pesam muito mais na avaliação dos portugueses do que as sucessivas polémicas envolvendo Luís Neves.

A experiência da crise da Spinumviva também influencia esta leitura: quanto mais tempo uma polémica domina noticiários e espaços de comentário, maior poderá ser o cansaço e a indiferença dos cidadãos.

“As pessoas estão a ficar um bocadinho cansadas deste tema. Têm muitas outras preocupações”, afirmou o ministro da Coesão e da Economia, Castro Almeida.

Hugo Soares classificou mesmo a ofensiva de André Ventura como um “engodo da silly season”.

Continue a ler após a publicidade

Em privado, PSD reconhece “custos pesados”

A avaliação interna é, contudo, menos tranquila.

Segundo o ‘Observador’, no Governo reconhece-se que uma polémica prolongada, com o Chega a manter a pressão, poderá representar “custos pesados” para o Executivo.

E o problema está longe de terminar. Poderão surgir novas notícias sobre Luís Neves, estão em curso várias investigações e André Ventura já anunciou uma comissão parlamentar de inquérito.

O cenário traçado é, por isso, de desgaste prolongado, potencialmente até meados de 2027, dificultando a tentativa de Montenegro de recentrar o debate político na ação governativa.

Para contrariar esse efeito, o PSD deverá continuar a destacar aquilo que considera serem resultados positivos da atuação de Luís Neves, entre os quais a época de incêndios relativamente calma e a redução das filas no aeroporto de Lisboa.

Hugo Soares chegou a classificar o trabalho do ministro como “extraordinário”, enquanto Sebastião Bugalho rejeitou que Luís Neves seja um “peso morto” dentro do Executivo.

Continue a ler após a publicidade

Por enquanto, Montenegro mantém o ministro. Mas entre a pressão de Ventura, o silêncio de Seguro, as investigações ainda em curso e os próprios erros de comunicação de Luís Neves, o Governo prepara-se para continuar a gerir uma crise que já admite poder prolongar-se durante muitos meses.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.