“Seremos o principal player elétrico europeu”: líder da Volvo explica a aposta que pode mudar o mercado automóvel

Johanna Minding Kriisa, diretora-geral da Volvo Car Sweden, falou em exclusivo à ‘Executive Digest’ sobre a perspetiva de sucesso do novo modelo EX60

Jorge Farromba

A Volvo quer entrar numa nova fase da transição elétrica com uma ambição clara: afirmar-se como uma das marcas centrais do mercado europeu de automóveis elétricos e usar o novo EX60 como peça-chave dessa estratégia. A convicção é de Johanna Minding Kriisa, diretora-geral da Volvo Car Sweden e responsável pelas operações comerciais da marca nos países nórdicos, numa entrevista exclusiva à ‘Executive Digest’.

A executiva chegou à Volvo em janeiro de 2026, depois de uma carreira ligada ao setor automóvel, com passagens por cargos de liderança na BMW e na Rolls-Royce, além de experiência em consultoria tecnológica e automóvel com marcas como McLaren, Infiniti e Jaguar Land Rover. Agora, assume uma função central num momento decisivo para a marca sueca: a passagem para uma gama cada vez mais elétrica, num mercado europeu pressionado por fabricantes americanos e chineses.

O lançamento do EX60 surge, por isso, como mais do que a chegada de um novo modelo. Para Johanna Minding Kriisa, é uma peça estratégica numa disputa maior: a da liderança elétrica na Europa.

A ambição elétrica: liderar na Europa

“A Volvo vive um momento muito empolgante e, com o lançamento do EX60, entramos num dos maiores segmentos da Europa”, afirma Johanna Minding Kriisa.

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A responsável sublinha que a eletrificação não avança ao mesmo ritmo em todos os mercados. Nos países nórdicos, diz, a mudança já deixou de ser uma promessa para passar a ser realidade consolidada. “Se nos focarmos somente nos países nórdicos, nós não estamos a eletrificar o mercado, pois já o fizemos”, afirma.

A diferença face a outros países europeus continua, contudo, a ser significativa. Segundo a executiva, Portugal está com cerca de 25% de participação dos automóveis elétricos, enquanto a Noruega já ultrapassa os 85%.

É neste contraste que a Volvo quer encontrar espaço para crescer. “A minha visão é que seremos o principal player elétrico europeu, servindo de ponta de lança contra os concorrentes tanto dos EUA como da China”, defende.

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A frase resume a dimensão da aposta. Para a Volvo, o elétrico não é apenas uma resposta ambiental ou tecnológica. É também uma disputa industrial, comercial e estratégica, num setor em que a Europa procura manter relevância perante a ofensiva de novos concorrentes.

“O XC60 é a alma da nossa frota”

A transição elétrica da Volvo tem, no entanto, um desafio particular: transportar para o EX60 o legado do XC60, um dos modelos mais importantes e reconhecidos da marca.

Johanna Minding Kriisa não foge a esse peso. “O XC60 é a alma da nossa frota automóvel e temos muitos clientes fiéis”, afirma.

A responsável admite que nem todos os clientes farão a transição ao mesmo tempo. Alguns continuarão ligados ao XC60 híbrido, mas a Volvo já vê uma parte relevante dos clientes a avançar para o novo EX60.

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“Sabemos que alguns se irão manter com o XC60 híbrido, mas muitos já estão a mudar para o EX60”, explica.

Para a executiva, a chave está na confiança. A marca acredita ter resolvido as principais hesitações que ainda levavam muitos condutores a adiar a passagem para o elétrico.

“Como marca, acertámos no design, na autonomia e no tempo de carregamento. Todas as hesitações que levavam o cliente a escolher um híbrido resolvemo-las. Existe confiança na escolha pelo elétrico”, sublinha.

“O EX60 é um sucesso absoluto”

A confiança da Volvo no novo modelo não se fica pelo discurso. Segundo Johanna Minding Kriisa, os primeiros sinais comerciais superaram as expectativas da própria marca.

Questionada sobre o número ‘mágico’ de vendas globais esperado para o primeiro ano, a responsável evita revelar metas concretas. Mas deixa claro que o desempenho inicial está acima do previsto.

“Não posso ainda apresentar números exatos, mas, a nível global, já superámos as nossas melhores previsões. O EX60 é um sucesso absoluto”, afirma.

A procura foi suficientemente forte para obrigar a marca a ajustar os planos industriais. “Vemos isso nas vendas, que superaram todas as nossas expectativas ao ponto de termos de aumentar a produção no verão”, acrescenta.

A possibilidade de uma versão Cross Country também fica em aberto. Questionada sobre esse cenário, Johanna Minding Kriisa responde de forma breve, mas sugestiva: “Sim, talvez. Surgirá no devido momento.”

Como convencer quem ainda usa diesel ou híbrido?

A pergunta é central para toda a indústria automóvel: o que falta para convencer quem ainda conduz um diesel ou um híbrido a fazer a mudança definitiva para um elétrico?

Johanna Minding Kriisa divide a resposta em três pontos: autonomia e carregamento, qualidade e design, e ecossistema.

O primeiro ponto passa por uma mudança na própria preocupação dos clientes. “Antigamente, a preocupação era a autonomia, mas, uma vez superada, o cliente mudou o foco para o tempo de carregamento. E resolvemos esse desafio”, afirma.

O segundo argumento está na evolução do produto. Para a responsável, os elétricos deixaram de ser vistos como uma alternativa de compromisso e passaram a competir diretamente, ou até em vantagem, com modelos a combustão.

“Os carros elétricos têm hoje um design e uma qualidade superior a muitos modelos a combustão”, defende.

O terceiro ponto é mais estrutural e não depende apenas das marcas. A transição elétrica exige infraestruturas, coordenação e planeamento.

“Temos de unir esforços junto de empresas e governos para garantir que exista um plano de carregamento em todo o país”, afirma.

É aqui que a discussão sobre o elétrico deixa de ser apenas automóvel. Para Johanna Minding Kriisa, a decisão do cliente depende do carro, mas também da confiança no ecossistema que o rodeia.

Tecnologia, sustentabilidade e a nova experiência de utilização

A comunicação da Volvo tem dado cada vez mais destaque à tecnologia, incluindo soluções digitais, integração com serviços como Google e Gemini, e atualizações remotas. Para Johanna Minding Kriisa, essa aposta responde a uma mudança clara no comportamento dos clientes.

“O cliente atual valoriza os benefícios de termos criado soluções para descomplicar o seu dia a dia”, afirma.

Mas a responsável rejeita a ideia de que a sustentabilidade tenha perdido espaço na narrativa da marca. Pelo contrário, diz que ela está presente não apenas nas emissões zero durante a utilização, mas também nos materiais e nos processos industriais.

“Além das emissões zero, temos o uso de aço verde e a mega casting, que reduz drasticamente a pegada de carbono ao usar alumínio reciclado e menos peças”, explica.

A tecnologia, neste caso, não é apenas digital. É também industrial. A Volvo quer apresentar o EX60 como um automóvel elétrico, mas também como resultado de uma nova forma de desenhar, produzir e escalar veículos.

“A Volvo é muito mais horizontal e com menos hierarquia”

Para Johanna Minding Kriisa, a transição elétrica da Volvo não se explica apenas pelo produto, pela autonomia ou pela tecnologia. Explica-se também pela forma como a empresa trabalha internamente.

Depois de passar por marcas alemãs e britânicas de referência, a responsável descreve a Volvo como uma organização mais direta, menos rígida e mais colaborativa.

“A minha primeira reflexão é que a Volvo é uma organização muito mais horizontal e com menos hierarquia. Somos mais focados na colaboração, mais rápidos para tomar decisões porque somos muito próximos”, afirma.

Essa proximidade, diz, não é apenas interna. Para a diretora-geral da Volvo Car Sweden, a estrutura da marca permite uma relação mais rápida com o cliente e com o mercado, num setor em que as mudanças tecnológicas, regulatórias e comerciais acontecem a grande velocidade.

“Eu posso deslocar-me facilmente e conversar com um colega ou falar diretamente com alguém que reporta a um diretor. Também estamos mais próximos do cliente e do mercado, o que nos torna mais ágeis para agir conforme as mudanças que ocorrem neste setor”, explica.

A comparação com outras marcas é prudente, mas clara. “Nas outras marcas notei que os processos tendem a ser um pouco mais prolongados e mais rígidos. Para a Volvo trago o desafio de criar ainda mais flexibilidade no planeamento e na execução”, acrescenta.

No fundo, a ambição elétrica da Volvo não depende apenas de novos modelos. Depende também de uma cultura capaz de decidir depressa, ajustar planos e responder a um mercado em transformação acelerada.

O EX60 como pano de fundo

O pano de fundo da entrevista é o arranque da produção do novo Volvo EX60, SUV médio 100% elétrico que a marca começou a fabricar em Torslanda, nos arredores de Gotemburgo. O modelo assume particular importância para a Volvo: é o primeiro automóvel totalmente elétrico concebido, desenvolvido e produzido na Suécia e chega para ocupar um dos segmentos mais relevantes do mercado europeu.

A procura inicial levou a marca a reforçar os volumes de produção para 2026, depois de encomendas acima das previsões em vários mercados europeus. Segundo a Volvo, a fábrica de Torslanda, que produz cerca de seis mil automóveis por semana e emprega 6500 pessoas, foi alvo de um investimento de cerca de 10 mil milhões de coroas suecas, aproximadamente 930 milhões de euros, para integrar novas capacidades como mega casting, montagem de baterias e renovação das linhas de pintura e montagem final.

Em Portugal, as encomendas do EX60 estão abertas desde 21 de janeiro de 2026, com primeiras entregas previstas para o verão nas versões P6 e P10. O modelo anuncia até 810 quilómetros de autonomia, carregamento dos 10% aos 80% em 16 minutos e preços a partir de 67.906 euros com IVA, ou 50.650 euros sem IVA para o mercado empresarial.

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