As autoridades norte-americanas estão a investigar se um sentimento anti-Trump esteve na origem do tiroteio ocorrido durante o Jantar de Correspondentes da Casa Branca, em Washington DC, evento que reunia o Presidente dos Estados Unidos e altos membros da administração. De acordo com responsáveis federais, o suspeito terá procurado atingir Donald Trump e outros dirigentes governamentais presentes na cerimónia.
O procurador-geral interino dos EUA, Todd Blanche, afirmou numa entrevista televisiva que, numa fase preliminar da investigação, “acreditamos que ele estava a visar membros da administração”. O suspeito, identificado como Cole Tomas Allen, de 31 anos, natural de Torrance, Califórnia, encontra-se sob custódia e deverá comparecer em tribunal federal. Enfrenta acusações de agressão a um agente federal, disparo de arma de fogo e tentativa de homicídio de um agente federal, podendo ainda vir a ser acusado de tentativa de assassínio do Presidente, dependendo do desfecho das investigações.
Manifesto com lista de alvos
Os investigadores estão a analisar um manifesto alegadamente redigido pelo suspeito e divulgado na íntegra pelo New York Post, cuja autenticidade foi confirmada por uma fonte oficial conhecedora do processo. No documento, Allen terá elaborado uma lista hierarquizada de alvos, colocando responsáveis da administração Trump no topo das prioridades.
Segundo responsáveis da Casa Branca citados pela Associated Press, cerca de dez minutos antes dos disparos o suspeito enviou aos familiares textos com as suas queixas contra a administração. Um dos familiares — identificado como irmão do suspeito — contactou posteriormente a polícia de New London, no Connecticut. A polícia local confirmou ter recebido a comunicação às 22h49, aproximadamente duas horas após o incidente, e informou de imediato as autoridades federais.
No manifesto, o suspeito identifica-se como “Friendly Federal Assassin” e apresenta uma lista de exceções e prioridades. Refere que os agentes do Serviço Secreto seriam alvo apenas “se necessário”, enquanto a segurança do hotel, a polícia do Capitólio e a Guarda Nacional seriam classificados como “não alvos se possível (a menos que atirem contra mim)”. Funcionários e convidados do hotel não constavam como alvos. O documento começa com pedidos de desculpa a pessoas próximas e inclui críticas severas à administração, sem mencionar diretamente Donald Trump pelo nome.
“Sou cidadão dos Estados Unidos da América. O que os meus representantes fazem reflete-se em mim. E já não estou disposto a permitir que um pedófilo, violador e traidor manche as minhas mãos com os seus crimes”, lê-se numa das passagens. Noutra, afirma: “Virar a outra face quando outra pessoa é oprimida não é comportamento cristão; é cumplicidade com os crimes do opressor.” O suspeito acrescenta ainda: “Sinto raiva ao pensar em tudo o que esta administração fez.”
Ataque no hotel e evacuação de líderes
De acordo com as autoridades, Allen disparou uma espingarda contra um agente do Serviço Secreto num ponto de controlo de segurança no hotel Washington Hilton, onde decorria o jantar. O agente atingido não sofreu ferimentos graves, uma vez que a bala foi travada pelo colete de proteção, segundo confirmou o Presidente.
Durante o incidente, Donald Trump, a primeira-dama Melania Trump, o vice-presidente JD Vance e vários membros do Governo foram rapidamente retirados do local. Numa entrevista ao programa 60 Minutes, Trump descreveu o atacante como “uma pessoa doente” e criticou a jornalista Norah O’Donnell por ter lido excertos do manifesto em direto, classificando-a como “uma vergonha”. Questionado sobre o seu estado de espírito durante os disparos, afirmou: “Não estava preocupado. Compreendo a vida. Vivemos num mundo louco.”
As autoridades federais indicam que Allen terá viajado de comboio da Califórnia até Chicago e depois para Washington, tendo-se registado como hóspede no hotel dias antes do jantar. Agentes federais entrevistaram também a irmã do suspeito, no Maryland, que revelou que o irmão comprara legalmente várias armas numa loja da Califórnia e as guardara na casa dos pais, em Torrance, sem o conhecimento destes.












