O tradicional desfile militar de 9 de maio na Praça Vermelha, em Moscovo (uma das cerimónias mais emblemáticas do calendário político e militar russo), vai decorrer este ano com uma dimensão substancialmente reduzida, numa decisão que reflete as crescentes dificuldades enfrentadas pela Rússia no conflito na Ucrânia. Ao contrário do que tem sido habitual, o evento não contará com colunas de tanques, sistemas de artilharia ou plataformas de mísseis, elementos que durante décadas simbolizaram o poderio militar de Moscovo.
Num comunicado oficial, o Ministério da Defesa russo justificou a alteração do formato com a atual conjuntura operacional, afirmando que, “devido à atual situação operacional, os alunos das escolas militares Suvorov e Nakhimov, dos corpos de cadetes, bem como a coluna de equipamento militar, não participarão este ano no desfile militar”. A declaração confirma uma mudança profunda numa celebração que, historicamente, tem sido utilizada pelo Kremlin como demonstração de força interna e externa.
A decisão surge num momento particularmente sensível para a liderança de Vladimir Putin, com as forças russas a enfrentarem dificuldades persistentes no terreno, sobretudo no leste da Ucrânia, onde as linhas defensivas ucranianas continuam a representar um obstáculo significativo às ofensivas de Moscovo. Ao mesmo tempo, ataques regulares com drones ucranianos contra infraestruturas estratégicas em território russo expuseram vulnerabilidades na profundidade defensiva do país, abalando a perceção de segurança interna promovida pelo Kremlin desde o início da invasão em grande escala, em 2022.
Além da pressão militar, Moscovo enfrenta também desafios na reposição de efetivos. O prolongamento da guerra, particularmente intenso na região do Donbass, tem implicado elevadas baixas humanas e aumentado a pressão sobre a capacidade russa de reforçar as suas fileiras, numa campanha militar que se transformou num conflito prolongado de desgaste.
Um símbolo central da narrativa política de Putin
O 9 de maio, data em que a antiga União Soviética assinalou a vitória sobre a Alemanha nazi na Segunda Guerra Mundial, tornou-se, sob Vladimir Putin, um dos pilares centrais da narrativa ideológica do Estado russo. Mais do que uma celebração histórica, a efeméride passou a funcionar como um poderoso instrumento político, associado à ideia de grandeza nacional, sacrifício patriótico e poder militar.
Nos últimos anos, o Kremlin reforçou esse simbolismo, integrando-o diretamente no discurso que sustentou a invasão da Ucrânia. Moscovo tem procurado justificar a ofensiva militar com o argumento de que combate uma alegada presença de nazismo no Estado ucraniano, uma narrativa rejeitada por Kiev e amplamente contestada no plano internacional.
Neste contexto, o desfile da Praça Vermelha assumiu uma dimensão ainda mais relevante como montra do arsenal russo. Em edições anteriores, o evento incluiu extensas colunas de tropas, dezenas de tanques, sistemas de artilharia pesada, defesa antiaérea, armamento estratégico com capacidade nuclear e demonstrações de aviação militar, compondo uma encenação cuidadosamente desenhada para projetar poder.
A edição deste ano, contudo, será marcadamente diferente.
Veteranos da guerra substituem blindados e mísseis
Sem a habitual exibição de equipamento pesado, o desfile contará com uma composição mais limitada, incluindo veteranos da guerra na Ucrânia, alguns estudantes militares, unidades de fuzileiros navais e uma demonstração aérea militar.
A reformulação representa uma alteração simbólica importante. Ao colocar combatentes da atual guerra em destaque, o Kremlin procura manter a ligação entre o passado soviético e a campanha militar contemporânea, mas fá-lo sem a exuberância material que tradicionalmente acompanhava o evento.
A ausência de blindados, artilharia e mísseis da Praça Vermelha poderá também ser interpretada como reflexo das exigências logísticas impostas por mais de quatro anos de conflito, num momento em que a Rússia continua a mobilizar recursos significativos para sustentar operações no campo de batalha.
O peso das perdas militares
Embora a informação independente sobre a realidade no terreno continue limitada, Kiev atualiza regularmente as suas estimativas sobre as perdas russas desde o início da invasão.
Segundo os dados divulgados pelas autoridades ucranianas esta quarta-feira, a Rússia terá já perdido mais de um milhão de militares entre mortos e feridos, além de mais de 11 mil tanques, 24.490 veículos blindados, 40 mil sistemas de artilharia, mais de 1.300 sistemas antiaéreos, 435 aviões de combate e 350 helicópteros desde 2022.
Estes números não puderam ser verificados de forma independente.
Ainda assim, análises independentes de fontes abertas apontam igualmente para perdas materiais muito elevadas. O grupo neerlandês de investigação militar Oryx, especializado na compilação de perdas confirmadas visualmente através de imagens e vídeos, indicava, a 1 de abril, que a Rússia tinha perdido mais de 24.487 peças de equipamento militar de vários tipos no conflito.
Um desfile menor com forte carga política
Mesmo reduzido, o desfile de 9 de maio continuará a ter enorme peso simbólico para o Kremlin. No entanto, a retirada dos tanques, da artilharia e dos sistemas de mísseis do coração de Moscovo constitui uma imagem poderosa de mudança.
Num país onde a exibição de força militar sempre ocupou um lugar central na projeção de poder do Estado, um desfile mais contido pode ser lido como sinal das pressões acumuladas de uma guerra longa, dispendiosa e sem resolução rápida à vista.




