A cibersegurança está a deixar de ser um tema exclusivamente tecnológico para se afirmar como um fator determinante de competitividade, confiança e crescimento económico.
A conclusão é do relatório Cybersecurity Considerations 2026, da KPMG, que reúne contributos de mais de 20 especialistas globais e análise de múltiplos estudos internacionais.
O documento sublinha que os riscos digitais começam muito antes de qualquer ataque visível, com vulnerabilidades a funcionarem como principal porta de entrada para ciberataques cada vez mais sofisticados. Neste contexto, a antecipação e a integração da segurança nas operações são apontadas como fatores críticos para a resiliência das organizações.
De acordo com o relatório, 79% dos líderes empresariais globais identificam o cibercrime e a insegurança digital como a maior ameaça à prosperidade das empresas, superando a pressão regulatória (69%) e os conflitos geopolíticos (57%).
A inteligência artificial surge como o principal vetor de transformação do ciberespaço. Se, por um lado, está a ser usada por organizações para deteção em tempo real e resposta mais rápida a incidentes, por outro está a ser explorada por atacantes para escalar e automatizar ciberataques.
O estudo indica que 92% dos executivos do setor tecnológico consideram que a gestão de agentes autónomos de IA será uma competência essencial nos próximos cinco anos. Ainda assim, mais de metade da população mundial (54%) declara desconfiar da utilização da IA, reforçando a necessidade de modelos robustos de governação e segurança.
Um dos pontos críticos identificados é o crescimento acelerado de identidades não humanas — como contas de serviço, máquinas, aplicações e agentes de IA — que já ultrapassam largamente o número de utilizadores humanos nas organizações.
Segundo a KPMG, 59% das empresas admitem ter sofrido, no último ano, violações de segurança causadas por terceiros, muitas vezes explorando credenciais de sistemas com permissões excessivas. O relatório alerta que a próxima grande falha de segurança poderá não resultar de erro humano, mas sim de sistemas automatizados sem controlo adequado.
A crescente fragmentação geopolítica e o reforço da regulação estão a obrigar empresas e entidades públicas a reverem arquiteturas tecnológicas, cadeias de fornecimento e modelos de gestão de dados.
Na União Europeia, diretivas como NIS2, DORA e CER estão a deslocar o foco da proteção da informação para a resiliência operacional, exigindo que as organizações demonstrem capacidade de resistir, responder e recuperar de incidentes cibernéticos, sobretudo em setores críticos como energia, banca, saúde e telecomunicações.
Perante este cenário, o papel do Chief Information Security Officer (CISO) está a evoluir para uma função mais estratégica, com maior proximidade à administração. O responsável pela cibersegurança passa a ser visto não apenas como guardião da proteção, mas também como facilitador da inovação digital segura.
“A confiança digital é hoje um diferencial competitivo. À medida que a IA amplia capacidades – tanto de atacantes como de defensores – é essencial gerir o risco associado a identidades não humanas em toda a cadeia de valor. Segurança e compliance não têm de ser um travão à inovação, pelo contrário, podem ser um catalisador já que garantem resiliência digital”, refere Sérgio Martins, Cybersecurity Partner da KPMG em Portugal.
O relatório alerta ainda para a crescente exposição associada à dependência de fornecedores de cloud, software e serviços digitais, transformando a supply chain numa extensão direta do risco cibernético.
A resiliência da cadeia de abastecimento é já apontada como o principal fator de decisão empresarial no curto prazo, acima do custo ou da eficiência. Ainda assim, 45% das organizações admitem que o risco regulatório associado a terceiros aumentou significativamente, pressionando os modelos tradicionais de auditoria e acelerando a transição para monitorização contínua baseada no risco.













