“Se fizer a paz, perde o poder e acaba pendurado num poste”: inimigo de Putin explica por que a guerra não vai terminar

Browder, que chegou a gerir o maior fundo de investimento estrangeiro na Rússia, sustenta que a guerra é sobretudo um instrumento de sobrevivência política

Francisco Laranjeira

Vladimir Putin não pode permitir-se acabar com a guerra na Ucrânia porque uma paz que exponha o custo humano e económico da invasão poderá provocar a sua queda, defende Bill Browder, um dos adversários pessoais mais conhecidos do presidente russo no Ocidente.

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“Se fizer um acordo de paz, perde o poder. Se perder o poder, acaba pendurado num poste de iluminação”, afirmou o empresário e ativista anticorrupção, numa entrevista ao podcast World of Trouble, do ‘The Independent’.

Browder, que chegou a gerir o maior fundo de investimento estrangeiro na Rússia, sustenta que a guerra é sobretudo um instrumento de sobrevivência política. Na sua leitura, Putin precisa de manter um inimigo externo para impedir que a população russa concentre a revolta na corrupção, na degradação das condições de vida e no dinheiro retirado ao Estado.

“Um bilião de dólares foi roubado por Putin e pelas mil pessoas à sua volta ao Estado russo”, acusou. O montante corresponde a aproximadamente 875 mil milhões de euros.

Para Browder, esse dinheiro deveria ter financiado escolas, hospitais, estradas e serviços públicos, mas acabou aplicado em aviões privados, iates e propriedades de luxo no sul de França. Putin terá percebido, ao longo do tempo, que o enriquecimento da elite poderia alimentar uma contestação suficientemente forte para chegar ao Kremlin.

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O presidente russo consegue eliminar, prender ou expulsar adversários políticos de forma individual, mas não teria capacidade para conter uma mobilização popular em grande escala, argumenta o antigo investidor. “Se um milhão de pessoas marcharem sobre a Praça Vermelha, ele está acabado. E ele sabe disso.”

É nesse receio que Browder encontra a origem da invasão. Um dirigente “com medo do próprio povo”, afirmou ao ‘The Independent’, cria um inimigo estrangeiro e inicia uma guerra para unir o país em torno de uma ameaça exterior e justificar a repressão interna.

Um acordo sobre a Ucrânia tornaria mais difícil esconder o preço pago pela Rússia. O conflito já terá provocado mais de 1,2 milhões de baixas entre as forças russas, segundo a estimativa citada pelo jornal britânico, e qualquer compromisso obrigaria o Kremlin a explicar por que razão tantas vidas foram sacrificadas sem uma vitória clara.

“É por isso que esta guerra não vai acabar”, conclui Browder. O empresário não acredita que Putin venha alguma vez a assinar um verdadeiro tratado de paz, mesmo que a economia russa se deteriore e a infraestrutura energética continue a ser atingida por ataques ucranianos.

A previsão é de um conflito progressivamente menos intenso, mas formalmente inacabado. O melhor cenário possível, na sua perspetiva, será a Ucrânia impor custos tão elevados à Rússia que a guerra acabe transformada num confronto congelado, com uma frente praticamente silenciosa, semelhante à separação entre as duas Coreias.

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“Não acredito que alguma vez veremos Putin assinar um tratado de paz”, afirmou. “Consigo imaginar que o conflito se reduza a um nível baixo, talvez até com uma frente totalmente parada, como aconteceu entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul.”

Nesse cenário, Browder antecipa futuros muito diferentes para os dois países. A Ucrânia poderia tornar-se uma economia democrática, dinâmica e próspera, enquanto a Rússia ficaria cada vez mais isolada, autoritária e empobrecida.

O ativista considera ainda que a experiência militar adquirida pela Ucrânia poderá torná-la indispensável para a defesa europeia. Perante um eventual afastamento dos Estados Unidos da NATO, os países europeus poderão acabar por pedir a Kiev que participe na sua segurança em troca de apoio financeiro à reconstrução do país.

A convicção de Browder assenta também numa disputa pessoal com o Kremlin que dura há quase duas décadas. O seu advogado, Sergei Magnitsky, morreu numa prisão russa em 2009 depois de denunciar uma fraude fiscal envolvendo responsáveis públicos. O caso deu origem às leis Magnitsky, usadas por vários países para sancionar individualmente responsáveis por corrupção e violações dos direitos humanos.

Depois de anos a estudar e enfrentar o regime russo, Browder rejeita a ideia de que Putin venha a escolher a solução mais racional. “Todo o seu modo de atuação consiste em aumentar a escalada, aconteça o que acontecer.” É precisamente por isso, conclui, que o fim oficial da guerra poderá permanecer fora de alcance enquanto Putin continuar no Kremlin.

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