Se os europeus querem proteção atómica têm de comprar “made in France”, defende Le Pen

A líder da União Nacional (RN, na sigla em francês), Marine Le Pen, afirmou que os aliados europeus que pretendam beneficiar da proteção oferecida pela dissuasão nuclear francesa deverão adquirir equipamento militar francês como contrapartida.

Pedro Zagacho Gonçalves

A líder da União Nacional (RN, na sigla em francês), Marine Le Pen, afirmou que os aliados europeus que pretendam beneficiar da proteção oferecida pela dissuasão nuclear francesa deverão adquirir equipamento militar francês como contrapartida. A posição surge na sequência do anúncio do Presidente francês, Emmanuel Macron, de alterações significativas à doutrina nuclear do país.

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Dois dias após o chefe de Estado ter revelado a possibilidade de um destacamento temporário de aviões de combate com capacidade nuclear para países aliados europeus, Le Pen declarou, em entrevista à rádio RTL, que “não via o interesse” de tal destacamento.

Ainda assim, a dirigente da União Nacional admitiu a hipótese de uma implantação geográfica de meios nucleares franceses, mas deixou claro que tal decisão não poderia ser unilateral nem gratuita. “Direi aos nossos aliados: OK à implantação geográfica, mas então deve haver algo em troca”, afirmou, especificando que essa contrapartida deverá passar pela “compra de equipamento francês”.

Críticas à aquisição de armamento norte-americano
Na mesma entrevista, Le Pen apontou aquilo que considera ser uma incoerência estratégica. “Ir colocar as nossas armas nucleares em países que estão a comprar F-35 americanos… há aí uma grande contradição”, sustentou, numa referência direta aos caças produzidos pela indústria de defesa dos Estados Unidos.

As declarações inserem-se num contexto de reforço da cooperação nuclear anunciado por Macron. Entre as medidas apresentadas pelo Presidente francês estão a realização de exercícios nucleares conjuntos com parceiros europeus e a possibilidade de destacar temporariamente aeronaves com capacidade nuclear para o território de aliados.

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Apesar dessa abertura, Macron sublinhou que o controlo final sobre qualquer eventual lançamento de armas nucleares continuará exclusivamente nas mãos do Presidente da República Francesa. Também a definição dos chamados “interesses vitais” do país — conceito central da doutrina nuclear francesa — permanecerá uma prerrogativa exclusiva do chefe de Estado.

Soberania nuclear no centro do debate político
Nos últimos meses, a União Nacional tem acusado Macron de ponderar uma cedência de soberania sobre o arsenal nuclear francês, na sequência da sua abertura a uma cooperação estratégica mais aprofundada com parceiros europeus na área da dissuasão.

A intervenção do Presidente procurou contrariar essas críticas, reafirmando que, apesar do reforço da coordenação com aliados, a decisão última em matéria nuclear não será partilhada.

O tema assume particular relevância no plano interno, numa altura em que a União Nacional lidera as sondagens para as eleições presidenciais de 2027. Um eventual triunfo da extrema-direita colocaria sob a sua responsabilidade um dos dois únicos arsenais nucleares da Europa.

Eleições de 2027 e incerteza judicial
Marine Le Pen é a candidata oficial do partido às presidenciais. Contudo, uma decisão pendente em sede de recurso no processo em que foi julgada por alegada utilização indevida de fundos do Parlamento Europeu poderá obrigá-la a ceder a candidatura ao presidente do partido, Jordan Bardella.

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Após o discurso de Macron, Le Pen e Bardella divulgaram um comunicado conjunto no qual delinearam a abordagem da União Nacional em matéria de armas nucleares, reafirmando a centralidade da soberania nacional e rejeitando qualquer diluição do controlo francês sobre o seu arsenal estratégico.

As declarações da líder da União Nacional introduzem assim uma dimensão comercial explícita no debate sobre a dissuasão nuclear europeia, vinculando a proteção estratégica francesa a escolhas industriais e de defesa por parte dos parceiros do continente.

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