“Se a Europa não se afirmar, fica para trás”: especialista explica como Trump está a redesenhar o mapa do poder global com a ‘Grande América do Norte’

Dos gelos da Gronelândia ao lítio da América Latina, os Estados Unidos estão a redesenhar silenciosamente o mapa do poder global.

Francisco Laranjeira

Dos gelos da Gronelândia ao lítio da América Latina, os Estados Unidos estão a redesenhar silenciosamente o mapa do poder global. O que parece, à superfície, uma sucessão de polémicas impulsionadas por Donald Trump poderá esconder uma estratégia fria e calculada: garantir controlo sobre rotas marítimas, recursos críticos e fronteiras decisivas do futuro.

A ideia já circula em meios ligados à administração americana sob diferentes nomes, entre eles “Grande América do Norte” ou, informalmente, “Doutrina Donroe”, numa referência atualizada à antiga Doutrina Monroe. Em traços gerais, significa tratar todo o espaço entre o Ártico e a linha do Equador como zona prioritária de segurança e influência dos Estados Unidos.

Para Ana Maria Evans, especialista em geopolítica, em entrevista exclusiva à ‘Executive Digest’, o maior erro europeu tem sido olhar apenas para Trump e ignorar a estratégia de fundo.

“As pessoas estão tão entretidas a dizer mal do Trump que às vezes se perdem nesse registo e não vão muito mais para além”, afirma. “Temos de olhar para além da pessoa e perceber qual é a grande estratégia que está por detrás.”

Não é conquista territorial. É poder estratégico

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Segundo a especialista, esta nova fase americana não deve ser lida como imperialismo clássico, mas como reposicionamento geoestratégico.

“Eu não vejo isto como uma expansão territorial. Vejo isto como uma expansão estratégica, que é uma coisa diferente.”

Na prática, isso significa reforçar presença militar, garantir acesso a infraestruturas críticas, vigiar corredores marítimos, proteger cadeias de abastecimento e impedir rivais de ganhar posições sensíveis.

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“A linha da frente da grande competição geopolítica está a mudar”, explica. “Expande-se desde o Ártico, nomeadamente na Gronelândia e no Alasca, até à ponta sul da América Latina.”

Porque mudou o mapa do mundo

A professora universitária identifica três fatores que explicam esta mudança: alterações climáticas, revolução tecnológica e corrida global à energia.

“Houve alterações climáticas tão importantes, alterações tecnológicas ligadas à transição energética e alterações geopolíticas em pontos-chave do globo.”

O degelo no Ártico abre novas passagens marítimas antes inacessíveis. Ao mesmo tempo, cresce a procura por minerais essenciais para baterias, semicondutores, armamento, painéis solares e turbinas eólicas.

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“Temos uma corrida cada vez mais acelerada ao domínio das cadeias de fornecimento de matérias críticas.”

Porque a Gronelândia passou a ser central

Neste contexto, a Gronelândia deixa de parecer uma obsessão excêntrica de Trump e transforma-se numa peça estratégica.

“Presume-se que debaixo do gelo da Gronelândia existam materiais críticos”, refere. “Mas há também a questão da monitorização espacial, dos satélites militares e da vigilância de mísseis intercontinentais.”

A posição geográfica da ilha, entre América, Europa e Rússia, aumenta ainda mais o seu valor militar e logístico.

América Latina: o outro grande campo de batalha

Se a Gronelândia representa o norte da nova linha da frente, a América Latina representa o sul.

Na leitura da também comentadora televisiva, Washington percebeu que a região será decisiva para energia e indústria.

“Na América Latina temos o triângulo do lítio, temos cobre, temos minérios absolutamente vitais para as novas energias e para a indústria tecnológica.”

Argentina, Chile, Bolívia e outros países ganham assim novo peso estratégico numa corrida global por matérias-primas críticas.

A China está no centro de tudo

Para Ana Maria Evans, a verdadeira explicação desta doutrina está na rivalidade com Pequim.

“O que se pretende é impedir que a China e a Rússia coloquem infraestruturas em pontos-chave demasiado importantes para os Estados Unidos.”

Segundo a especialista, a China usou durante anos uma estratégia paciente e pragmática, baseada em investimento, portos, minas e financiamento.

“A China utilizou uma perspetiva transacional: comprou o seu interesse em muitos países através de empréstimos e infraestruturas.”

Em algumas matérias críticas, acrescenta, “tem um controlo quase absoluto da cadeia de fornecimento”.

Trump inventou isto? Não necessariamente

Para a comentadora, Trump poderá estar mais a acelerar uma necessidade americana do que a criar algo totalmente novo.

“A narrativa do Presidente Trump, como é muito errática e sem filtro, acaba por assumir de uma forma não estratégica aquilo que é uma estratégia imperativa.”

Ou seja, o estilo pode ser caótico, mas o objetivo seria claro: conter a China, travar avanços russos e reposicionar os EUA para uma nova era de competição global.

“Os Estados Unidos têm mesmo de alargar as suas fronteiras estratégicas.”

E a Europa?

É aqui que surge o aviso mais duro.

“Nós somos um bloco comercial, mas não somos um bloco estratégico.”

Na leitura de Ana Maria Evans, a Europa continua forte no comércio, regulação e mercado interno, mas sem política externa unificada, defesa comum robusta ou capacidade de projeção comparável às grandes potências.

“Os Estados Unidos não estão a dialogar com a Europa. Estão a dialogar com blocos dentro da Europa.”

Essa fragmentação enfraquece o continente num momento em que o mundo volta a organizar-se em esferas de influência.

“A Europa tem de definir muito bem quais são os seus objetivos estratégicos a curto, médio e longo prazo e tem de estar unida na prossecução desses objetivos.”

O que significa para Portugal

Portugal não está fora deste tabuleiro. A posição atlântica, os portos, a ligação aos mercados externos e a integração europeia mantêm relevância estratégica.

A especialista nota ainda que Portugal está hoje menos dependente da energia do Médio Oriente do que outros países, graças à diversificação de fontes.

Mas isso não elimina riscos. Disputas por rotas marítimas, energia, comércio global ou cadeias logísticas acabam sempre por chegar à economia europeia.

O fim do multilateralismo?

Para Ana Maria Evans, o multilateralismo já vinha a perder eficácia muito antes do regresso de Trump.

“O multilateralismo deixou de ter eficácia há bastante tempo.”

Na sua leitura, Trump apenas assumiu de forma explícita uma lógica transacional que outros, nomeadamente a China, já praticavam há anos.

“Aquilo que o Presidente Trump está a fazer é assumir a mesma perspetiva transacional que a China vem assumindo há anos.”

O aviso final

Enquanto Washington reposiciona fronteiras e Pequim compra influência, a Europa continua sem decidir se quer afirmar-se como poder estratégico.

“Se a Europa não se afirmar, fica para trás.”

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