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Lisboa, 18 abr 2026 (Lusa) – O representante da UE para o Sahel e a investigadora Victoire Girard consideraram, em entrevista à Lusa, que a região é subestimada na agenda europeia, apesar da sua importância estratégica, o que pode agravar o cenário.
O representante especial da União Europeia (UE) para a região do Sahel, João Gomes Cravinho, explicou, numa entrevista feita por telefone, que conflitos como a invasão da Ucrânia por parte da Rússia, o ataque do Hamas a Israel a 07 de outubro – que fez recrudescer o conflito no Médio Oriente – e, mais recentemente, o ataque conjunto dos Estados Unidos e Israel ao Irão fazem com que os governantes europeus não tenham tempo para olhar para outras regiões.
O ex-ministro da Defesa português contextualizou que, devido ao seu cargo atual, visita muitos Estados-membros para falar com os ministros europeus sobre o tema, o que, refletiu, é um sinal de interesse pela região. No entanto, dizem-lhe sempre que não há tempo para tratar destas questões.
“Eu tenho essa experiência paradoxal de falar com ministros que me dizem sempre ‘isto é muito importante’ e, ao mesmo tempo, constatar que não há tempo para tratar do assunto”, declarou.
Também a investigadora do centro de investigação NOVÁFRICA Victoire Girad referiu, em respostas enviadas à Lusa por escrito, que o “Sahel permanece num plano relativamente baixo nas agendas europeias”, mas salvaguardou que, “em grande medida” a violência tem sido contida regionalmente”, ao contrário de outras crises que têm impactado diretamente a Europa, como as citadas anteriormente.
O representante da UE alertou que, “ao não se tratar hoje da situação no Sahel, está-se a alimentar ou a aumentar a possibilidade de se ter uma conflagração maior daqui a um ou dois ou três anos”.
A investigadora acrescentou que a região é frequentemente percecionada como “politicamente distante e complexa de narrar”, apesar da proximidade geográfica, nomeadamente com Portugal.
Sobre essa questão, João Gomes Cravinho salientou, em sintonia: “[esses países]são vizinhos dos nossos vizinhos”.
Ambos os entrevistados pela Lusa indicaram que, apesar da consciência estratégica existente em Bruxelas – e na maioria dos Estados-membros – persistem dificuldades na definição de uma resposta europeia eficaz, num contexto africano marcado por instabilidade política e mudanças geopolíticas, particularmente nas juntas militares do Burkina Faso, Mali e Níger, onde se desenvolveu um sentimento anti-ex-potência colonial (França).
Por outro lado, a região tem estado sob particular interesse russo, que detém no Sahel grupos paramilitares, especialmente o antigo Grupo Wagner, hoje denominado Africa Corps, o que, segundo o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros português, dificulta as relações diplomáticas.
“Não é fácil trabalhar com eles [juntas militares no Sahel] também porque optaram por uma parceria privilegiada com a Rússia, particularmente no caso do Mali. No entanto, é evidente, ao fim de vários anos, que [os russos] não têm as respostas necessárias, não estão a resolver os problemas, e, aliás, a situação securitária é pior hoje do que era quando os russos lá chegaram”, criticou.
No entanto, para o diplomata, essa decisão de aproximação à Rússia é soberana e deve ser respeitada.
De acordo com o especialista em relações internacionais, a Rússia tem dois interesses específicos no Sahel: os recursos naturais, nomeadamente ouro, e a possível pressão ao espaço europeu.
“A Rússia olha para a região sul do Mediterrâneo como uma região a partir da qual podem explorar a vulnerabilidade europeia” e podem (…) por exemplo, “utilizar fluxos migratórios” regionais para pressionar a Europa, como já fizeram no passado, recordou.
O Sahel está num estado de instabilidade crescente desde a rebelião Tuaregue de 2012 no norte do Mali, que desencadeou o colapso do controlo estatal em grandes partes do país e abriu caminho para grupos extremistas islâmicos ligados à Al-Qaeda e, mais tarde, ao Estado Islâmico, contextualizou a investigadora do NOVÁFRICA.
“Desde então, a violência espalhou-se pela chamada ‘zona da tríplice fronteira’ (Mali–Burkina Faso–Níger) e arredores, sendo agora uma das zonas de conflito mais ativas a nível global”, indicou a economista.
O Sahel é uma zona que abrange, total ou parcialmente, vários países: Argélia, Burkina Faso, Camarões, Chade, Eritreia, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal e Sudão.












