Tem sido uma ‘fixação’ de Donald Trump: ameaçar com tarifas todo e qualquer país que se oponha aos seu planos. No entanto, há duas coisas a reter: sabe-se quando começa uma guerra comercial, mas não quando termina e, por último, qualquer imposição de tarifas pode ter consequências desconhecidas e inesperadas. E apesar de haver vários exemplos ao longo da história, não há caso mais relevante recentemente do que aquele que ficou conhecido como Imposto do Frango ou Guerra do Frango.
Segundo recordou a publicação ‘El Economista’, é preciso recuar a 1960 para entender as origens desta crise. Após a II Guerra Mundial, os EUA viveram um período de prosperidade, podendo investir em inovação e desenvolvimento, sendo que um dos principais beneficiários deste processo foi a indústria avícola. A partir de 1950, desenvolveram métodos de criação que permitiram um crescimento de produção e de forma mais eficiente – baseado no Arkansas, aumentou de tal forma a produção que, consequentemente, reduziu tanto os preços que transformou um produto considerado de luxo num alimento básico na dieta americana.
Ao mesmo tempo, a Europa recuperava da guerra que devastou o Velho Continente – o frango era, nesta altura, um produto exclusivo, reservado para dias especiais, que podia ser consumido com sorte uma vez por semana. O excedente de produção nos EUA era tão alto que começaram a exportá-lo para a Europa. No início da década de 1960, o consumo de frango disparou. Os agricultores americanos conseguiram monopolizar o mercado europeu, sendo que metade das vendas eram importadas – uma situação que, claro, provocou reclamações dos produtores locais.
Alguns países, por conta própria, começaram a atacar os produtores americanos e tomar algumas medidas protecionistas. Os holandeses acusaram os americanos de vender com prejuízo e de concorrência desleal. Em França garantia-se que as quintas americanas utilizavam hormonas que poderiam afetar a virilidade masculina, já os alemães alegaram que as galinhas eram engordadas artificialmente com arsénico.
Esta crise do frango, em plena Guerra Fria, provocou um conflito entre os EUA e a recente Comunidade Económica Europeia, embrião da atual União Europeia. O assunto era um grande preocupação para todos os líderes políticos e abriram-se negociações sobre políticas tarifárias. Mas, uma guerra comercial não começa da noite para o dia. Primeiro há uma fase de negociação, de pressão entre os atores afetados e até de ameaças quando as posições não se unem. Mas a pressão das organizações agrícolas continuaram a aumentar. Assim, em meados de 1962, os seis Estados-membros do Mercado Comum, instigados por França, tomaram uma decisão drástica: aumentar os impostos sobre as importações de frango.
Essa nova barreira eliminou a vantagem de preço dos avicultores americanos, e suas exportações começaram a diminuir rapidamente: as suas vendas na Europa baixaram 65%, e a receita caiu 25 milhões de dólares. As tensões entre os blocos começaram a aumentar. O senador do Arkansas, James William Fulbright, foi quem mais pressionou o Governo para tentar fazer alguma coisa. A sua postura foi tão beligerante que interrompeu um debate da NATO sobre armas nucleares para protestar contra as sanções ao comércio de frango americano. Na altura, o chanceler alemão Konrad Adenauer explicou que manteve uma correspondência fluida com o presidente americano Kennedy, discutindo Berlim, Laos ou a invasão da Baía dos Porcos, mas que metade das cartas era sobre galinhas.
Esse período de negociação, que durou 18 longos meses, teve vários pontos altos: um membro do Governo da Alemanha Ocidental, à revista ‘Time’, que acompanhou de perto a guerra comercial, disse que “é difícil acreditar que animais tão amigáveis possam causar tantos problemas”.
Após o assassinato de John F. Kennedy, e com Lyndon B. Johnson já no poder, a via diplomática falhou. Finalmente, a 4 de dezembro de 1963, os Estados Unidos impuseram tarifas de 25% sobre uma série de artigos europeus, em resposta às perdas causadas à indústria avícola: amido de batata, conhaque e veículos comerciais leves. Essa medida afetou o conhaque francês, os produtos de batata holandeses e os veículos alemães. Um golpe direto em todos os proponentes do imposto sobre o frango.
Apesar da importância desta medida, na realidade ela não satisfez ninguém. Nem mesmo os europeus, que viram as exportações de alguns dos seus principais produtos afetadas; nem aos criadores americanos, que com essa retaliação não conseguiram recuperar o dinheiro que perderam desde a imposição do imposto sobre o frango.
Nos anos que se seguiram à guerra comercial, as quintas europeias desenvolveram-se a um ritmo semelhante ao alcançado pelas suas contrapartes americanas, o que permitiu que a indústria crescesse e o preço dessa carne caísse, tornando-se a carne mais barata também do Velho Continente. De facto, com a evolução e o crescimento da Comunidade Económica Europeia, não apenas se tornou autossuficiente, mas também se tornou a maior exportadora mundial de frangos.
Com essas medidas, todos presumiram que a crise havia acabado. Nada poderia estar mais longe da verdade.
Ao mesmo tempo em que os produtores de aves do Arkansas levavam os seus protestos para Washington, outro setor passava por uma crise ainda mais urgente: o setor automóvel. Essa poderosa indústria aproveitou a fraqueza do recém-chegado Lyndon B. Johnson, com os sindicatos a ameaçar uma grande greve antes das eleições de 1964 se não fizesse algo para protegê-los. A ameaça era clara: a Volkswagen estava ganhar cada vez mais participação de mercado americano.
As tarifas sobre esse tipo de veículo, que ainda estão em vigor hoje, fizeram com que as importações caíssem: não apenas a Volkswagen, mas também marcas japonesas como Toyota, Datsun, Isuzu e Mazda, que também estavam a ganhar espaço no mercado americano, o que acabou por expulsar todas as empresas rivais, deixando o mercado livre para fabricantes nacionais.
Desde então, as pick-ups fabricadas nos Estados Unidos dominaram as vendas de veículos: não apenas nessa categoria, mas em geral. Durante décadas, foi comum que versões do Ford F ou do Chevy Silverado liderassem o ranking dos veículos mais vendidos. 95% desse tipo de veículo é fabricado por marcas americanas.
Essa tarifa teve consequências muito positivas para o setor, claro. Principalmente quando se trata de emprego. Por um lado, porque permitiu que grandes empresas americanas mantivessem altos volumes de produção e rendimento, o que garantiu empregos. E, por outro lado, porque muitas empresas estrangeiras, para evitar tarifas, estabeleceram as suas próprias unidades de produção nos Estados Unidos.
É tão importante que, apesar de ao longo das décadas terem havido muitas tentativas de eliminar esse imposto sobre a importação de veículos leves, ninguém se atreveu a fazê-lo.
Os efeitos negativos das tarifas
No entanto, há vozes crescentes contra esse imposto sobre o frango, alegando que já ultrapassou a sua vida útil e agora está a causar mais mal do que bem. Por exemplo, entre as consequências negativas dessa política protecionista está o facto de que os consumidores têm menos opções de compra disponíveis, com uma escolha mais limitada, com menos concorrência e os preços disparam. Os fabricantes têm muito mais poder do que os consumidores.
Além disso, esse tipo de oligopólio levou a indústria americana a acomodar-se e a reduzir sua capacidade de inovação. Como se isso não bastasse, também fez com que a indústria tendesse a fabricar veículos maiores e mais pesados para evitar o imposto. Não houve interesse, nem necessidade, de desenvolver veículos que consumam menos ou poluam menos.
Também teve um impacto negativo nas relações comerciais dos EUA, pois tem sido um tópico constante de discussão sempre que os EUA tiveram de negociar com outros países, especialmente com aqueles com uma indústria automóvel significativa.
É fácil encontrar semelhanças entre essa guerra do frango e as ambições tarifárias do novo presidente dos EUA, Donald Trump. E também é fácil ver as possíveis consequências negativas dessas políticas protecionistas. Assim como na indústria automóvel, não se sabe quanto tempo durarão os efeitos das medidas implementadas hoje. Nem se sabe as consequências que pode ter para as indústrias paralelas, para a inovação e o desenvolvimento das empresas afetadas, ou para a concorrência no mercado global.














