A Rússia tem registado nas últimas semanas cortes contínuos no acesso à internet móvel, uma situação que está a dificultar significativamente a mobilidade e o quotidiano dos cidadãos nas principais cidades do país. Apesar do impacto, o Kremlin justifica estas medidas com razões de segurança nacional.
De acordo com o El Español, o apagão começou a ser reportado a 5 de março em alguns subúrbios de Moscovo e rapidamente se estendeu a toda a capital. Como consequência, foram bloqueados diversos sites estrangeiros, aplicações de transporte e entrega, bem como alguns serviços governamentais digitais.
As autoridades russas têm defendido que estas limitações são necessárias para prevenir ataques com drones ucranianos, numa altura em que os incidentes em território russo têm vindo a aumentar.
Segundo o El Español, estas medidas surgem num contexto marcado pela guerra na Ucrânia e também após o assassinato do líder supremo iraniano, ocorrido na sequência de uma operação militar iniciada a 28 de fevereiro pelos Estados Unidos e Israel.
Embora os cortes de internet não sejam uma novidade na Rússia desde o início da invasão da Ucrânia — descrita por Vladimir Putin como uma “operação militar especial” —, anteriormente estavam limitados a zonas estratégicas ou próximas da fronteira. A diferença agora é que afetam diretamente grandes centros urbanos como Moscovo e São Petersburgo.
Além disso, desde os primeiros dias do conflito, o país mantém bloqueadas plataformas da Meta, como Facebook e Instagram, no âmbito de uma estratégia mais ampla de controlo da informação.
Restrições afetam fortemente o dia a dia
A magnitude das limitações tem vindo a levantar preocupações crescentes. Em algumas zonas de Moscovo, o acesso à internet móvel tornou-se praticamente inutilizável, obrigando os cidadãos a recorrer exclusivamente a ligações Wi-Fi.
Os residentes da capital, com cerca de 13 milhões de habitantes, mostram-se resignados perante as dificuldades constantes em deslocar-se pela cidade sem acesso a aplicações móveis ou serviços digitais essenciais.
Apesar de algum humor nas redes sociais, a realidade é que estas falhas estão a ter consequências graves no quotidiano, impedindo tarefas básicas como responder a mensagens, localizar familiares ou gerir condições de saúde.
Um exemplo concreto é o de Svetlana, residente nos arredores de Moscovo, que explicou à CNN que depende de um fluxo constante de dados para monitorizar os níveis de açúcar no sangue do filho de oito anos, Vanya, que sofre de diabetes. Sem acesso à internet, enfrenta dificuldades sérias em acompanhar o estado de saúde da criança.
Svetlana criticou a situação, considerando que “esta restrição de internet parece tão ilógica”. Acrescentou ainda que, durante anos, as autoridades incentivaram a digitalização dos serviços, pelo que muitos cidadãos não compreendem agora esta decisão.
Putin teme que o assassinem
Segundo informações citadas na notícia, uma das razões por detrás destas medidas poderá estar relacionada com preocupações de segurança ao mais alto nível. O investidor Bill Browder, crítico do Kremlin, afirmou que Vladimir Putin poderá temer ser alvo de um atentado.
Browder referiu que a Rússia estará a limitar o acesso à internet por receio de que tecnologias digitais, como câmaras de vigilância, possam ser utilizadas para localizar e atacar alvos, à semelhança do que alegadamente aconteceu no assassinato do ayatolá Jamenei.
O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, limitou-se a afirmar que as restrições serão mantidas “enquanto forem necessárias medidas adicionais para garantir a segurança dos cidadãos”.
Em paralelo com os cortes, a Rússia tem vindo a reforçar o controlo sobre o espaço digital, testando um modelo de “internet soberana”. Este sistema pretende criar uma rede mais isolada do resto do mundo, com mecanismos que dificultam o uso de VPN e limitam o acesso a conteúdos externos.
A agência reguladora Roskomnadzor está a implementar critérios para definir quais as aplicações autorizadas, num processo considerado pouco transparente. Entre as medidas em análise está a eventual proibição da rede social Telegram, por alegado incumprimento da legislação russa.
Simultaneamente, o Kremlin promove a utilização de uma aplicação estatal de mensagens chamada Max, que pretende concentrar comunicações, pagamentos e acesso a serviços públicos.
Estratégia de cortes seletivos
Especialistas indicam que a Rússia não está a avançar para um apagão total, mas sim para um modelo de interrupções seletivas, localizadas e recorrentes. Este sistema permite degradar o serviço de forma controlada, mantendo alguma funcionalidade enquanto reforça o controlo estatal.
Os setores mais afetados são aqueles que dependem do comércio digital, como serviços de entregas, táxis e comércio eletrónico.
Ainda assim, especialistas alertam que o país tem capacidade para implementar um bloqueio total da internet, cenário que poderá ocorrer em caso de escalada significativa da guerra na Ucrânia ou de uma crise económica profunda.
Estas medidas estão a aumentar a preocupação internacional sobre o reforço da censura e do controlo digital na Rússia.





