A Procuradoria-Geral da Rússia pediu prisão perpétua para 15 dos 19 acusados envolvidos no ataque terrorista ao Crocus City Hall, em Moscovo, um dos atentados mais mortais da história recente do país. As penas foram apresentadas no início das alegações finais do julgamento, quase dois anos depois do ataque que matou 149 pessoas e deixou mais de 600 feridos, sendo que esta quinta-feira vai ser conhecido o veredito da justiça russa.
De acordo com o jornal ‘Kommersant’, citado por vários meios russos, os promotores consideram que os réus tiveram papéis diretos ou indiretos na organização do atentado ocorrido a 22 de março de 2024. Além dos pedidos de prisão perpétua para 15 acusados, o Ministério Público solicita penas entre 20 e 23 anos de prisão para os quatro restantes.
O ataque ocorreu quando quatro homens armados invadiram a sala de espetáculos Crocus City Hall, nos arredores de Moscovo, abrindo fogo contra o público antes de incendiar o edifício. Segundo a agência estatal ‘TASS’, quase metade das vítimas morreu devido à inalação de fumo e monóxido de carbono provocados pelo incêndio.
Os quatro principais suspeitos são cidadãos do Tajiquistão, uma antiga república soviética da Ásia Central. Outros 15 réus estão a ser julgados por alegadamente terem ajudado a planear ou facilitar o ataque, incluindo indivíduos que terão fornecido apoio logístico aos atiradores.
Ataque reivindicado pelo Estado Islâmico
O grupo Estado Islâmico reivindicou a autoria do atentado pouco depois do ataque. Ainda assim, as autoridades russas sustentam que o ataque poderá ter sido executado com apoio externo.
Moscovo tem repetidamente apontado para um eventual envolvimento da Ucrânia, alegação que Kiev rejeitou como “infundada e absurda”.
Segundo o ‘Kommersant’, entre os acusados encontram-se um empresário que terá alojado os atacantes e três familiares — um pai e dois filhos — acusados de fornecer o veículo utilizado pelos autores do atentado para chegar à sala de espetáculos na noite do ataque.
A advogada Lyudmila Ayvar, que representa 139 vítimas, afirmou ao jornal que as penas pedidas pelos procuradores são “adequadas e proporcionais à gravidade dos crimes”. O próprio ‘Kommersant’ descreve os pedidos de condenação como alguns dos mais severos apresentados na Rússia moderna.
Telegram entra na investigação
Paralelamente ao julgamento, as autoridades russas estão também a intensificar investigações relacionadas com o ataque.
A imprensa estatal russa noticiou que o Serviço Federal de Segurança (FSB) abriu uma investigação criminal contra Pavel Durov, fundador da aplicação de mensagens Telegram, por alegado “auxílio a atividades terroristas”.
Segundo os jornais ‘Rossiyskaya Gazeta’ e ‘Komsomolskaya Pravda’, citados em relatórios oficiais, os investigadores alegam que o Telegram terá sido utilizado para coordenar o ataque ao Crocus City Hall e outras operações violentas dentro da Rússia.
Dados divulgados pelo FSB indicam que mais de 153 mil crimes terão sido cometidos através da aplicação desde 2022, incluindo cerca de 33 mil casos classificados como terrorismo, sabotagem ou extremismo.
As autoridades acusam ainda Durov de se recusar a fornecer chaves de encriptação ou a remover conteúdos considerados ilegais, apesar de mais de 150 mil pedidos feitos pela agência reguladora ‘Roskomnadzor’.
Pressão crescente sobre o Telegram
A investigação surge num momento em que Moscovo está a aumentar a pressão sobre plataformas digitais estrangeiras.
Segundo relatos da imprensa russa, a ‘Roskomnadzor’ tem vindo a reduzir progressivamente a velocidade e a funcionalidade do Telegram no país, medida que levou a aplicação a tornar-se cada vez mais difícil de utilizar sem recurso a redes privadas virtuais (VPN).
Pavel Durov, que vive no Dubai e possui cidadania francesa e dos Emirados Árabes Unidos, rejeitou as acusações e acusou as autoridades russas de tentarem criar um pretexto para restringir o acesso à plataforma.
Numa publicação nas redes sociais, o empresário afirmou que as restrições fazem parte de uma tentativa de forçar os cidadãos russos a migrarem para uma aplicação estatal, que críticos acusam de ter sido criada para vigilância e censura.














