Rússia: “Motivos da agressão é parcialmente devido ao medo”, aponta analista militar

Andrei Soldatov atribuiu responsabilidades da situação tensa ao presidente russo, Vladimir Putin

Francisco Laranjeira

O principal motivo da ‘agressão’ russa à Ucrânia é, de acordo com um especialista em serviços de segurança, os receios de segurança do presidente da Rússia, Vladimir Putin, a quem acusou deixar os demais responsáveis políticos e militares russos “no escuro”.

“Eles não têm ideia do que está a acontecer, o que é um sinal muito sinistro por si só”, explicou Andrei Soldatov, em declarações à televisão americana ‘Fox News’. “Está muito claro que nem o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros sabe o que está a acontecer. Tudo depende de uma pessoa – embora também haver influência dos militares, que estão a tornar-se cada vez mais poderosos e influentes. E o interessante é que, na sociedade russa, os militares estão a desempenhar um papel enorme, sem precedentes.”

Para o analista, o aumento da presença militar russa nas fronteiras da Ucrânia está intimamente ligado à última aventura militar da Rússia, durante a ocupação da Crimeia em 2014. “A anexação foi muito tranquila graças aos militares, não ao FSB [serviços de segurança da Rússia]. E Putin está obcecado com a ameaça de ‘revoluções coloridas’ desde o início do século. O problema foi que o FSB, a sua principal agência de segurança, não deu uma resposta adequada às ameaças de ‘revoluções coloridas'”, explicou.

As ‘revoluções coloridas’ são, para o Kremlin, as revoltas que aconteceram em diversas ex-repúblicas soviéticas para derrubar Governos muitas vezes pró-Rússia. Soldatov apontou para a resposta militar à revolução ucraniana em 2014 (a ‘Euromaidan’, protestos públicos que exigiam uma maior integração europeia e a renúncia do presidente Viktor Yanukovytch e do seu Governo), que apontou ter sido uma lição, tirando parte do seu território – a preciosa península da Crimeia. Serviu igualmente como um aviso para os demais.

Também o analista militar de Moscovo, Pavel Felgenhauer, culpou a inteligência militar por alimentar o tenso impasse com os Estados Unidos e a NATO sobre a Ucrânia devido à convicção de Putin de que os EUA estão por trás desta crise. Felgenhauer referiu que o medo é tão intenso que citou um relatório recente que a Rússia está a modernizar o seu perímetro para “conter um (potencial) primeiro ataque americano que seria ‘decapitador'”, tendo garantido que há um míssil destinado “a sobrevoar a Rússia enviando sinais e direcionando os silos para lançar os mísseis sobre os Estados Unidos” no caso da liderança militar e política da Rússia desaparecer. É um sistema computorizado automático para conduzir a uma guerra nuclear. “É muito sério”, alertou Felganhauer.

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O analista frisou ainda que, independentemente dos motivos ou do resultado, o caminho que a Rússia embarcou é prejudicial. “Acho que não há nada além de tristeza”, disse Felgenhaeur. “É uma situação muito perigosa, mesmo no melhor cenário possível, não haveria nada de bom para a Rússia. Como nação, porque mesmo o bom cenário é não ir para uma guerra e a situação continuar como uma Guerra Fria tensa. Mas a Guerra Fria para a Rússia não é uma ideia muito boa. A economia russa estagnou nos últimos 10 anos.”

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