A Rússia está a intensificar a repressão contra criadores de conteúdo e jovens que publicam vídeos nas redes sociais, numa altura em que os ataques ucranianos contra refinarias, depósitos de combustível e infraestruturas energéticas russas estão a agravar a escassez de gasolina em várias regiões do país.
Segundo o ‘El Español’, dois casos recentes divulgados pelo meio de oposição russo ‘Ostorozhno Novosti’ mostram uma escalada no comportamento das autoridades. Em ambos, os detidos denunciaram brutalidade policial, ameaças e acusações de terem publicado ou transmitido conteúdos considerados ofensivos para a nação russa. Os visados negam qualquer intenção política.
O contexto é particularmente sensível para o Kremlin. Nas últimas 24 horas, o exército ucraniano confirmou ataques a três refinarias nas regiões russas de Leninegrado, Yaroslavl e Omsk, esta última situada a quase 2.500 quilómetros da fronteira com a Ucrânia. Kiev atacou ainda uma subestação elétrica na Crimeia, provocando cortes no fornecimento de energia a Sebastopol, e um terminal petrolífero.
No fim de semana, o Estado-Maior ucraniano afirmou que a capacidade de refinação de petróleo da Rússia foi reduzida em 43%. A consequência tem sido visível nas filas junto a postos de abastecimento, inicialmente nas regiões fronteiriças com a Ucrânia, mas cada vez mais presentes noutras zonas do país.
A escassez tornou-se tema de piadas nas redes sociais russas. Alguns vídeos ironizam que, perante a falta de combustível, é melhor levar um litro de gasolina do que um ramo de flores para um encontro. Mas o que começou como humor sobre filas e racionamento passou a ser encarado pelas autoridades como mais um foco de contestação potencial.
Streamers e jovens na mira da polícia
Um dos casos relatados envolve Vitali, um ‘streamer’ detido de forma violenta enquanto fazia uma transmissão em direto no centro de Moscovo. De acordo com o relato divulgado pelo ‘Ostorozhno Novosti’, o jovem acenou a polícias dentro de um carro patrulha. O veículo parou e um agente saiu para o agredir.
Vitali e os jovens que estavam com ele foram levados para a esquadra. O ‘streamer’ afirmou ter sido atingido com socos na cara e nas pernas, além de ter sido alvo de insultos e ameaças. Um dos detidos terá sido também atacado com uma arma de choque. “Humilharam-nos, gritaram que éramos idiotas. Ameaçaram rapar-me a cabeça”, relatou.
No mesmo dia, segundo o mesmo meio de comunicação, a polícia realizou uma operação no distrito central de Kitai-Gorod, em Moscovo. Dezenas de jovens, incluindo menores, terão sido detidos de forma arbitrária. Um deles disse ter sido levado apenas por estar a passear pela cidade com um amigo.
Uma testemunha, citada sob anonimato, relatou agressões, humilhações e ameaças contra os detidos. Entre os jovens visados estaria um rapaz com uma suástica tatuada, que terá sido alvo de ameaças sexuais e comentários degradantes por parte dos agentes.
Kitai-Gorod, símbolo da juventude que o Kremlin quer controlar
Kitai-Gorod tornou-se nos últimos anos um dos centros da vida noturna da juventude moscovita mais alternativa e rebelde. Essa visibilidade colocou a zona na mira da cruzada ultraconservadora promovida pelo Kremlin sob o argumento da defesa dos “valores tradicionais”.
Um dos espaços mais conhecidos do bairro, o Club-Club, anunciou o encerramento temporário na semana passada depois da visita da jornalista Ksenia Sobchak, proprietária do ‘Ostorozhno Novosti’. Sobchak é filha de Anatoly Sobchak, antigo presidente da Câmara de São Petersburgo e mentor político de Vladimir Putin no início da sua carreira.
A sua posição dentro da oposição russa continua a ser ambígua. Embora o seu meio de comunicação esteja a documentar denúncias de repressão contra criadores de conteúdo, parte da oposição acusa Sobchak de estar demasiado próxima do Kremlin e de funcionar como figura tolerada pelo sistema.
Passaporte queimado pode dar prisão
O segundo caso citado pelo ‘El Español’ envolve um jovem de Chelyabinsk, nos Montes Urais, detido depois de queimar publicamente o passaporte russo. As autoridades acusam-no de “profanação do emblema nacional da Rússia”, uma vez que o documento continha o brasão oficial do país.
Segundo o ‘Ostorozhno Novosti’, o jovem não queimou o passaporte como protesto político, mas depois de perder uma aposta. Ainda assim, o caso está a ser tratado como crime e pode resultar numa pena de até um ano de prisão.
A repressão surge num momento em que a guerra se faz sentir de forma cada vez mais concreta dentro da Rússia. Os ataques ucranianos a refinarias e depósitos de combustível não têm apenas impacto militar ou económico: alimentam escassez, filas, irritação social e comentários nas redes sociais.
Para o Kremlin, esse desconforto interno representa um risco. A resposta das autoridades mostra que Moscovo está menos disposta a tolerar humor, críticas ou gestos simbólicos que possam transformar problemas quotidianos — como a falta de gasolina — em sinais públicos de fragilidade do Estado russo.
Ao mesmo tempo, a Rússia continua a castigar a população ucraniana com ataques de grande escala. Um novo bombardeamento com mísseis e drones contra Kiev provocou pelo menos 20 mortos e 56 feridos, incluindo sete crianças. A guerra mantém assim duas frentes cada vez mais ligadas: a destruição na Ucrânia e o endurecimento repressivo dentro da própria Rússia.












