Rússia está a ser ‘invadida’ por ‘espanhóis’ de 20 centímetros: destroem colheitas e podem transmitir doenças

As hortas e plantações das tradicionais dachas russas, casas de campo onde muitas famílias cultivam frutas e legumes, estão entre as mais afetadas

Francisco Laranjeira

Podem atingir entre 15 e 20 centímetros, aparecem às dezenas por metro quadrado e estão a invadir jardins, hortas e parques. A Rússia enfrenta este verão uma proliferação recorde das chamadas lesmas espanholas, uma espécie invasora que está a causar preocupação não apenas pelos estragos nas culturas, mas também pelos potenciais riscos para a saúde.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Segundo a ‘Euronews’, a Arion vulgaris já estava presente no ecossistema russo, mas a população atingiu este ano níveis sem precedentes. Moscovo, São Petersburgo e a região de Leninegrado encontram-se entre as zonas onde o fenómeno é particularmente visível.

Biólogos estão agora a apelar ao controlo da espécie precisamente numa altura crítica: agosto marca o início da época de reprodução.

Dezenas de lesmas por metro quadrado

Nos locais mais afetados, a situação pode atingir proporções impressionantes. Especialistas citados pela ‘Euronews’ estimam que, nos dias mais húmidos, possam existir dezenas de lesmas adultas por metro quadrado.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

As hortas e plantações das tradicionais dachas russas, casas de campo onde muitas famílias cultivam frutas e legumes, estão entre as mais afetadas.

Os moluscos alimentam-se das culturas e podem consumir os frutos por dentro, deixando-os impróprios para conservação ou comercialização.

A aparência também contribui para chamar a atenção. São animais de grandes dimensões, frequentemente com tonalidades vivas, e têm sido encontrados em grande número não apenas em áreas agrícolas, mas também em parques urbanos.

Médicos alertam para riscos

O problema não termina nos estragos provocados às culturas.

Continue a ler após a publicidade

De acordo com a ‘Euronews’, especialistas de saúde alertam que estes moluscos podem transportar parasitas e agentes patogénicos, incluindo bactérias associadas à listeriose e estafilococos.

O contacto com a mucosidade pode ainda provocar irritação ou reações alérgicas na pele.

Também os animais de companhia exigem atenção. Caso um cão ou outro animal engula acidentalmente uma lesma infetada, poderá ficar exposto a parasitas, incluindo vermes pulmonares.

Porque há tantas este ano?

A invasão recorde estará relacionada com uma combinação particularmente favorável de condições meteorológicas.

Continue a ler após a publicidade

O inverno ameno permitiu que sobrevivesse um número elevado de ovos depositados durante o outono, bem como de indivíduos jovens.

Depois chegou a chuva. A elevada frequência de precipitação durante a primavera e o verão criou condições húmidas particularmente favoráveis à sobrevivência e reprodução destes moluscos.

O resultado foi uma explosão populacional que agora se tornou evidente em várias regiões russas.

Cortar a vegetação e criar barreiras

Os especialistas consideram que uma infestação desta dimensão exige uma abordagem combinada.

Uma das medidas mais simples passa por cortar regularmente a vegetação. A erva alta proporciona sombra e conserva a humidade, criando precisamente o ambiente procurado pelas lesmas.

Continue a ler após a publicidade

Outra possibilidade é criar barreiras em redor de hortas e canteiros utilizando materiais cuja superfície dificulte a deslocação dos moluscos, como areia, cinza ou casca de ovo triturada.

A urgência aumenta nesta altura do ano devido ao início da época de reprodução: travar agora a população poderá ajudar a reduzir o número de novos indivíduos.

Chamam-se “espanholas”, mas podem não vir de Espanha

Há ainda uma curiosidade no nome destes invasores.

A Arion vulgaris é conhecida desde o século XIX e foi descrita em 1855 pelo naturalista francês Alfred Moquin-Tandon.

Durante muito tempo, acreditou-se que a espécie tinha origem na Península Ibérica, razão pela qual ficou popularmente conhecida como “lesma espanhola”.

Continue a ler após a publicidade

Investigações genéticas mais recentes, porém, apontam para uma origem histórica provavelmente situada em França e no oeste da Alemanha.

A grande expansão pela Europa ocorreu sobretudo no final do século XX. O aumento do comércio internacional e, em particular, o transporte de plantas ornamentais, mudas e terra ajudaram a espécie a viajar inadvertidamente e a estabelecer-se em novas regiões.

Agora, depois de um inverno suficientemente ameno para permitir uma elevada sobrevivência e de meses de chuva favoráveis à reprodução, a Rússia enfrenta uma população recorde — e, nos locais mais afetados, basta olhar para o chão num dia húmido para perceber a dimensão do problema.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.