Costuma dizer-se que a calma antecede a tempestade e, atualmente na Ucrânia, ainda que a frente de guerra nunca veja acalmia, a verdade é desde meados de novembro que as linhas da frente de combate permanecem praticamente inalteradas. Antecipa-se a mudança, e os ventos da escalada de violência ganham cada vez mais forma no horizonte, à medidas em que se aproxima o primeiro aniversário da guerra, a primavera e, com estes eventos, uma nova fase no conflito.
Atualmente, a Rússis segue a câmara lenta e com resultados pouco expressivos, tentando demover e afastar as forças ucranianas em vários pontos da região do Donbass, cuja conquista total é um objetivo renovado de Putin. Ao mesmo tempo, a Ucrânia enceta reuniões secretas, monta novos campos de treino e procura dar formação e novo equipamento aos soldados, para garantir uma contraofensiva que já inclua grande parte do equipamento militar fornecido pelos aliados ocidentais, incluindo os tanques Leopard-2, que chegarão já nas próximas semanas.
A paz parece mais distante do que nunca e ambos os lados acreditam de igual forma na vitória: o conflito ainda está para durar. Mas tudo dependerá em que moldes se vai desenvolver esta segunda nova fase, passado um ano de guerra na Ucrânia.
Rússia quer por mais peças no tabuleiro
As frentes têm-se mantido pouco dinâmicas nos últimos meses, mas o leste da Ucrânia, especialmente, tem continuamente sido alvo de ataques com drones, mísseis e projéteis. Em maior número nos últimos dias, o reforço já levou fontes de Kiev, citadas pelo El Confidencial, a considerara que “já começou” a expectável ofensiva russa reforçada a tempo do 1.º aniversário da guerra.
Putin não quer desperdiçar a data simbólica, e as forças russas tem tentado fazer progressos e juntar alguns triunfos, depois de vários contratempos, e de o último ‘sucesso’ obtido ter sido a captura de Severodonetsk, em Luhansk, no verão do ano passado.
Moscovo lançou ataques em Kreminna e Vuhledar, no nordeste e sudeste, aumentando a taxa de artilharia usada, em valores recorde desde o verão passado, com mais de 100 ataques com este tipo de armamento por dia, segundo relatórios militares ucranianos.
Ainda assim, as posições defensivas de Ucrânia aguentam-se, conseguindo até que, em Vuhledar, o exécito inimigo visse perdas gravosas – quase um batalhão inteiro e 36 tanques ‘sacrificados’ para tentar tomar a localidade.
Onde de facto se verificam avanços da Rússia é em Bakhmut, que as forças de Putin tentam conquistar desde junho, e palco de alguns dos últimos episódios mais sangrentos na guerra. Aqui já se juntam esforços do exército russo de do grupo mercenário Wagner, e dedica-se enorme quantidade de recursos, humanos e de armamento para tomar o que Zelensky já descreveu como “ a nossa fortaleza”, que muitas consideram que é inevitável que seja tomada (mesmo que temporariamente) pela Rússia.
“Bakhmut não será conquistada já amanhã porque há resistência. Mas a picadora de carne está a funcionar. Não vamos é celebrar num futuro imediato”, admitiu Yevgeny Prigozhin, chefe do grupo Wagner, que acredita numa conquista, mas não a curto-prazo.
A lentidão, falta de sucesso nas últimas ofensivas divide opiniões de especialistas. Há quem aponte que sejam sinais de um fraquejar da Rússia.
“Daqui a um mês, a frente de batalha estará nos arredores de Chasiv Yar [perto de Bakhmut], no pior dos casos. Como o Donbass é uma zona muito industrializada, há cidades e áreas urbanas que dão oportunidade às forças ucranianas para manterem o território e forçarem os russos a combate corpo a corpo”, garante Gustav Gressel, especialista em questões de segurança e defesa do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR), que aponta que “lá a Rússia não pode usar a superioridade que tem em termos de artilharia”, já que não se trata de combate em campo aberto.
Por outro lado, há quem aponte que, com o abrandar nos últimos meses, tudo indica que a Rússia ainda tem muitas peças (algumas eventualmente novas) para por no tabuleiro do jogo da Guerra, e que a grande ofensiva ainda está para começar. Os serviços secretos e de Defesa dos EUA já alertaram para o posicionamento de caças, helicópteros e bombardeiros russos em zonas estratégicas de fronteira, e o Exército da Rússia tem estabelecido novos pontos de fixação militar em Voronezh e Kursk, onde estavam as tropas russas a 24 de fevereiro do ano passado. O tamanho da ofensiva preparada ainda permanece, de certa forma, um mistério.
Ucrânia depende do fator surpresa
Enquanto a Rússia via abrandamento, a Ucrânia garantia avanços noutra frente tão ou mais importante: a da mesa das negociações com os aliados ocidentais. Conseguidos não só os Leopard II, mas também os blindados Bradley e Stryker, artilharia Howitzer, sistemas antiaéreos Patriot ou Stinger, mísseis, entre outro tipo de equipamento e armamento militar, seria de esperar que Kiev tivesse clara vantagem.
Mas o armamento tarda em chegar. O treino de soldados para que consigam utilizar o que foi oferecido pelos aliados ainda mais.
Oleksi Reznikov, ministro da Defesa, admite que “vai demorar”. “Estamos a falar de vários meses até que estejamos completamente prontos”, garantiu o responsável com Ukrinform.
Assim, tudo dependerá de um aspeto: o fator surpresa de qual o objetivo/alvo e atingir quando a Ucrânia decidir avançar.
Anteriormente, as ofensivas que permitiram reconquistar território em Kharkiv e Donetsk beneficiaram deste aspeto. Sabido é que já se percebeu, pelas movimentações de tropas, qual é o ‘ponto quente’ que o Kremlin receia perder: Melitopol.
A cidade capturada logo no início da guerra, na localização estratégica do Mar de Azov é um dos maior alvos que a Ucrânia podia aspirar reconquistar, no coração estratégico da ocupação russa a sul do país.
“Há um problema claro. É que Melitopol é o lugar mais óbvio para lançar uma ofensiva. Todos o sabem e, por isso é onde estão as melhores e mais robustas defesas russas”, aponta Oliver Imhof, analista alemão de estratégia e inteligência militar.
As alternativas são poucas: no eixo Kreminna-Svatove a nordeste, ou através do rio Dnipro seria outras hipóteses, mas mais difíceis de levar a cabo e com menos ganhos, estratégicos e simbólicos.
Assim, para esta nova fase da guerra, a única hipótese da Ucrânia se fazer valer do fator surpresa em Melitopol era tentar um ‘jackpot’ com a combinação, de ‘surpresa’, entre ofensivas terrestres e ataques de longo alcance com mísseis e artilharia, finalizando com o avanço com os tanques ocidentais recentemente adquiridos.
“A dúvida é sobre a eficácia do Exército ucraniano num ataque com armas combinadastermina Imhof.
O fator ‘tempo’
Outros aspeto a ter em consideração é o tempo de duração da invasão. Um especialista miliar ouvido pelo jornal Russo independente Meduza explica que Putin concluiu que quanto mais tempo a guerra durar, maiores será os benefícios para a Rússia face aos que colhe a Ucrânia, porque cria condições favoráveis para as exigências políticas, territoriais e de estabelecimento, que era o objetivo inicial do Presidente.
Assim, a mesmo tempo que a Ucrânia quer acabar com a guerra o quanto antes, nesta segunda fase a Rússia poderá querer arrastar a duração do conflito.
“Se a Ucrânia não vencer agora a guerra, será mais difícil um triunfo mais tarde. A Rússia tem maior capacidade para melhorar, aumentar e treinar o seu Exército. Estão a aumentar o recrutamento e a transformar a indústria para se virar mais para a guerra e produção de armamento. A longo prazo vão ser capazes de produzir muito mais tanques, blindados, artilharia, mísseis e assim por diante. Desta forma, se já tivemos um ano de tragédia, teremos ainda muitos mais”, aponta Imhof.










