Desde o início da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, chamou a atenção não apenas a desmotivação geral dos soldados russos nos primeiros meses da guerra, mas a necessidade de pagar salários mais altos às tropas recrutadas nas regiões russas para manter um fluxo constante de novas reservas na frente. A cada mês, Vladimir Putin viu-se obrigado a pagar mais a cada novo voluntário, ainda que a taxa de mortalidade ou ferido grave ronda os 50%, sendo que a taxa de sobrevivência, no caso de infantaria, está entre os 8 e 10 dias.
A Rússia investe enormes verbas em propaganda de consumo interno como no exterior, por vezes com mensagens distintas: de acordo com o jornal espanhol ‘El Mundo’, Moscovo distribuiu cadernos, de cerca de 20 páginas, aos seus novos recrutas. O caderno estava no bolso de um soldado russo recentemente capturado pela Brigada 65 da Ucrânia na frente de Zaporizhia.
Nele estão expostas as ‘diferenças’ entre o soldado russo exemplar, defensores das regras da guerra e carregados de humanidade, e os malvados soldados ucranianos, autores de crimes e cobardes na hora de matar civis ou usá-los como escudos humanos.
Esta ‘ficção’ moralizadora do Kremlin, que não obriga a que se saiba ler para a entender, encontra-se, de acordo com a publicação espanhola, a grande distância da terrível realidade no campo de batalha: não é preciso procurar muito para encontrar tropas tão poucos resistente a pilhagens, ao assassino gratuito de civis e à tortura e assassinato de prisioneiros desarmados.
Num dos crimes mais documentados na história, os militares russos assassinaram mais de 400 civis na cidade de Bucha durante as primeiras semanas da invasão – tiveram o mesmo comportamento na região ocupada de Izium, onde enterraram 478 pessoas assassinadas com um tiro na cabeça em enormes valaes comuns: seguiram o mesmo padrão de torturas e execuções em Kherson.
Nos desenhos russos, é possível ver a compaixão pelos soldados ucranianos recém-capturados: noutro desenho, um soldado russo oferece um urso de peluche a uma criança ucraniana. Noutro, um soldado russo desloca-se à igreja para rezar, ao passo que noutro surge um ucraniano a queimar um templo religioso.
No último desenho do caderno, referência à família, com um soldado russo a passar com a mulher e o filho, enquanto os homens ucranianos são apresentados como homossexuais.


















