Imediatamente após o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, o Kremlin instou os funcionários da Prosveshcheniye, um dos maiores e mais antigos editores de literatura educacional e pedagógica do país, a remover referências “incorretas” à Ucrânia e a Kiev em todos os livros escolares. Segundo revelou o jornal indenpendente russo ‘Mediazona’, a ordem dada aos editores numa reunião confidencial foi “minimizar a menção da Ucrânia e de Kiev nos livros escolares russos”. Foi ainda acrescentado o aviso para que se mantenha o silêncio sobre aquela ordem, bem como para evitar divulgar “informação oficial” ou questionar a ordem tanto em público como nas redes sociais.
“Somos uma editora que publica literatura que toca as mentes da geração mais jovem”, disse um dos funcionários da Prosveshcheniye – as autoridades russas, aliás, já cumpriram as suas ameaças: um dos editores do Departamento de Literatura Histórica perdeu o emprego por causa de um post no Facebook. Na Prosveshcheniye tudo é “muito formalizado, com ordens sólidas e circulares. Mas, ao mesmo tempo, os funcionários consideram o seu trabalho interessante e importante e, portanto, têm medo de o perder”.
Até 1991, a Prosveshcheniye era a principal editora educacional e pedagógica da URSS, mas depois perdeu o monopólio da produção de livros didáticos e hoje tem vários concorrentes importantes entre empresas privadas. Nos anos 1990 e início dos anos 2000, a escolha dos livros didáticos para as escolas era determinada pelos próprios professores – o Estado mantinha apenas uma lista de literatura recomendada.
Em 2011, os fundadores do grupo editorial Olma, Vladimir Uzun e Oleg Tkach, privatizaram a Prosveshcheniye; o investidor foi o bilionário Arkady Rotenberg, um velho conhecido de Vladimir Putin. Em 2013, o empresário chefiou o conselho de administração e tornou-se coproprietário da editora. Segundo a ‘Meduza’, quase simultaneamente com a chegada de Rotenberg, o Estado voltou a ser o principal comprador de livros didáticos. A Lei de Educação da Rússia, aprovada em 2012, tornou obrigatório o fornecimento de livros didáticos às crianças às custas do orçamento do Estado, e o Ministério da Educação apertou as regras de seleção para esses títulos. Como resultado, os editores cujas propostas poderiam ser colocados na lista federal de livros recomendados foram reduzidos.
Ao mesmo tempo, a decisão de ‘apagar’ a Ucrânia e Kiev dos livros didáticos foi tomada muito antes, lembram os editores: desde 2014 que os autores e editores de livros didáticos tentam mencionar a Ucrânia da forma mais rara e cuidadosa possível. Mesmo com o ‘purga’, a partir de 24 de fevereiro, os editores tiveram de “limpar cerca de 15% dos textos”. Os editores agora devem remover referências à Ucrânia sempre que possível. “Ou seja, estamos diante da tarefa de fazer como se a Ucrânia simplesmente não existisse”, apontou um editor. “É muito pior quando o livro simplesmente não fala sobre um país. Uma pessoa cresce sem uma base de conhecimento sobre um país, e então é muito mais fácil para ela acreditar no que é dito na TV.”
Mas a situação é mais difícil para quem trabalha na criação de livros de história: muitas vezes é impossível remover referências à Ucrânia e a Kiev sem comprometer o conteúdo, pelo que a redação precisa de ser alterada. “Mas se houver uma oportunidade, é melhor não mencionar a Ucrânia em princípio. Kiev é geralmente mencionada agora no contexto de que era a capital da Rússia de Kiev, e que nós libertámos Kiev”, explicou. “Pode-se mancionar como salvámos Kiev mas não é possível falar da independência da Ucrânia como um país”, revelou.
Além disso, está previsto que, durante o próximo ano letivo, um dos livros didáticos seja publicado pela editora sem o nome do autor na capa, já que ele é cidadão da Ucrânia. Na Rússia, a relevância de qualquer livro didático deve ser verificada a cada cinco anos, de acordo com o cronograma adotado pela editora, mas desde 2014 as verificações são realizadas com muito mais frequência.













