O julgamento do pirata informático, Rui Pinto, começa no próximo dia 4 de Setembro e conta com 45 testemunhas, de entre as quais o director nacional da Polícia Judiciária (PJ), Edward Snowden, a deputada Ana Gomes e até nomes do futebol como Bruno de Carvalho ou Jorge Jesus.
No documento de contestação enviado ao tribunal, a que o ‘DN’ teve acesso, Rui Pinto conta em 130 páginas tudo o que faz parte do seu percurso: motivações, derrotas, bem como os casos que ajudou a tornar públicos. O Objectivo? Dar a conhecer a sua «história e a sua motivação», evitando que «seja julgado e condenado pelos 90 crimes por que está pronunciado».
No que diz respeito às motivações, segundo a defesa, «sem prejuízo de o arguido não aceitar a autoria de todos os crimes pelos quais foi pronunciado, a sua conduta não poderá deixar de ser, global e pontualmente, analisada e ponderada tendo em conta que a sua motivação para a prática de factos ilícitos foi o desejo de denúncia pública de crimes graves».
No documento é recordado que o hacker, com as suas revelações, contribuiu para «um avanço histórico no conhecimento de práticas criminosas clandestinas que, não sendo reveladas, perdurariam indefinidamente com manifesto prejuízo económico para diversos países, mas também para os direitos humanos, em geral, em todo o mundo», revela o DN.
Sobre a Football Leaks é explicado que Rui Pinto criou a plataforma «para divulgar com transparência e verdade documentação original e integral, sem omissões ou truncagens». O objectivo era que «os cidadãos comuns, amantes do futebol como era o seu caso, pudessem perceber, em toda a plenitude, como funcionavam os negócios do futebol», indica a defesa.
Relativamente ao processo Doyen, a defesa revela que se trata de fundo de investimento que negoceia jogadores de futebol e «por estar envolta em mistério, sempre suscitou a curiosidade”» do pirata informático.
«Já em 2015 circulavam rumores entre adeptos do Futebol Clube do Porto, no sentido de que poderia haver ligações entre aquela empresa e Alexandre Pinto da Costa, filho do presidente, tendo o arguido tido acesso a um conjunto de contratos que revelavam um ‘esquema’ entre o Futebol Clube do Porto» e o CEO da empresa, «para financiar a Energy Soccer em que Alexandre Pinto da Costa detinha, assumidamente, 60% do capital», lê-se no documento citado pelo ‘DN’.
Desta forma a Doyen tornou-se no alvo de Rui Pinto na sua «cruzada a favor da transparência no futebol” para “descobrir e revelar publicamente o enorme número de crimes cometidos pelos “parasitas que se aproveitam do futebol».
No percurso do hacker é ainda revelado um «erro» ou derrota, quando a Doyen apresentou queixa contra Rui Pinto por ter ameaçado publicar documentos comprometedores, se não fosse contratado como «técnico de informática com um ordenado de 25 mil euros». Mas segundo a defesa, citada pelo DN, o hacker «tomou consciência do grave erro em que incorrera ao contactar e ao negociar com Nélio Lucas a possibilidade de acabar com as revelações do Football Leaks».
«Houve, pois, da parte do arguido uma decisão voluntária, uma atitude interior, espontânea, de revogar a decisão anteriormente formada de cometer o crime, por motivos próprios, assumidos, de reconsideração», acrescenta ainda.
No caso Luanda Leaks, o hacker confirmou que o seu alvo sempre foi a empresária angolana, Isabel dos Santos, filha do ex-presidente de Angola José Eduardo dos Santos, que o levou a aceder indevidamente aos sistemas informáticos da sociedade de advogados PLMJ.
É ainda assumido no documento, «o acesso a diversa informação relacionada com a empresa Fidequity – Serviços de Gestão, S.A. e com muitas operações financeiras suspeitas ligadas a Isabel dos Santos». A defesa revela que «ao ler essa documentação, percebeu que advogados da PLMJ como Inês Pinto da Costa eram peças-chave no auxílio e na optimização do branqueamento de capitais da filha do presidente angolano, tal como na elaboração de contratos lesivos para o Estado angolano».






