O hacker português, Rui Pinto, disse na quarta-feira que o Benfica comprou o ministro da Hungria, com «bilhetes VIP». Numa entrevista Rui Pinto tece duras críticas ao clube, que já entretanto respondeu em comunicado.
«Ao mesmo tempo que as autoridades portuguesas enviavam um pedido às autoridades húngaras para alargar o meu mandado de detenção europeu, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria recebeu dois bilhetes VIP para jogos do Benfica e teve encontros no estádio do Benfica. Isto é o Benfica», disse Rui Pinto, em entrevista à revista alemã Der Spiegel, publicada pelo Expresso.
O pirata informático acrescenta ainda: «Este clube é como um polvo de influência. Há um pormenor muito importante sobre o qual quero que o público pense», refere dizendo que «depois da publicação de e-mails do Benfica, todos começaram a perceber que o modus operandi dos seus dirigentes era alargar a influência, muitas vezes por cortesia, para alcançar os seus objetivos» e entende que o clube «foi uma das partes mais interessadas no alargamento do mandado de detenção europeu».
O Benfica já reagiu às acusações. Num comunicado publicado no seu site o clube «rejeita a tentativa de instrumentalização pela defesa de Rui Pinto».
«O Sport Lisboa e Benfica, recorde-se, não ocupa qualquer posição processual no referido processo-crime onde foi emitido o mandado de detenção europeu. O Sport Lisboa e Benfica apenas sabe, pela comunicação social, que o Ministério Público imputa a Rui Pinto o cometimento de 90 crimes, não sendo o Sport Lisboa e Benfica ofendido ou lesado em nenhum desses crimes», lê-se na nota publicada.
O clube indica ainda que «não há qualquer fundamento na insinuação hoje soprada por Rui Pinto», acrescentando que «Rui Pinto e os seus assessores jurídicos saberão o caminho e a campanha que escolhem para fazer a sua defesa, jurídica ou mediática, no âmbito do referido processo. O Sport Lisboa e Benfica não está disponível para lhes dar guarida nessa campanha, nem alimentará as necessidades de protagonismo ou de defesa de quem quer que seja».
O criador do Footbal Leaks, plataforma através da qual divulgou milhares de documentos confidenciais do mundo do futebol e alegados esquemas de evasão fiscal cometidos em diversos países, garante que não se considera um ‘hacker’ e defende o papel do ‘whistleblower’ (denunciante).
«Alguém que procura, recebe e analisa informação relativa a crimes relevantes como corrupção e fraude fiscal e decide partilhá-la com media internacionais ou directamente com as autoridades deve ser considerado um whistleblower. Tomemos os Panama Papers como exemplo. Hoje, a maior parte das pessoas já se esqueceu de que foi um ato de ‘hacking’ (pirataria informática)», afirma.
Recorde-se que Rui Pinto, que entrou em Portugal em Março de 2019 e esteve preso durante cerca de um ano e meio, por alegados crimes informáticos, está agora em liberdade, depois de ter sido autorizada a suspensão do seu processo num «acordo inédito» da Justiça portuguesa, conseguindo ser libertado como arguido e simultâneamente como testemunha protegida.
A colaboração «essencial» de Rui Pinto foi um dos argumentos utilizados pelo director da Polícia Judiciária (PJ) e do DCIAP, para sensibilizar o tribunal que o vai julgar e amenizar a sua decisão. A informação que o hacker tem pode ser «determinante» para a Justiça, em alguns casos, desde o futebol, passando por Isabel dos Santos, até ao caso BES.
Rui Pinto começa a ser julgado a 4 de Setembro por 90 crimes: 68 de acesso indevido, 14 de violação de correspondência, seis de acesso ilegítimo e ainda por sabotagem informática à SAD do Sporting e por tentativa de extorsão ao fundo de investimento Doyen.
O criador da plataforma Football Leaks e responsável pelo processo Luanda Leaks, em que a Isabel dos Santos é a principal visada, está em liberdade, por decisão da juíza Margarida Alves, encontrando-se agora inserido no programa de protecção de testemunhas em local não revelado e sob protecção policial, por questões de segurança.






