Rubio chega hoje a Roma para tentar reparar tensão entre Trump, o Papa e Meloni

Estratégia da Santa Sé tem sido clara: não transformar a divergência com Trump numa disputa política direta. Parolin reconheceu que “nem todos estão na mesma linha”, mas sublinhou que a mensagem do Papa continua centrada na paz

Francisco Laranjeira

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, viaja hoje para Roma – até dia 8 – para reuniões com responsáveis de Itália e do Vaticano, numa deslocação oficialmente destinada a reforçar relações bilaterais, mas que surge num momento de forte tensão diplomática provocada pelos ataques de Donald Trump ao Papa Leão XIV e pelas divergências sobre a guerra no Irão. O Departamento de Estado confirmou que Rubio discutirá com a liderança da Santa Sé a situação no Médio Oriente e interesses comuns no hemisfério ocidental.

A visita é vista em Roma como uma tentativa de estabilizar relações depois de Trump ter acusado o Papa de pôr “muitos católicos e muitas pessoas” em risco, alegando que Leão XIV considera aceitável que o Irão tenha uma arma nuclear. Não há qualquer declaração pública do pontífice a apoiar armamento nuclear iraniano; o Papa tem defendido, antes, cessar-fogo, diálogo e uma solução diplomática para a guerra.

As declarações do presidente americano surgiram a menos de 48 horas da chegada de Rubio a Roma e agravaram uma crise que a Santa Sé tem procurado desanuviar. O secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, evitou alimentar a polémica e afirmou que o Papa já respondeu, enquadrando a sua posição no papel de “pregar a paz”.

Vaticano evita choque político

A estratégia da Santa Sé tem sido clara: não transformar a divergência com Trump numa disputa política direta. Parolin reconheceu que “nem todos estão na mesma linha”, mas sublinhou que a mensagem do Papa continua centrada na paz.

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Leão XIV, o primeiro Papa americano, tem assumido nas últimas semanas uma posição mais visível no plano internacional, criticando a campanha dos EUA e de Israel contra o Irão e manifestando oposição a várias políticas da administração Trump, incluindo na imigração e em Cuba.

Trump, por sua vez, intensificou os ataques ao pontífice, descrevendo-o em ocasiões anteriores como “fraco” e “mau” e insistindo que a sua posição sobre o Irão colocaria católicos em perigo. A Santa Sé tem recusado entrar nesse tom, procurando preservar espaço para diálogo.

Rubio como canal diplomático

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É neste contexto que a deslocação de Marco Rubio ganha peso. Católico, o secretário de Estado já se encontrou com Leão XIV em maio de 2025, ao lado do vice-presidente JD Vance, depois da missa inaugural do pontificado na Praça de São Pedro. Nessa ocasião, entregaram ao Papa um convite de Trump para visitar a Casa Branca, que ainda não foi aceite.

Segundo a imprensa italiana e fontes citadas pelo ‘The Guardian’, Rubio deverá reunir-se com Pietro Parolin no Vaticano e com Antonio Tajani, vice-primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros de Itália. A possibilidade de uma reunião com Giorgia Meloni também esteve em cima da mesa.

A ‘Reuters’ refere que Rubio deverá ter uma conversa “franca” com o Papa, num encontro em que Washington pretende promover “diálogo autêntico” apesar das divergências.

Itália também está no centro da tensão

A visita não se limita ao Vaticano. As relações entre Washington e Roma também foram afetadas pela crise em torno do Irão. Giorgia Meloni, durante muito tempo vista como uma das principais aliadas europeias de Trump, distanciou-se da guerra conduzida pelos EUA e por Israel e considerou “inaceitáveis” as críticas do Presidente americano ao Papa.

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Trump respondeu criticando Itália e ameaçando retirar tropas americanas do país, depois de já ter anunciado a saída de 5.000 militares da Alemanha. A decisão sobre a Alemanha foi apresentada pelo Pentágono como resposta a críticas do chanceler Friedrich Merz à atuação americana no conflito com o Irão.

Itália é um dos principais países de acolhimento de forças americanas na Europa, com cerca de 13 mil militares distribuídos por seis bases no final de 2025. A tensão ganhou força depois de Roma ter recusado, em março, o uso de uma base aérea na Sicília por aviões americanos envolvidos no transporte de armas para a guerra.

Irão domina agenda

O Irão será o ponto central das conversas de Rubio tanto no Vaticano como com responsáveis italianos. Para Trump, a possibilidade de Teerão obter uma arma nuclear tornou-se o principal argumento para atacar o Papa e aliados europeus que criticam a guerra.

Itália, através do ministro Antonio Tajani, tem reiterado que uma arma nuclear iraniana é uma “linha vermelha”. Ao mesmo tempo, Roma procura evitar uma escalada militar que agrave a instabilidade no Médio Oriente e aumente a pressão sobre a Europa.

O Estreito de Ormuz continua a ser outro foco da crise. O bloqueio e a operação naval americana conhecida como “Projeto Liberdade” dificultam a retoma de negociações entre Washington e Teerão e pesam sobre a economia global.

Cuba também pode entrar na conversa

Além do Médio Oriente, a agenda oficial de Rubio no Vaticano inclui interesses comuns no hemisfério ocidental, uma formulação que aponta para temas como Cuba. A ilha ocupa um lugar central no percurso político de Rubio e enfrenta nova pressão americana, incluindo restrições a importações de petróleo e ajuda externa.

Roma tornou-se recentemente um ponto discreto de contactos diplomáticos sobre Cuba, incluindo encontros envolvendo responsáveis cubanos, americanos e do Vaticano. A Santa Sé tem historicamente desempenhado papéis de mediação, mas o espaço de manobra parece estar a diminuir perante a nova linha dura de Washington.

Missão difícil antes de a crise se alargar

A deslocação de Rubio a Roma acontece num momento particularmente sensível para a relação transatlântica. Além da tensão com o Vaticano e Itália, os EUA ameaçam novas tarifas sobre veículos europeus, enquanto a guerra no Irão pressiona a NATO, a energia e os equilíbrios diplomáticos entre Washington e os seus aliados.

No essencial, Trump está a transformar o Irão num campo de confronto político com o Papa e com parceiros europeus. O Vaticano evita responder no mesmo tom. Itália tenta preservar a relação com Washington sem abdicar da sua margem política. E Rubio chega a Roma com a missão de conter danos antes que a crise se espalhe ainda mais.

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