Roménia à beira de virar para Moscovo? Crise deixa em colapso Governo pró-UE

Executivo ficou sem maioria parlamentar, o que abre caminho a meses de instabilidade num dos países-chave do flanco leste europeu

Francisco Laranjeira

A Roménia entrou numa nova crise política que está a alarmar Bruxelas e aliados da NATO. O maior partido da coligação governamental retirou apoio ao primeiro-ministro pró-europeu Ilie Bolojan, deixando o Executivo sem maioria parlamentar e abrindo caminho a meses de instabilidade num dos países-chave do flanco leste europeu.

O cenário foi destacado pelo ‘ABC’ e confirmado por várias agências internacionais. Segundo a ‘Reuters’, o Partido Social-Democrata (PSD), principal força da coligação, decidiu retirar apoio a Bolojan e retirar os seus seis ministros do Governo, decisão que ameaça paralisar o país.

Porque preocupa tanto a Europa

A Roménia tem importância estratégica crescente. Faz fronteira com a Ucrânia, integra a NATO, alberga infraestruturas militares relevantes e tornou-se peça central no apoio logístico ocidental a Kiev.

Num momento em que os Estados Unidos começaram a reduzir parte da presença militar no flanco leste da Aliança Atlântica, qualquer instabilidade em Bucareste ganha peso adicional.

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A eventual queda do Governo pró-europeu surge também numa altura em que forças soberanistas e eurocéticas crescem nas sondagens.

Soberanistas lideram

Uma sondagem publicada este ano mostrou a Aliança para a União dos Romenos (AUR), partido nacionalista de direita dura, em primeiro lugar com 40,9% das intenções de voto — valor sem precedentes na política romena pós-comunista.

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O partido tem criticado Bruxelas, contestado apoio militar à Ucrânia e defendido linha mais nacionalista. Em capitais europeias, a leitura é simples: uma vitória futura da AUR poderia alterar o posicionamento externo da Roménia.

O que derrubou Bolojan

Ilie Bolojan era visto por investidores e parceiros europeus como figura reformista e disciplinada. Desde que chegou ao poder, avançou com aumentos de impostos, cortes de despesa e reformas para reduzir o maior défice orçamental da União Europeia.

Mas essas medidas desgastaram o governo internamente e penalizaram partidos da coligação nas sondagens.

Segundo a ‘Reuters’, a Roménia arrisca perder cerca de 11 mil milhões de euros de fundos europeus se não cumprir reformas até agosto. O país tem ainda de assinar 16,6 mil milhões de euros em contratos ligados ao reforço europeu da defesa.

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Putin pode beneficiar?

Não há indicação de apoio direto do Kremlin a esta crise política atual, mas a Rússia beneficiaria de uma Roménia fragilizada, dividida ou menos alinhada com Bruxelas e NATO.

A Roménia foi um dos países onde alegações de interferência russa já marcaram eleições recentes, aumentando a sensibilidade europeia sobre qualquer viragem política.

Uma mudança de rumo em Bucareste teria impacto imediato:

– enfraquecimento do apoio regional à Ucrânia
– pressão adicional sobre o flanco oriental da NATO
– novo foco de tensão dentro da União Europeia
– reforço político das forças soberanistas no Leste Europeu.

O que pode acontecer agora

Bolojan prometeu continuar e tentar governar com ministros interinos, mas o cenário é altamente instável. Oposição e dissidentes poderão avançar com moção de censura, e a formação de nova maioria parece difícil sem o PSD.

Como eleições antecipadas são raras no sistema político romeno, o país pode entrar num longo bloqueio institucional.

Porque esta crise interessa a Portugal

À distância, a crise parece regional. Mas não é. A Roménia tornou-se peça importante da segurança europeia, da cadeia logística ligada à Ucrânia e do esforço militar do continente.

Se Bucareste vacilar, a pressão recai sobre toda a Europa — incluindo países como Portugal, chamados a reforçar despesas de Defesa e coesão política num continente cada vez mais fragmentado.

O sinal que sai de Bucareste

Mais do que uma simples crise interna, o que se passa na Roménia mostra uma tendência crescente na Europa: Governos pró-europeus sob pressão económica e partidos soberanistas a ganhar terreno.

Num continente em guerra nas fronteiras e dividido por dentro, isso pode valer muito mais do que uma mudança de Governo.

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