Ricardo Biscaia: “O desempenho académico continua a ter importância no mercado de trabalho (e no salário)”

Ricardo Biscaia, coordenador do estudo da EDULOG – Fundação Belmiro Azevedo, analisa as diferenças entre áreas de estudo e o impacto da formação no percurso profissional dos diplomados.

João Silva Gil

Os resultados académicos, a área de estudo e o tipo de instituição podem influenciar o percurso profissional dos diplomados, mas as diferenças entre áreas continuam a ser o principal fator. Em entrevista à Executive Digest, Ricardo Biscaia, coordenador do estudo da EDULOG – Fundação Belmiro Azevedo, explica o que os dados revelam sobre o desemprego, os salários e a qualidade do emprego, e defende que estudantes e famílias devem ter acesso a informação mais completa para tomar decisões sobre o ensino superior.

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Por que razão a área de estudo tem tanto impacto no percurso profissional dos diplomados?

Chegámos à conclusão de que as diferenças entre áreas de estudo são muito relevantes em praticamente todos os indicadores de qualidade do emprego que analisámos: desemprego, salários, satisfação com o emprego, probabilidade de ter um contrato sem termo e desalinhamento entre formação e emprego.

A nossa principal explicação — embora o estudo não permita estabelecer uma relação causal definitiva — está relacionada com a capacidade de absorção da economia para as diferentes áreas de estudo.

Há áreas onde essa capacidade é maior: são necessários mais diplomados ou, pela natureza da sua formação, estes conseguem adaptar-se e integrar-se noutras áreas, por terem adquirido competências mais transversais. Noutras, essa capacidade parece ser mais limitada.

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É importante sublinhar que isto não significa atribuir a “culpa” aos diplomados ou às instituições de ensino superior. As instituições têm responsabilidade pela formação e pela empregabilidade, mas não controlam o mercado de trabalho nem as decisões de contratação.

Por isso, atribuímos esta disparidade principalmente à capacidade de absorção das diferentes áreas por parte da economia.

O que é que explica a dificuldade do país em conseguir empregos adequados às qualificações dos diplomados?

Essa é uma pergunta difícil. Mas há um ponto importante: dividimos o relatório em duas partes precisamente porque, quando se fala neste tema, a população associa quase sempre a ideia de desemprego.

Identificámos as áreas com mais desemprego e, portanto, o paradoxo de alguém tirar um curso e acabar desempregado. Mas sabemos que, ao fim de algum tempo, as pessoas se adaptam: reajustam a sua posição, tiram outros cursos, aprendem novas competências e procuram outras oportunidades.

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É por isso que, quando analisamos a qualidade do emprego, verificamos que as áreas com maior desemprego são também aquelas onde, mesmo estando empregadas, as pessoas têm piores salários, maior insatisfação e maior probabilidade de sobre-educação.

Isto sugere que as pessoas se vão adaptando aos problemas que encontram no mercado de trabalho, mas nem sempre conseguem alcançar condições de emprego equivalentes às de diplomados de outras áreas.

Compreendo. Era mais no sentido de perceber, dado ser um tema atual (a “fuga” de pessoas, a retenção de talento…), se havia alguma relação com os dados.

No Inquérito Eurograduate 2022, tínhamos entre 10% e 11% de diplomados a trabalhar fora do país — uma percentagem que considero bastante saudável.

Quando formamos os nossos diplomados, não é com o objetivo de os “prender” ao país. Temos também a obrigação de preparar as pessoas para o mundo global. Estamos na Europa, mantemos relações comerciais estreitas com os nossos parceiros e, em certa medida, é suposto formarmos pessoas também para irem além-fronteiras.

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Se, por hipótese, metade dos nossos diplomados fosse embora, aí sim haveria motivo para discutir questões como a pertinência do investimento público no ensino superior. Mas não me parece que seja esse o cenário que os dados mostram.

O estudo mostra diferenças claras entre homens e mulheres. O que está na origem desta desigualdade?

As nossas estimativas indicam que as mulheres recebem menos 11% do que os homens, um ano após a entrada no mercado de trabalho. Esta diferença aumenta ao fim de cinco anos, passando para menos 16%.

É importante esclarecer que não se trata de uma comparação direta entre os salários de homens e mulheres, mas de uma comparação controlada. Ou seja, assumimos que homens e mulheres têm as mesmas características observadas no modelo. Assim, a estimativa aos cinco anos compara, em teoria, um homem e uma mulher que estudaram o mesmo curso, tiveram a mesma nota e estão na mesma área, entre outras variáveis consideradas.

O que é que pode explicar esta diferença? Há um primeiro aspeto relacionado com a forma como a sociedade distribui certas responsabilidades. Por exemplo, é frequentemente a mãe quem lida em primeiro lugar com um filho doente ou quem assume a responsabilidade de o ir buscar à escola. Estas questões podem levar os empregadores a considerar que contratar uma mulher representa um risco maior, ou podem condicionar o avanço da mulher na carreira.

Um segundo ponto está relacionado com as diferenças nas licenças de parentalidade. É compreensível que existam diferenças relacionadas com a gravidez, o parto e a recuperação física da mãe, e que justifiquem a atribuição de apoios à parentalidade diferenciados. Mas também é importante perceber que essas diferenças nos apoios de parentalidade podem ter consequências económicas e profissionais.

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Estamos a falar de recém-diplomados e, mesmo cinco anos depois de entrarem no mercado, existe uma probabilidade natural de uma mulher engravidar. É possível que isso leve um empregador a pensar duas vezes antes de contratar, ou que a pessoa, já dentro da empresa, sinta esse facto a condicionar o seu percurso.

Não estou a defender que as licenças devam ser alteradas. Mas talvez seja importante discutir de que forma estas diferenças podem contribuir, pelo menos parcialmente, para o gender wage gap.

Pode haver outras explicações, incluindo discriminação por parte das empresas. Não conseguimos identificá-las diretamente com os nossos dados, mas o facto de as diferenças persistirem, mesmo controlando várias características, mostra que há algo estrutural a acontecer.

É também curioso verificar que o gap aumenta ao longo do tempo — de 11% para 16% ao fim de cinco anos. Isto sugere que não se trata apenas de uma questão de entrada no mercado de trabalho, mas também de progressão na carreira.

O tipo de instituição onde se estuda (universidade ou politécnico, pública ou privada) tem afinal pouca influência. É uma conclusão que pode surpreender?

Acho que sim. Mas devo esclarecer que não analisámos instituição a instituição: a comparação que fazemos é agregada, entre universidade pública, universidade privada, politécnico público e politécnico privado. No que toca especificamente ao público versus privado, encontrámos diferenças pouco relevantes. Ao nível do emprego, não há diferenças estatisticamente relevantes entre os tipos de instituição. Nos salários, os diplomados de instituições politécnicas apresentam valores inferiores — entre 9% e 10%, consoante o coorte analisado —, sendo que aqui a diferença relevante não é público versus privado, mas sim universitário versus politécnico. Já na satisfação com o emprego, os diplomados do ensino privado estão ligeiramente mais satisfeitos do que os do ensino público, e no que respeita ao tipo de contrato não há diferenças relevantes na probabilidade de ter um vínculo permanente. Quanto ao desalinhamento horizontal, também não encontrámos diferenças relevantes, exceto nos politécnicos públicos, cujos diplomados reportam uma maior probabilidade de trabalhar numa área diferente da sua formação. Todas estas diferenças são, ainda assim, muito menores do que as diferenças entre áreas de estudo, que continuam a ser o principal determinante.

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E isso pode ter implicações para a forma como as instituições são avaliadas?

Sim. Queremos utilizar este resultado nas recomendações de política que redigimos no relatório. Sabemos que há resistência das instituições de ensino superior a este tipo de estudos comparativos, por receio de que uma instituição seja percecionada como pior do que outra. Mas os resultados mostram que, do ponto de vista das comparações institucionais, talvez não haja assim tantas razões para esse receio.

É também positivo verificar que essa resistência está a diminuir. Além do Eurograduate 2022, já estamos a preparar o Eurograduate 2026, cujo trabalho de campo decorrerá este ano — eu próprio o coordeno. Tenho tido várias reuniões com as instituições de ensino superior para divulgar o inquérito e noto que há um consenso crescente de que este exercício comparativo é útil.

Que importância deve ter esta informação nas escolhas dos jovens quando decidem que curso seguir?

Numa entrevista que fizemos à DGEEC, foi referido que a instituição produz informação, mas que, normalmente, são os jornalistas que fazem os rankings. Não é função da DGEEC fazer comparações diretas. A minha posição é semelhante: o trabalho da instituição deve centrar-se sobretudo na disponibilização de informação ao público, e não propriamente na elaboração de rankings.

Essa informação é particularmente importante para estudantes e famílias. As famílias mais favorecidas, já habituadas a ter filhos no ensino superior, tendem a saber que há cursos e áreas que funcionam melhor do que outras. O nosso estudo confirma, em certa medida, essa perceção.

Já numa família desfavorecida, cujo filho será o primeiro a frequentar o ensino superior, a lógica pode ser diferente: basta ter um curso, sem que a área de estudo seja necessariamente o critério mais ponderado. Estou certo de que há muitas famílias que desconhecem por completo a informação que estamos aqui a publicar.

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O portal InfoCursos (onde normalmente se retira a informação sobre o desemprego dos diplomados por curso e por instituição, anunciando, por exemplo, o número de instituições com desemprego zero) deveria melhorar e incluir outros indicadores que ajudassem as famílias a tomar decisões mais informadas no momento do acesso ao ensino superior.

No fundo, é esse o objetivo final deste estudo?

Enquanto investigadores, sim — mas, na minha opinião, deve ser o Governo a assumir esse papel, e não nós. O nosso trabalho pode ajudar a que a informação chegue a mais pessoas, mas esta deveria ser uma obrigação do Governo. Aliás, há uma recomendação do Tribunal de Contas, de 2022, que refere que Portugal não tem um sistema deste tipo e que precisa de o desenvolver. O próprio Eurograduate 2022 é mencionado nessa recomendação como uma possível via para resolver o problema. Mas cabe ao Executivo assumir esse papel de forma mais estruturada.

Professor, para terminar, que impacto tem a média final de curso no percurso profissional dos diplomados?

Chegámos à conclusão de que a média final tem, de facto, impacto. Estudantes com melhores resultados académicos obtêm melhores resultados no mercado de trabalho e menor probabilidade de desemprego.

No caso dos salários, por exemplo, apurámos que cada valor adicional na média final está associado a um aumento de cerca de 4% no salário do diplomado, cinco anos após a conclusão do curso. Ou seja, segundo esta estimativa, alguém com mais cinco valores de média poderia receber cerca de 20% a mais, embora este seja um cálculo aproximado.

Este é um resultado relevante porque mostra que o desempenho académico continua a ter importância no mercado de trabalho.

Há hoje um discurso bastante comum que relativiza a importância da média final, valorizando antes outras competências, a experiência profissional ou a realização de estágios. Sem desvalorizar esses fatores, os nossos resultados mostram que a média final continua a desempenhar um papel relevante.

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No fundo, os estudantes com melhores resultados académicos entram, em média, em melhores condições no mercado de trabalho. E acredito que este resultado é uma boa forma de chamar a atenção para isso.

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