Revista oficial dos Serviços Secretos Estrangeiros da Rússia contradiz versão de Putin sobre troca de prisioneiros que alegadamente envolvia Navalny

O artigo da Razvedchik refere-se, segundo o jornal independente Meduza, a “figuras políticas odiosas” incluídas na lista inicial de prisioneiros a serem trocados, sem mencionar Navalny diretamente, mas sugere que a sua inclusão, seguida pela sua morte em circunstâncias ainda nebulosas, atrasou significativamente o processo de troca. Segundo o texto, Sergey Naryshkin, diretor do Serviço de Inteligência Estrangeira, liderou as negociações em nome de Moscovo.

Pedro Zagacho Gonçalves

A mais recente edição da revista Razvedchik, publicação oficial do Serviços Secretos Estrangeiros da Rússia (SVR), revelou detalhes sobre a troca de prisioneiros entre Moscovo e o Ocidente que ocorreu em 1 de agosto deste ano, contradizendo diretamente as declarações anteriores do presidente Vladimir Putin. O artigo, intitulado “O longo caminho para casa”, indica que as negociações que culminaram na troca de prisioneiros foram ordenadas pelo Kremlin e decorreram durante cerca de 18 meses. Esta revelação contrasta com as afirmações de Putin, feitas em março de 2024, de que a ideia de incluir Alexey Navalny, líder da oposição russa, surgiu apenas poucos dias antes da sua morte.

O artigo da Razvedchik refere-se, segundo o jornal independente Meduza, a “figuras políticas odiosas” incluídas na lista inicial de prisioneiros a serem trocados, sem mencionar Navalny diretamente, mas sugere que a sua inclusão, seguida pela sua morte em circunstâncias ainda nebulosas, atrasou significativamente o processo de troca. Segundo o texto, Sergey Naryshkin, diretor do Serviço de Inteligência Estrangeira, liderou as negociações em nome de Moscovo.

Isto contrasta com a versão pública dos acontecimentos oferecida por Putin. Numa conferência de imprensa a 17 de março de 2024, poucos dias após sua reeleição, Putin afirmou que ficou a par da ideia de trocar Navalny apenas dias antes da sua morte. “Alguns colegas mencionaram, não do meu governo, apenas pessoas, que havia a possibilidade de trocar Navalny por alguns dos nossos presos no Ocidente. Concordei imediatamente, sob a condição de que ele não voltasse à Rússia, mas infelizmente o que aconteceu, aconteceu”, disse Putin. A conferência foi a primeira vez que o presidente russo mencionou Navalny pelo nome em público.

As primeiras notícias sobre a possível inclusão de Navalny numa troca de prisioneiros surgiram no final de fevereiro de 2024, quando a presidente da Fundação Anti-Corrupção, Maria Pevchikh, exilada, acusou Putin de usar a libertação de Navalny como moeda de troca em negociações com o Ocidente. Pevchikh alegou que Putin, temendo o impacto que Navalny poderia ter se fosse libertado e acolhido no Ocidente, ordenou secretamente a sua morte, antes que a troca pudesse ocorrer.

Estas alegações, somadas às revelações da revista do SVR, alimentam especulações sobre os bastidores da política russa e sobre o verdadeiro motivo por trás da morte de Navalny, cuja trágica perda continua a levantar questões sobre a atuação das autoridades russas.

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A troca de prisioneiros de 1 de agosto

A troca de prisioneiros entre a Rússia e o Ocidente, que finalmente se realizou a 1 de agosto no Aeroporto de Ancara, incluiu a libertação de várias figuras proeminentes da oposição russa e cidadãos ocidentais. Entre os libertados estavam Vladimir Kara-Murza, Ilya Yashin, Oleg Orlov, Andrey Pivovarov, Sasha Skochilenko, Liliya Chanysheva, Ksenia Fadeeva, Vadim Ostanin, bem como os cidadãos americanos Paul Whelan, Evan Gershkovich, Alsu Kurmasheva, e o cidadão alemão Patrick Schebel. A Bielorrússia também participou, libertando o cidadão alemão Rico Krieger.

Em troca, a Rússia recuperou uma série de agentes de inteligência e hackers que estavam detidos no Ocidente. Entre eles estava Vadim Krasikov, um oficial do Serviço Federal de Segurança (FSB), que havia sido condenado à prisão perpétua na Alemanha pelo assassinato do ex-comandante checheno Zelimkhan Khangoshvili.

No regresso a Moscovo, os prisioneiros libertados foram recebidos pessoalmente por Vladimir Putin no aeroporto Vnukovo-2. Numa cerimónia simbólica, o presidente afirmou: “A pátria nunca se esqueceu de vocês, nem por um minuto.” Putin também prometeu condecorar os prisioneiros por seus serviços ao país. O diretor do Serviço de Inteligência Estrangeira, que também participou na receção, afirmou que os agentes libertados retomariam as suas funções após um breve período de descanso.

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As revelações sobre as negociações prolongadas e a inclusão precoce de Navalny na lista de troca complicam ainda mais a imagem do governo russo no cenário internacional. Embora as autoridades russas tenham negado repetidamente qualquer envolvimento direto na morte de Navalny, as acusações de que a sua inclusão na troca foi estrategicamente planeada para ser evitada levantam questões sobre a integridade e os objetivos reais das negociações.

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