Por Maria João Guedes, Professora do ISEG, Universidade de Lisboa, co-coordenadora do Women on Boards – Portugal e do XLAB-Behavioural Research Lab
As restrições financeiras são um dos desafios mais importantes que as empresas enfrentam. Em particular, as empresas de menor dimensão e familiares são as que mais se debatem com dificuldades de acesso a recursos financeiros (mas também a outros recursos, como de marketing, de inovação, entre outros).
As empresas familiares são a espinha dorsal das economias. Em Portugal, as empresas familiares representam mais de 70% das empresas, cerca de 50% do emprego e de 65% do PIB [1]. Geralmente, têm menos opções de financiamento, nomeadamente podem ter menor acesso a crédito ou tê-lo a taxas muito elevadas. Os seus fluxos de caixa são mais variáveis e instáveis, o que pode pôr em causa a sua liquidez e a prossecução de oportunidades de crescimento. Por conseguinte, devem de ter uma gestão financeira bastante atenta e cuidadosa para assegurar a rendibilidade, investimentos futuros e não pôr em causa a continuação do negócio.
Deste modo, é pertinente questionar se estas restrições financeiras condicionam a performance das empresas de menor dimensão e se existe alguma vantagem associada ao facto de serem empresas familiares. A resposta é sim! Este resultado foi obtido num estudo realizado em Portugal [2], que mostra que, apesar das restrições financeiras reduzirem a performance das empresas e aumentarem a possibilidade de falências das mesmas, no caso das empresas familiares o declínio na performance é menor e estas têm mais possibilidade de sobrevivência.
As empresas familiares distinguem-se das demais não só devido à sua estrutura de propriedade, mas também devido à sua riqueza socio-emocional e ligação emotiva e afetiva com a empresa. Têm um conhecimento aprofundado do negócio e parcimónia na gestão de recursos. Para além dos objetivos económicos, têm também objetivos não económicos, como os de controlo, a orientação de longo-prazo, impulsionada pelo desejo de passar o negócio para gerações futuras e deixarem um legado. Como tal, estes atributos únicos e distintos das empresas familiares traduzem-se em boas chances de sobrevivência, mesmo apesar de operarem sob maiores restrições financeiras. Os seus detentores têm o seu capital pessoal investido e procuram estratégias conservadoras que garanta a sobrevivência do negócio. Ou seja, para preservarem os seus objetivos económicos e não económicos têm tendência a serem mais avessos ao risco, terem um maior compromisso e alinhamento com a empresa. Focam-se nos melhores interesses destas, mostrando muito cuidado não só com o negócio, mas também com todos os que com ela estabelecem relações, desde os colaboradores, aos clientes e à comunidade. Estas redes estabelecidas são muito importantes e capazes de assegurar importantes resultados em tempos de maior dificuldade, por exemplo, em crises.
Em suma, a estrutura de propriedade familiar pode ser uma vantagem para as empresas face a restrições financeiras e deve ser tido em conta aquando da análise de obtenção e concessão de financiamento.
[1] Fonte: AEF – Associação de Empresas Familiares (disponível em https://empresasfamiliares.pt/).
[2] https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/mde.3428


